
Um Estado que elogia os seus emigrantes apenas quando eles brilham, mas os responsabiliza quando tropeçam, não está a governar: está a reagir. E um país pequeno, com uma história de mobilidade forçada e escolhida, não pode dar-se ao luxo de tratar a sua diáspora como um ativo descartável do discurso político. Talvez seja tempo de perguntar menos “o que fizeram os cabo-verdianos” e mais “o que poderia o Estado ter feito diferente”. Porque culpar é fácil. Representar, é mais difícil. Mas é exatamente para isso que existe um Governo.
Há algo profundamente desconfortável na forma como o Governo escolheu reagir à decisão dos Estados Unidos de exigir uma caução até 15 mil dólares a cidadãos de 38 países, entre os quais Cabo Verde.
Desconfortável não pela medida americana, soberana, previsível e baseada em dados, mas pela narrativa escolhida internamente para a explicar.
De repente, o problema são “os cabo-verdianos”. Os mesmos que, em outras ocasiões, são exaltados como a nossa maior riqueza. Os mesmos que sustentam famílias inteiras através de remessas. Os mesmos que são celebrados como exemplo de integração, empreendedorismo e sucesso na diáspora. Os mesmos que são chamados quando convém, para votar, investir, promover o país, encher auditórios e discursos.
Hoje, porém, são apresentados como o fator causal de uma penalização coletiva. Hoje, a responsabilidade é exclusivamente “comportamental”. Hoje, o Estado lava as mãos.
É curioso como o discurso muda consoante o vento. Quando a diáspora envia milhões, é virtuosa. Quando regressa no verão, é orgulho nacional. Quando enfrenta uma barreira externa, passa a ser estatística incómoda.
Ninguém nega os números. Ninguém ignora a taxa de overstay. Mas reduzir um fenómeno complexo, económico, social e histórico, a uma sucessão de “comportamentos individuais” é intelectualmente pobre e politicamente confortável. Porque se tudo é individual, nada é estrutural. Se tudo é culpa do cidadão, o Estado nunca falha. Nem na criação de oportunidades. Nem na diplomacia preventiva. Nem na construção de alternativas reais à emigração irregular. Nem na proteção simbólica dos seus nacionais.
Governar não é apenas repetir relatórios de outros países. É interpretar. É contextualizar. É defender os seus, mesmo quando erram , sem normalizar o erro.
Há uma diferença enorme entre apelar à responsabilidade e apontar o dedo. Entre educar e expor. Entre representar um povo e distanciar-se dele quando a imagem internacional fica menos confortável.
Um Estado que elogia os seus emigrantes apenas quando eles brilham, mas os responsabiliza quando tropeçam, não está a governar: está a reagir.
E um país pequeno, com uma história de mobilidade forçada e escolhida, não pode dar-se ao luxo de tratar a sua diáspora como um ativo descartável do discurso político.
Talvez seja tempo de perguntar menos “o que fizeram os cabo-verdianos” e mais “o que poderia o Estado ter feito diferente”. Porque culpar é fácil. Representar, é mais difícil. Mas é exatamente para isso que existe um Governo.
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Comentários
Fannon Bantu, 8 de Jan de 2026
Meu caro, a minha única crítica ao teu artigo, que é salutar, é o excessivo uso da palavra Estado, em vez da palavra GOVERNO! Não foi o Estado no seu todo, que posicionou-se de forma tão cínica e rasteira, mas sim parte dela, o GOVERNO ou o DESGOVERNO!
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