
Já trabalhou sob as ordens de alguém que usava o poder para humilhar, apagar e suprimir em vez de liderar? Já sentiu que a sua competência era tratada como uma ameaça em vez de um ativo? Conta a tua história porque este silêncio já durou tempo demais.
Há uma forma de mediocridade que se veste de poder. Não se anuncia com brutalidade declarada nem com confrontos abertos prefere operar nos bastidores, nas omissões calculadas, nos registos que desaparecem, nas presenças que são tratadas como se nunca tivessem existido. É o poder exercido não como serviço, mas como propriedade exclusiva. E quando esse poder se encontra diante de uma legitimidade que não controlou, que não fabricou e que não pode revogar, a sua reação revela, com uma clareza impiedosa, a dimensão real da sua insignificância.
A psicologia do líder autoritário é um estudo em paradoxos. Quanto mais alto o cargo que ocupa, mais profundo o vazio que o habita. O narcisismo de quem governa pelo medo não se alimenta de conquistas alimenta-se da supressão sistemática do que brilha por conta própria. Para esse tipo de figura, o espaço institucional não é uma arena democrática partilhada; é um palco de monólogo onde qualquer outra voz com legitimidade própria é percecionada como uma usurpação. A incapacidade de coexistir com a grandeza alheia não é uma falha de carácter menor é o diagnóstico preciso de uma liderança falhada.
O mecanismo do apagamento institucional é, simultaneamente, a arma preferida do tirano e a sua confissão mais eloquente. Ao orquestrar a exclusão de alguém dos registos oficiais como se omissões administrativas pudessem revogar factos políticos o autor desse apagamento está a revelar, de forma inequívoca, que a mera existência daquele indivíduo o perturba. Ninguém desperdiça capital institucional, tempo e energia a tentar invisibilizar o que é genuinamente irrelevante. O esforço do apagamento é, por definição, o maior reconhecimento involuntário que um tirano pode conceder àquele que tenta suprimir.
Do ponto de vista clínico e organizacional, este padrão de comportamento tem nome e descrição precisa: é o exercício patológico do poder por parte de uma personalidade narcísica que utiliza os recursos da instituição para fins de dominação pessoal e punição seletiva. Os especialistas em liderança tóxica identificam neste perfil uma característica constante a incapacidade estrutural de tolerar legitimidades paralelas. O tirano institucional não combate ideias; combate presenças. Não refuta argumentos; apaga registos. É a falência da substância substituída pela obsessão pelo controlo da forma.
O que distingue o estadista do tirano não é a competência técnica é a estatura moral. Um líder de envergadura genuína compreende que a força de uma instituição cresce com a pluralidade das legitimidades que a habitam. O tirano, ao contrário, interpreta essa pluralidade como uma ameaça à sua exclusividade. Cada mandato independente que coexiste com o seu é sentido como uma afronta. Cada reconhecimento que não emana das suas mãos é vivido como uma usurpação. E assim, em vez de construir, corrói. Em vez de liderar, persegue. Em vez de servir a instituição, instrumentaliza-a.
A estratégia do apagamento tem uma lógica que se autodestrói. Ao tentar suprimir uma presença legítima dos registos institucionais, o tirano está a fazer exatamente aquilo que mais temia: a tornar essa presença indispensável à narrativa. Porque a ausência deliberada grita mais alto do que qualquer registo. Porque o silêncio construído como arma acaba por ser o documento mais eloquente do processo. Qualquer observador com discernimento mínimo não vê uma ausência vê a marca do medo de quem a fabricou. O apagamento torna-se, assim, o retrato involuntário do apagador.
A história das instituições democráticas está repleta de figuras que tentaram controlar a narrativa pela exclusão dos incómodos. O padrão repete-se com uma monotonia quase didática: o detentor do cargo usa os mecanismos administrativos para tentar reduzir o espaço dos que possuem legitimidade própria; os registos são manipulados, as memórias são editadas, as presenças são omitidas. E invariavelmente, o resultado é o mesmo a manobra fica registada, o manipulador fica exposto, e a legitimidade que tentou suprimir sai reforçada pelo contraste com a pequenez de quem a perseguiu.
Existe uma ironia estrutural no comportamento do chefe narcisista: ao tentar impor a ausência do outro, ele próprio se torna ausente de ética, ausente de grandeza, ausente da dignidade que o cargo exige. A instituição que deveria servir transforma-se no instrumento das suas inseguranças. Os recursos públicos que deveria gerir com imparcialidade convertem-se em ferramentas de perseguição privada. E nesse momento de conversão, o tirano deixa de ser um líder para se tornar aquilo que sempre foi: um gestor de medos próprios com autoridade emprestada.
A legitimidade não depende de carimbos, de registos de gabinete, nem do reconhecimento de quem governa pelo ressentimento. Ela existe independentemente de ser documentada, celebrada ou tolerada pelo poder vigente. O facto político é irrevogável nasce de processos que estão acima da vontade de qualquer chefe, e nenhuma omissão administrativa tem a capacidade de o extinguir. O tirano pode editar os arquivos internos, mas não pode editar a realidade. Pode controlar o que é registado, mas não o que aconteceu. E é precisamente nessa impotência fundamental que reside a comédia trágica do seu esforço.
No tribunal silencioso da história, os apagadores não ficam como protagonistas ficam como notas de rodapé. O que persiste não é quem ocupou o cargo, mas quem serviu com integridade enquanto o ocupava. O que a memória coletiva preserva não são os que mais tentaram controlar a narrativa, mas os que foram suficientemente sólidos para dispensar esse controlo. O chefe narcisista e tirano deixará, inevitavelmente, o rasto que mais temia: não o rasto do poder que exerceu, mas o da fraqueza que revelou cada vez que sentiu necessidade de apagar alguém para se sentir inteiro.
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