
Os democratas de pechisbeque que, agora, bajulam Trump, são os mesmo que, até novembro do passado ano, idolatravam o ditador guineense Umaro Sissoco Embaló, que com eles sempre foi muito generoso e até lhes financiava as campanhas eleitorais com dinheiro sujo. E a grande polémica nacional em torno do faraónico monumento à liberdade e democracia, não é uma questão estética nem orçamental, embora 150 milhões de escudos num país cheio de carências e onde o Governo está em falta, por exemplo, com as promessas feitas a Santiago Norte por razão das recentes intempéries, possa ser entendido como um insulto à pobreza.
Para início de conversa, convirá dizer que nunca nutri qualquer simpatia por Nicolás Maduro e o regime venezuelano, estruturalmente autoritário e sustentado por generais, que boa parte da esquerda teima em apoiar com o argumento “facilista” de que a Venezuela é uma linha avançada da luta anti-imperialista.
E nunca gostei de Maduro por o homem ser um “comunista radical”, como dizem os “direitolas”, aliás, o mesmo “comunista” que mandou perseguir e prender militantes e dirigentes, e proibiu de participar em eleições o Partido Comunista da Venezuela.
Posto isto, condeno em absoluto a agressão de Donald Trump à Venezuela, à sua soberania e integridade nacional, e deploro o sequestro terrorista do seu presidente, em violação da Carta das Nações Unidas e do Direito Internacional.
“Ai, mas que grande incoerência, não gosta do Maduro e está contra a sua captura”, dirão os mais apressados democratas de pechisbeque que pululam por aí, de um lado e de outro do Atlântico. Não, estão redondamente enganados!
Para além de não gostar do Maduro, abomino a lei da selva imposta a ferros pelo pirata de Washington, o psicopata Donald Trump, que vocês agora exaltam como grande referência da luta pela democracia, das liberdades e grande combatente contra o tráfico de drogas, como, agora, seus caras-de-pau, bolsam em pornográfica abundância por tudo o que é rede social ou meio de comunicação que dá palco à imbecilidade.
Em matéria de democracia e liberdades, para além de Trump ter mantido o regime que diz combater, ou seja, deixando tudo na mesma e encornando a senhora Corina Machado, essa figura patética que, bastas vezes, pediu intervenção militar norte-americana no seu próprio país, é termos um olhar desapaixonado pela realidade nos Estados Unidos.
Um farsante golpista, psicopata e fascista: a referência dos democratas de pechisbeque
Por exemplo (e nem valerá a pena referir que o inquilino da Casa Branca tentou dar um golpe no final do seu primeiro mandato ou as fortíssimas evidências de suas ligações ao abuso sexual de menores – ó moralistas de pacotilha!), com a guarda neo-nazi trumpista ICE a perseguir trabalhadores e mesmo a matar uma cidadã do seu país, como aconteceu dias atrás, perseguindo pessoas, condicionando a imprensa, sangrando universidades e tentando impor o pensamento único.
Ou seja, a grande referência da luta pela democracia e as liberdades não passa de um farsante golpista, psicopata e fascista, uma espécie de Hitler de feira com uma ridícula melena loira!
E, quanto ao grande combatente contra o tráfico de drogas, convirá recordar que um dos seus decretos colocou em liberdade Juan Orlando Hernández, ex-presidente hondurenho, sentenciado a 45 anos de prisão por facilitar o envio de mais de 400 toneladas de cocaína para os EUA, do mesmo partido do candidato de extrema-direita à Presidência das Honduras, apoiado por Trump, com o argumento de ser “boa pessoa”.
E, já que falamos em tráfico de drogas e no seu suposto combate promovido pela Casa Branca, convirá ainda dizer que a principal acusação contra Nicolás Maduro, de ser líder do “Cartel de los Soles”, o próprio Departamento de Justiça já a deixou cair, porquanto o tal cartel nem existe, não passando de uma invenção de Trump e dos extremistas e alucinados que o rodeiam.
Aliás, se há qualidade que Trump revela é a sua franqueza, logo a seguir ao sequestro do presidente venezuelano, o inquilino da Casa Branca disse ao que ia e para onde vai.
Qual democracia e liberdades, quais direitos humanos e combate ao tráfico de drogas. As verdadeiras razões da agressão ordenada pelo pirata de Washington resumem-se a uma frase: roubar o petróleo da Venezuela. Como, aliás, os EUA já haviam feito no Iraque, na Líbia, na Síria, na Nigéria e na grande maioria dos países africanos.
O saque e a rapina do império são a estrutura central da sua política externa. Os EUA, praticamente desde a sua existência, comportam-se como uma quadrilha de assaltantes em nome do sagrado nome da liberdade e da democracia.
Os democratas de pechisbeque que, agora, bajulam Trump, são os mesmo que, até novembro do passado ano, idolatravam o ditador guineense Umaro Sissoco Embaló, que com eles sempre foi muito generoso e até lhes financiava as campanhas eleitorais com dinheiro sujo.
Voltando aos equívocos de certa esquerda, recuso-me a apoiar qualquer regime com o argumento de que é um mal-menor, por contraposição a um mal maior (que seria o imperialismo). Por isso, sou politicamente contra Maduro e o seu regime que, generosamente, o gabarola Trump manteve no poder. E, ao mesmo tempo, condeno a ilegítima e terrorista intervenção norte-americana na Venezuela.
É ao povo venezuelano e não a qualquer psicopata travestido de democrata que compete decidir o seu futuro, como é ao povo norte-americano compete decidir o seu!
Os donos da democracia em delírio
A grande polémica nacional em torno do faraónico monumento à liberdade e democracia, não é uma questão estética (eu nem desgosto de todo) nem orçamental, embora 150 milhões de escudos num país cheio de carências e onde o Governo está em falta, por exemplo, com as promessas feitas a Santiago Norte por razão das recentes intempéries, possa ser entendido como um insulto à pobreza.
O problema central é que a democracia e a liberdade não devem ser entendidas como acessórios iconográficos. Pelo contrário, elas são, desde logo, uma questão de convicção profunda interior e em processo permanente de construção, precisando de ser cuidadas com afeto e defendidas com coragem todos os dias.
E, muito menos, devem ser vistas como lindas palavras no dicionário, antes exigem a construção de um país e de um Estado que se batam pela justiça social, pela cultura, por uma economia ao serviço das pessoas e uma estrutura coletiva com menos privilégios e mais direitos.
Tão-pouco, a liberdade e a democracia se devem circunscrever ao direito de votar de quatro em quatro ou de cinco em cinco anos, devem sim dar vez e voz à participação da sociedade nas decisões dos poderes públicos.
Tão-pouco, ainda, a liberdade e a democracia não devem ser a capa sob a qual se esconde sub-repticiamente o autoritarismo, a perseguição e as tentativas de prejuízo a pessoas que pensam diferente e não têm dono.
Os democratas de pechisbeque mudaram nas últimas semanas as narrativas sobre as datas nacionais e, nomeadamente, sobre o 13 de Janeiro. Se antes, era evidente a exaltação da data como glória do partido do governo, historicamente sempre se apresentando como “pai da democracia”, vêm agora com o discurso fofo da grande unidade nacional em defesa da independência e de uma democracia, supostamente em perigo.
E, por tal, juntaram à sua volta quase toda a classe dominante, ideologicamente horizontal, que cresceu e engordou, maioritariamente, às costas do Estado e dos partidos. Parece-me um exercício frágil cujas consequências poderão ser o contrário do pretendido. Até por uma razão de fundo: o povo não é parvo!
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