
Não há liberdade, quando a mobilidade, pilar de qualquer Estado arquipelágico, foi transformada num luxo inacessível. O transporte inter-ilhas é caro, irregular e imprevisível. Para muitos cabo-verdianos, visitar um familiar noutra ilha ou conhecer o próprio país é um privilégio inalcançável ao longo de toda uma vida. Não há liberdade, enquanto o povo aperta o cinto, o desgoverno esbanja. Milhões de dólares são gastos em show off internacional, feiras no Dubai, Ocean Race, fragatas, estátuas de 150.000 contos, escadarias de milhões na Lajinha e na Baía. Obras de vaidade, num país onde falta o essencial.
A liberdade não é um slogan, nem um feriado celebrado com pompa e gastos milionários. A liberdade real mede-se pela vida concreta do povo. Quando essa vida é marcada pela exclusão, precariedade e desigualdade, falar de liberdade é, no mínimo, um exercício de hipocrisia política.
Não há liberdade quando existem presos políticos, como no caso de Amadeu Oliveira, bem como perseguições e a judicialização da política.
Não há liberdade quando uma mulher é obrigada a engolir água do mar para fazer da extração de areia o sustento dos seus filhos, sendo ainda usada como imagem de propaganda pelos canais do próprio Estado, apresentada cinicamente como sinal de “resiliência”.
Não há liberdade quando milhares de crianças abandonadas e o próprio Estado se limita a rotulá-las como “crianças de rua” ou “na rua”, em vez de assumir a responsabilidade de as proteger, cuidar e integrar com dignidade e quando várias famílias vivem daquilo que recolhem das lixieras e nos contentores de lixo.
Não há liberdade em pleno estado de calamidade quando se anunciam mais de 46 milhões de euros e, no fim, apenas se fazem festas, nas ruas de esgotos abertos, e, sem qualquer sinal de investimento em infraestruturas.
Não há liberdade onde faltam casas dignas, onde os bairros continuam sem arruamentos, saneamento básico e segurança estrutural, onde encostas permanecem por corrigir e o risco de deslizamentos ameaça vidas. Não há liberdade onde persistem casas de lata, ruas sem calcetamento e cidadãos sem acesso a condições mínimas de higiene e dignidade.
Não há liberdade quando o chamado crescimento económico não chega ao bolso do cidadão comum. Cabo Verde figura entre os países com maior custo de vida de África, enquanto os salários permanecem miseráveis. A economia cresce para alguns; o sacrifício fica para muitos.
Não há liberdade quando o setor do turismo, apresentado como motor do desenvolvimento, tornou-se um enclave económico sem vínculos com a economia local. Os grandes negócios estão nas mãos de estrangeiros; aos cabo-verdianos reservam-se os empregos de base, mal pagos, sem estabilidade nem perspetivas. Isto não é desenvolvimento, é reprodução da dependência.
Não há liberdade, quando a mobilidade, pilar de qualquer Estado arquipelágico, foi transformada num luxo inacessível. O transporte inter-ilhas é caro, irregular e imprevisível. Para muitos cabo-verdianos, visitar um familiar noutra ilha ou conhecer o próprio país é um privilégio inalcançável ao longo de toda uma vida.
Não há liberdade, enquanto o povo aperta o cinto, o desgoverno esbanja. Milhões de dólares são gastos em show off internacional, feiras no Dubai, Ocean Race, fragatas, estátuas de 150.000 contos, escadarias de milhões na Lajinha e na Baía. Obras de vaidade, num país onde falta o essencial.
Não há liberdade, quando a obscenidade atinge o auge quando governantes afirmam que “ganham mal”, apesar de auferirem subsídios e rendas de casa entre 70.000 e 100.000 ECV, seis vezes o salário mínimo nacional. O povo, esse, sobrevive com 17.000 ECV, condenado à sobrevivência permanente.
Não nos falem de liberdade enquanto o povo vive entre esgotos, precariedade e exclusão. Não nos falem de liberdade enquanto o Estado serve interesses e não cidadãos. Não nos falem de liberdade com festas caras e discursos vazios.
A liberdade que se comemora nas praças não é a que se vive nos bairros. E um país que celebra enquanto o seu povo sofre não está a honrar a liberdade, está a traí-la.
Chega de encenação. Liberdade exige justiça social, dignidade e igualdade de oportunidades. Tudo o resto é propaganda.
Artigo publicado pelo autor no facebook
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Comentários
Domingos Silva, 13 de Jan de 2026
A liberdade de 13 de Janeiro foi uma semente lançada em solo fértil, mas faltou rega e investimento. Não basta votar e falar: é preciso circular, criar e prosperar. Os transportes inter-ilhas continuam a ser um cancro social que trava a economia e separa o país. Sem condições materiais, a liberdade torna-se ritual sem realização e promessa sem futuro.
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Casimiro Centeio, 12 de Jan de 2026
A radiografia social sem tabu ! " Res nomie quo" - chamar as coisas por seu nome próprio. É exatamente isso que todos devem ouvir, ler e refletir ! A Liberdade não pode ser confundida com a HIPOCRISIA ! Hipocrisia de toda ordem: política, moral, emocional, social e intelectual. Não é o MONUMENTO DE HIPOCRISIA de 150 milhões que espelha ou expressa a real liberdade do homem Caboverdiano ...( Cont.)
Casimiro Centeio, 12 de Jan de 2026
...(Continuação) Não é o" MONUMENTO DE HIPOCRISIA" de 150 milhões que espelha ou expressa a real liberdade do Caboverdiano! Das crianças que sobrevivem de maioneses deterioradas nos contentores de lixo ! Os " generais da Tirania" , no poder, devem ter o pudor, o sentimento de vergonha, o bom senso e o respeito para os seres humanos.Casimiro Centeio, 12 de Jan de 2026
Sim, enquanto os " generais" da Ditadura Moderna tentam fazer prevalecer a sua luta pelo ego ou interesses partidários, recusando a solidarizar -se com os seus próprios eleitores, transformados hoje em " galinhas de Hitler", groons ou zé -quitolis, preferem, hipocritamente, erguer barras de cimento e ferros pintados com vernizes de cinismo, em nome da democracia e liberdade, movidos pela vaidade, esbanjando milhões, do Tesouro Público.... ( Cont.)Casimiro Centeio, 12 de Jan de 2026
...(Continuação) . Descaradamente, pedem mais um mandato... Fhm! Ninguém pode ser amigo do povo, sem antes ser leal para com o povo.Responder
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