Turismo político e campanha encoberta à custa do povo
Editorial

Turismo político e campanha encoberta à custa do povo

Com despudor, o Governo nem se esforça um pouco que seja em camuflar as suas verdadeiras intenções: a utilização da estrutura e de recursos do Estado para a corrida em direção a 17 de maio, mesmo antes de ser dado o tiro de partida. São, seguramente, sinais evidentes de desespero, o que faz um Governo anunciar, agora, ir cumprir o que numa década nunca fez, tratando os cabo-verdianos como se fossem idiotas e padecessem da amnésia.

O ministro de Estado, da Família, Inclusão e Desenvolvimento Social, Fernando Elísio Freire, vai estar hoje no Maio, alegadamente para “acompanhar a implementação das políticas sociais na ilha”. E, seguramente, far-se-á acompanhar de um grupo de diretores, assessores e mais que o valha, numa agenda onde não se vislumbra qualquer emergência ou necessidade imperiosa.

Isto é, dando uma vista de olhos pela agenda do ministro, facilmente se poderá deduzir que Elísio, ficando no seu gabinete e socorrendo-se de três ou quatro telefonemas, de comunicações online e da linha avançada do seu ministério na ilha, poderia perfeitamente acompanhar qualquer “implementação”, sem necessidade de desbaratar recursos do Estado.

Este é apenas um exemplo de que este Governo, na fase final da sua existência, mais parece uma agência de viagens, mas também uma agência de marketing, promovendo turismo político e campanha eleitoral antecipada à custa do povo, ou seja, dos contribuintes.

Com despudor, o Governo nem se esforça um pouco que seja em camuflar as suas verdadeiras intenções: a utilização da estrutura e de recursos do Estado para a corrida em direção a 17 de maio, mesmo antes de ser dado o tiro de partida.

E disso temos múltiplos exemplos, desde logo, com as comitivas do primeiro-ministro, sempre recheadas de membros do Governo, assessores e por aí fora, num festival de ostentação, de despesismo e de propaganda, muitas das vezes recauchutando promessas resgatadas dos confins das campanhas e dos compromissos não cumpridos, mas apresentando outras em função da conjuntura e, as mais das vezes, de execução temporal duvidosa.

Como contributo para o anedotário político nacional ficará a recente visita do primeiro-ministro à ilha da Boa Vista, com uma recheada comitiva de ministros e assessores para, entre outras coisas, celebrar “protocolos de reabilitação de jardins infantis”, um “memorando de expansão e apetrechamento de serviços de cuidados infantis” e – pasme-se! – um “protocolo de financiamento, execução e governança da pocilga municipal”.

Ainda na mesma ilha, o primeiro-ministro lançou obras sem data de início, sem prazo de entrega e sem qualquer referência às empresas responsáveis pela fiscalização da sua execução. Paralelamente, é o vale tudo, com a promessa de 600 milhões de euros para a ilha feita pelo vice-primeiro-ministro na linha do “há dinheiro que nunca mais acaba”.

Já toda a gente percebeu que o turismo político do Governo e a campanha eleitoral antecipada à custa do povo, poucos resultados terão no dia do voto, mas, de todo o modo, sobressai a desigualdade no tratamento dos partidos políticos, com as oposições a suportarem com recursos próprios as suas visitas pelo país e a diáspora, e o partido do Governo a socorrer-se de recursos do Estado.

Mas disso já todos sabíamos e, nas mentes, está o despudor com que o primeiro-ministro utiliza o erário público para fins partidários, como aconteceu nas eleições internas para a liderança do partido do Governo, em que percorreu o país fazendo campanha para se reeleger como líder. Isto, para já não falar na fraude da compra de consciências e do descarregamento de votos, o que revela o seu descompromisso com os procedimentos democráticos e republicanos.

São, seguramente, sinais evidentes de desespero, o que faz um Governo anunciar, agora, ir cumprir o que numa década nunca fez, tratando os cabo-verdianos como se fossem idiotas e padecessem de amnésia. E, paralelamente, em manifestos atos de burrice, deixarem pelo caminho provas contra si próprios de utilização indevida de recursos públicos.

A direção,

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