O custo da encenação
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O custo da encenação

Quem critica não odeia Cabo Verde. Quem questiona não é inimigo da Liberdade. Pelo contrário: só numa sociedade livre é possível discordar sem ser rotulado. Só numa democracia saudável se aceita que o amor ao país também se manifeste em perguntas incómodas. A Liberdade não precisa de monumentos caros para existir. Precisa de instituições sólidas, prioridades claras e respeito pela inteligência dos cidadãos. Tudo o resto é encenação e basofaria.

Foi inaugurado na Praia um monumento dedicado à Liberdade e à Democracia. À primeira vista, a ideia parece irrepreensível. Quem, em pleno juízo, seria contra a Liberdade? Quem ousaria declarar-se adversário da Democracia? O problema começa exactamente aí: quando símbolos nobres são usados como escudo moral para silenciar perguntas legítimas e quando o debate público é reduzido a um teste de fidelidade patriótica.

O monumento, erguido na rotunda de Achada Grande, à entrada do Aeroporto da Praia, tornou-se polémico não pelo seu significado abstracto, mas pelo custo concreto da sua construção. E é aqui que o discurso triunfalista falha, porque a Liberdade não se mede em betão, aço ou iluminação cénica, mede-se na capacidade de um Estado aceitar escrutínio sem reagir com acusações morais.

Afirmar que “só contesta quem convive mal com a Liberdade e a Democracia” não é apenas intelectualmente pobre, é politicamente perigoso. Essa lógica transforma a crítica num acto de traição, aplaudir o Governo numa prova de amor ao país, e é a negação do próprio princípio democrático que dizem celebrar.

Numa democracia madura, questionar prioridades orçamentais não é um ataque ao regime, é um dever cívico.

O problema não é a existência de um monumento…o problema é o contexto. Cabo Verde vive constrangimentos económicos sérios, com dificuldades estruturais em áreas essenciais como saneamento, habitação, mobilidade urbana, saúde e protecção social. Num país onde se pede contenção à população e sacrifício permanente em nome da estabilidade, cada investimento público deve ser avaliado com rigor, proporcionalidade e sentido de prioridade. Um monumento, por mais nobre que seja a sua intenção, não está acima dessa avaliação.

Há ainda uma questão de ética política. A Liberdade e a Democracia em Cabo Verde não nasceram de um governo específico nem pertencem a um ciclo partidário. São conquistas colectivas, históricas, com custos humanos e sociais que não cabem numa obra de betão, nem se celebram com inaugurações oficiais cheias de palavras grandes e perguntas pequenas.

Apropriar-se desses valores para legitimar decisões discutíveis é reduzir a Democracia a um adereço decorativo.

Para mim, o mais grave é usar a data de 13 de Janeiro, como argumento emocional para bloquear o debate.

Celebrar datas históricas não suspende o direito à crítica. Pelo contrário, honrá-las implica precisamente garantir que o poder político continue a ser questionado, vigiado e confrontado. Democracia não é unanimismo e Liberdade não é silêncio obediente.

A democracia vive de conflito civilizado, de divergência, e de escrutínio.

Quando todos concordam, alguém deixou de falar ou foi empurrado para o silêncio.

O Governo de Cabo Verde, enquanto gestor de recursos públicos, tem a obrigação de explicar, com transparência e detalhe, quanto custou este monumento, porquê este valor, quais as alternativas consideradas e que critérios presidiram à decisão. Não basta apelar ao simbolismo, porque o simbolismo não paga contas, não resolve carências estruturais e não substitui políticas públicas eficazes.

Quem critica não odeia Cabo Verde. Quem questiona não é inimigo da Liberdade. Pelo contrário: só numa sociedade livre é possível discordar sem ser rotulado. Só numa democracia saudável se aceita que o amor ao país também se manifeste em perguntas incómodas.

A Liberdade não precisa de monumentos caros para existir. Precisa de instituições sólidas, prioridades claras e respeito pela inteligência dos cidadãos. Tudo o resto é encenação e basofaria.

SEM APLAUSOS

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