
Crises explicam dificuldades, mas não substituem resultados. Infraestruturas anunciam progresso, mas não provam impacto estrutural. Percentagens impressionam, mas não resolvem desigualdades. Uma avaliação séria dos dez anos de governação exige mais do que narrativa - exige análise objetiva dos resultados concretos na vida dos cabo-verdianos.
O discurso de Ulisses Correia e Silva procura construir uma narrativa de resiliência e transformação estrutural ao longo de dez anos de governação. No entanto, vários dos argumentos apresentados podem ser questionados com base em inconsistências, omissões e contrastes com a realidade vivida por muitos cidadãos.
1. O argumento permanente das crises
É legítimo reconhecer que Cabo Verde enfrentou desafios sérios — secas prolongadas e a pandemia da Covid-19. Contudo, recorrer sistematicamente às “piores crises desde a Segunda Guerra Mundial” como justificação para promessas não cumpridas levanta uma questão central:
- Se as crises foram tão profundas, por que razão foram feitas promessas eleitorais sem acautelar cenários adversos?
- Governação responsável implica precisamente antecipação, planeamento de risco e capacidade de adaptação.
A invocação constante de fatores externos pode funcionar como atenuante, mas não elimina a responsabilidade política pelos resultados concretos.
2. Agricultura e água: números vs. impacto real
O primeiro-ministro afirma que 63% da área irrigada utiliza sistema gota-gota, com meta de 100% até 2030. Ainda que o crescimento do sistema seja positivo, importa questionar:
- Qual é a dimensão real da área agrícola irrigada no país?
- O aumento percentual corresponde a crescimento da produção agrícola nacional ou apenas à modernização de uma base limitada?
- Os agricultores continuam a enfrentar dificuldades de acesso a crédito, escoamento e custos elevados de insumos?
A massificação da dessalinização e reutilização de águas residuais também exige avaliação quanto a:
- Custos energéticos reais
- Sustentabilidade financeira dos sistemas
- Impacto efetivo no rendimento dos agricultores
Percentagens elevadas não significam automaticamente melhoria substancial das condições de vida rural.
3. Pandemia: evitar o colapso não é sinónimo de sucesso pleno
Durante a pandemia, Cabo Verde, como muitos países, implementou medidas de mitigação. Contudo:
- Houve forte aumento da dívida pública.
- Pequenos empresários enfrentaram falências e perda de rendimento.
- O desemprego aumentou em determinados períodos críticos.
Afirmar que o país “evitou o colapso da economia” pode ser tecnicamente correto, mas não significa que os impactos não tenham sido severos nem que a recuperação tenha sido equitativa.
4. Saúde: infraestruturas vs. qualidade e acesso
O reforço de centros de saúde e equipamentos hospitalares é relevante. No entanto, é importante perguntar:
- Há recursos humanos suficientes (médicos especialistas, enfermeiros, técnicos)?
- Os serviços funcionam com regularidade em todas as ilhas?
- Persistem evacuações externas em casos complexos?
A existência de equipamentos não garante automaticamente melhoria integral do sistema se persistirem limitações operacionais.
5. Desenvolvimento estrutural ou narrativa política?
O chefe do Governo enquadra as suas políticas como parte de um “ciclo transformacional”. Porém, ao fim de dez anos, é legítimo avaliar:
- O crescimento económico traduziu-se numa redução estrutural da pobreza?
- Houve diversificação económica significativa além do turismo?
- A desigualdade territorial diminuiu?
Sem indicadores consistentes de transformação estrutural profunda, o discurso pode soar mais como consolidação de narrativa política do que como demonstração inequívoca de mudança sistémica.
Conclusão
O discurso apresenta avanços e medidas que não podem ser ignorados. Contudo, afirmar que “tudo foi feito” ou que o país está inequivocamente num ciclo transformacional pode ser considerado excessivo.
Crises explicam dificuldades, mas não substituem resultados. Infraestruturas anunciam progresso, mas não provam impacto estrutural. Percentagens impressionam, mas não resolvem desigualdades.
Uma avaliação séria dos dez anos de governação exige mais do que narrativa — exige análise objetiva dos resultados concretos na vida dos cabo-verdianos.
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