
Pensar Santiago Norte é, afinal, pensar Cabo Verde de forma mais justa, equilibrada e sustentável. É reconhecer que não haverá desenvolvimento nacional pleno, enquanto uma das regiões mais ricas em história, cultura e potencial económico continuar a ser deixada para trás.
Santiago Norte é uma das regiões de Cabo Verde, composta por seis municípios, e constitui uma das maiores unidades territoriais do país, sendo atualmente a segunda mais populosa. A sua importância histórica, cultural e económica é incontornável no percurso da construção da nossa nação.
Foi em Santiago Norte que se travaram algumas das mais marcantes lutas sociais pela emancipação e pela afirmação da dignidade do povo cabo-verdiano. É, igualmente, um dos grandes berços da nossa identidade cultural e a região com maior diversidade de potencialidades económicas, com destaque para a agricultura, a pecuária, as pescas e os vários segmentos do turismo — de praia, de natureza e cultural. Acresce, ainda, o facto de ser a região com maior número de emigrantes, sendo, por isso, uma das que mais contribui com as remessas dos emigrantes para a economia nacional.
Importa recordar que Santiago Norte foi, até aos anos 1970, a região mais populosa do país, tendo Santa Catarina como epicentro demográfico nacional (a mais populosa). No entanto, ao analisarmos a evolução da região, ao longo dos últimos 50 anos, é difícil não concluir que existe uma dívida histórica significativa do Estado de Cabo Verde para com esta parcela fundamental do território nacional.
Os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), constantes do quadro seguinte, são claros e preocupantes. As projeções indicam que, até 2040, todos os municípios de Santiago Norte perderão população, num total estimado de 10.498 habitantes. Apenas Santa Catarina deverá perder cerca de 4.478 residentes, o que corresponde a quase metade do total da perda regional. Esta tendência de erosão demográfica, persistente e contínua, exige uma resposta urgente e estruturada.

A perda acelerada de população, seja por via da emigração, seja por deslocação interna para a Praia, ou para as ilhas turísticas como o Sal e a Boa Vista, não acontece por acaso, pois ela resulta, de forma inequívoca, da escassa atenção que a região tem recebido das autoridades políticas e governamentais, ao longo de décadas, uma realidade que antecede a Independência Nacional e que, infelizmente, se prolongou no período pós-independência.
Sendo historicamente a região mais populosa do país, seria expectável que tivesse beneficiado de uma maior concentração de investimentos públicos, acompanhando a densidade populacional e a procura por serviços e infraestruturas. Tal não aconteceu, durante o período colonial, mas também é verdade que os sucessivos governos de Cabo Verde independente não conseguiram fazer o Estado dar atenção devida e fazer a justiça histórica, em termos de investimentos públicos, para com a Região de Santiago Norte
As enormes potencialidades nos domínios da agricultura, da pecuária, das pescas e do turismo continuam, em grande medida, por explorar. Todavia, é justo reconhecer que, entre 2001 e 2016, houve um esforço significativo de investimento público, com destaque para a construção de seis barragens em Santiago Norte, bem como fortes investimentos em energia elétrica, estradas, saúde, educação e combate à pobreza. Acontece, porém, que, desde 2016, esses investimentos foram praticamente descontinuados, deixando obras importantes por concluir, como por exemplo, as obras complementares de barragens e um conjunto de outras ações sequenciais para que se possa tirar maior proveito das barragens e fazer delas, verdadeiramente, um grande investimento produtivo.
O setor das pescas é outro exemplo flagrante de abandono. Em cerca de uma década, não se registaram iniciativas estruturantes relevantes, nomeadamente ao nível das infraestruturas básicas, como cais de pesca ou simples arrastadouros e, muito menos, iniciativas para a industrialização do setor, idem para a agricultura e a pecuária.
Neste contexto, enquanto filho e residente de Santiago Norte, registo com particular atenção e esperança o compromisso assumido por Francisco Carvalho em apostar fortemente no setor primário da economia cabo-verdiana. A sua visão de iniciar um processo de industrialização do país, começando pela agricultura, pela pecuária e pelas pescas é não só corajosa, como absolutamente necessária.
Destaco, em particular, a proposta de reinstalação da antiga unidade industrial Justino Lopes, em Santa Cruz, e a ambição de devolver a este município o estatuto de terra exportadora de banana. A criação de um Banco Agrícola surge, igualmente, como uma aposta estratégica essencial. Estes compromissos são cruciais para Santiago Norte e podem representar o início de um novo ciclo de desenvolvimento, capaz de quebrar a trajetória de degradação que a região tem vivido.
Pensar Santiago Norte é, afinal, pensar Cabo Verde de forma mais justa, equilibrada e sustentável. É reconhecer que não haverá desenvolvimento nacional pleno, enquanto uma das regiões mais ricas em história, cultura e potencial económico continuar a ser deixada para trás.
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