Onésimo Silveira: “Coerência entre o poeta e o homem público é absoluta”
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Onésimo Silveira: “Coerência entre o poeta e o homem público é absoluta”

As palavras são do embaixador jubilado, escritor e antigo ministro Jorge Tolentino. Foi ontem no LusoCentro” do Bristol Community College na conferência “Onésimo Silveira: a trincheira invicta”, a que deu voz no estado norte-americano de Massachusetts. Para Tolentino, a poesia do intelectual mindelense, falecido em abril de 2021, “é a geografia da dor de Cabo Verde. Mas também é anúncio de libertação”.

O “Luso Centro” do Bristol Community College, no estado norte-americano de Massachusetts, acolheu esta quinta-feira, 19, a conferência “Onésimo Silveira: a trincheira invicta”, pela voz do embaixador jubilado, escritor e antigo ministro Jorge Tolentino. Um momento maior de grande participação, principalmente de estudantes, extasiados com as palavras de Tolentino e a figura eterna de Onésimo.

“Naqueles anos de fome, desesperança e abandono pelo poder colonial, o Porto Grande de São Vicente se convertera em desabrigo para todos aqueles que dele dependiam para o seu ganha-pão”, começou por contextualizar historicamente Jorge Tolentino, numa alusão ao poema de Onésimo “Portão das Companhias”, o velho portão das companhias carvoeiras, “símbolo do destino trágico e cansado de uma ilha inteira”, a ilha que foi berço e local de partida do poeta, escritor, tradutor, político, diplomata e intelectual.

Viagem ao mundo de Onésimo nas suas várias facetas

Conhecedor profundo da obra e do percurso de Onésimo Silveira, Jorge Tolentino proporcionou à interessada plateia uma viagem ao mundo multifacetado do poeta e de todas as suas várias facetas, cujas palavras colocamos aqui, sem cortes, para fruição de todos e cada um dos leitores, para que a memória de Onésimo não se apague.

“Onésimo Silveira teria completado 91 anos no passado dia 16 de fevereiro. Nasceu no Mindelo, em 1935. Cresceu num ambiente de carências profundas, num contexto internacional marcado pelos efeitos da Segunda Guerra Mundial e pela transformação do comércio marítimo, que relegou o Porto Grande para uma posição marginal. Não chovia. A seca impiedosa juntava-se à fome que assolava as ilhas. Eram tempos em que a padiola não tinha sossego no seu percurso para o cemitério.

Esses dramas marcaram profundamente o jovem Onésimo. Em especial, o drama dos chamados contratados, migrantes forçados para São Tomé. Ele próprio testemunhou essa realidade entre 1956 e 1959. Descreveu as roças como espaços onde os cabo-verdianos estavam reduzidos a uma condição próxima da escravatura. Falou de “autêntica feira humana”. Foi ele quem, destemidamente, levantou a lanterna da denúncia sobre esse drama. A sua revolta transformou-se em acção. Publicou, em 1960, em Angola, ‘Toda a gente fala, sim senhor’, obra de denúncia da submissão colonial. Foi preso várias vezes pela PIDE. Frequentou a Casa dos Estudantes do Império, absorvendo ideias de emancipação africana. Em 1964, foge para a Holanda e junta-se ao PAIGC. Representa o movimento na Suécia. Doutora-se em Ciência Política.

Mais tarde, publica textos fundamentais como ‘Consciencialização da Literatura Cabo-verdiana’. Trabalha para o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Vive na China, onde lecciona. Mas, acima de tudo, Onésimo era um pensador. Como ele próprio escreveu: ‘Compreendi muito cedo que a literatura é uma actividade social. Que a obra literária não se isola do seu contexto histórico, cultural e político. Para mim, existe um verso libertado antes de existir um verso livre.”

A sua poesia é denúncia frontal. É combativa. É desassombrada. É uma palavra organizada como mochila de combate. Queria uma poesia diferente para o povo das ilhas: ‘O povo das ilhas quer um poema diferente. Um poema sem crianças à espera do pão. Um poema sem barcos lastrados de gente a caminho do sul.’

A coerência entre o poeta e o homem público é absoluta. Presidente de Câmara, deputado, candidato presidencial, embaixador; todas essas funções nunca apagaram o combatente da palavra. Onésimo Silveira integra a geração do Suplemento Cultural, ao lado de Gabriel Mariano, Rinelda Fonseca, Orlanda Amarílis e outros nomes maiores da literatura cabo-verdiana. A sua obra inscreve-se na literatura africana de insubmissão. Faleceu a 29 de abril de 2021. Nesse dia escrevi: foi um privilégio ter convivido com uma personalidade multifacetada, transportando sempre um orgulho profundo das suas raízes. Nunca foi indiferente. Nunca deixou nada por dizer. Era frontal: ‘Digo o que penso e pronto’, afirmava.

A sua poesia é a geografia da dor de Cabo Verde. Mas também é anúncio de libertação. Em ‘Hora Grande’ escreve: ‘A fome não se alimentará da fome. Voaremos nas asas do sol com o destino na palma da mão.’ Essa é a herança que nos deixa. Uma poesia de denúncia, mas também de esperança.”

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