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Por: João Cardoso

João Cardoso

I

As nuvens choram! Recordo-me de vários episódios da minha infância e um desses é quando via arco-íris a despontar no pico da serra sempre associado a sinais repentinos da trovoada e do relâmpago. Dizia para a minha avó se são os anjinhos do céu que vão dizer às nuvens para chorarem para que caia a chuva. Ela esfregava-me com as pontas dos seus mimados e compridos dedos da mão esquerda à minha cabeça para só depois responder-me. Primeiro, precisamos de rezar para que os anjinhos peçam a Deus que nos deem a chuva do céu. E eu… eu sempre acreditava, piamente, na boa-fé da minha avó até que um certo dia acabei por aprender a catequese pela dedicação de uma devota vizinha e comecei a rezar com paixão para pedir aos anjinhos para as nuvens chorarem. Por todo esse gesto, religiosamente, aguardava uma recordação com uma tatuagem para levar ao céu se as nuvens chorassem. No mundo de pecadilhos de «self-made man» em que “não se morre mais de mágoas” como escreveu Saul Bellon. Hoje, a tatuagem deixou de ser um segredo e é cada vez mais um conjunto de simulacros. Jurarei que ela morreria comigo quando o corpo descesse à sepultura.

II

Às vezes as nuvens choram! Os impulsos de Bergson mandaram-me recados já na idade dos peludos: (“cá, às vezes as nuvens choram”). Vivemos com a coragem de se fazermos sempre contra as sinfonias dos ventos que nem a orquestra do Sahel nos esmaga nem os solistas são dissonantes com as tempestades no limiar das cagarras (Calonectris edwardsii). Sem fanfarronice e sem tartamudear: estamos habituados ao vento. O vento nem alvíssaras nos trazem porque com ele vem o sufoco, os gafanhotos (Caelifera) e a desolação. E nós… nós que passamos anos e anos a pedir às nuvens para chorarem em cima do nosso calor e desespero. Deploramo-nos com a cabeça levantada à porta da igreja na aldeia de Renque Purga “Se chover somos ricos!”. Como nós nem rio temos para que possamos perguntar aos Deuses que destino final para essas gotas - à míngua - terão de cumprir depois de pingarem (?) E que sem pausa nem cansaço correm… correm.

III

Outra vez, outra vez os impulsos de Bergson (reflexivos) replicaram-me agora já és um adulto: (“Cá, raramente as nuvens choram!”) Eu penso na água e na vida e longe da imagem que as suas imagens molduradas dentro de mim acabam sempre por me confidenciar que é fora de fora de tudo e é dentro de dentro de tudo: Cabo Verde. Se me pedissem para desenhá-lo era de uma mão do mundo com unhas compridas, em espiral, a arranhar as nuvens como a raiva de uma criança. E depois, pintava-a de verde para criar uma enorme umbrela de sombras e de esperanças. Pergunta-se, muitas vezes, qual será a saída? Respondo: está nas nossas mãos. Nós devemos tomar a consciência dessa realidade. Assim, poderemos viajar e deixar pegadas por muitas e muitas terras mais do que aquelas que possamos sonhar e veremos mais cenários do que aqueles em que possamos olhar.

IV

Agora sob “o Efeito da Verdadeira Maturidade” de Friedrich Nietsche com o olhar da alegria, o de tristeza ou da alternância de amor e de ódio para poder-me ser livre como a Natureza ilhéu. Lembrei-me doutro episódio (!) Eram das ofertas de rebuçados &brinquinhos da Nhá Palomina oferendados por uma esbelta e mulata tia-avó Maria que andava sempre de pés descalços que emprestavam à terra batida e o dorido calçada os seus franzinos dedos que davam para sentir a tristeza: o dedo de o dedo… mas que reluziam de limpinhos. Ela vestia sempre umas vaidosas e compridas saias e xaile amarrada nas ancas até debaixo dos joelhos e que escondiam carinhosamente uns bolsos confecionados de farrapos à multicolor “txapa – txapa” onde guardava alguns tímidos tostões, cachimbo e erva.

V

Nessas histórias de as nuvens choram; cá, às vezes as nuvens choram ou cá, raramente as nuvens choram; ocorreu-me agora a história da Amizade, a da Paixão e a da Razão e pensei na peça da comédia “Le Tartuffe de Molière” com o (devido poder da palavra e o poder das ações) para denunciar males eternos e “universais” como a corrupção, a hipocrisia religiosa, a ocupação de mando e relevo por espertalhões e fanfarrões. Uma das personagens dessa comédia era a Dona Pernelle, mãe de Organ, a ser enganada por Tartufo, Organ, senhor da casa, esposo de Elmire, enganado por Tartufo, enfim Tartufo, falso devoto, que engana Organ e Dona Pernelle. Tamanha hipocrisia ou falso religioso na arte de tartuficar. Que Molière desconstrói a hipocrisia de estrutura social da época desmascarando o farsante “Tartufo”. O rei Luís XIV de França empoleirado no trono a exercer a sua influência na defesa de Tartuffe com champagne coroada na catedral de Notre Dame de Reims.

VI

Nessas bonitas histórias de as nuvens choram; cá, às vezes as nuvens choram ou cá, raramente as nuvens choram e da peça da comédiaLe Tartuffe de Molière” e da defesa de Tartuffe pelo rei Luís XIV. Prefiro continuar - a ser uma criança - a perguntar, inocentemente, a minha avó se as nuvens choram (?) e ficar-me eternamente sob “o Efeito da Verdadeira Maturidade” de Nietsche. Sem ser fanfarrão; sem ser hipócrita; sem ser falso devoto e sem tartuficar almas. Amém!



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