O vampirismo político: a anatomia do “Sangue-Suga” nas Instituições
Ponto de Vista

O vampirismo político: a anatomia do “Sangue-Suga” nas Instituições

O grande erro estratégico de qualquer sangue-suga é acreditar que pode dividir indefinidamente o mesmo seio familiar sem que os fragmentos se reconheçam entre si. Os descartados de ontem e os seduzidos de hoje pertencem ao mesmo mundo, partilham as mesmas memórias, conhecem as mesmas pessoas. Quando se encontram fora do alcance do manipulador e partilham as suas histórias, reconhecem o mesmo padrão, o mesmo método, o mesmo rosto por detrás de máscaras diferentes. É nesse momento que o castelo de cartas começa a ruir. A luz da verdade, a documentação fria dos factos, os testemunhos cruzados de quem viveu o mesmo ciclo em momentos diferentes eis o único elemento que o vampiro institucional verdadeiramente não consegue suportar. O sol da justiça, embora por vezes dolorosamente lento, acaba sempre por expor a palidez moral de quem construiu um império sobre a dor e a traição dos seus próprios.

Existem lideranças que constroem e lideranças que consomem. No submundo da política local, surge por vezes uma figura sombria que os analistas comportamentais designam de “vampiro institucional”: um perfil predatório que não governa para o bem comum, mas que se nutre da energia, do talento e da sanidade daqueles que o rodeiam. O seu método não é a gestão; é o extrativismo humano na sua forma mais crua e calculada.

O “sangue-suga” político tem um ciclo de vida previsível e repetível. Atrai quadros qualificados com a promessa sedutora de um projeto coletivo, mas a sua verdadeira intenção é sugar a credibilidade e o esforço dessas pessoas para alimentar o seu próprio ego. A sedução é a sua primeira arma: o carisma aparente, a promessa de reconhecimento, a ilusão de pertença a algo maior. Assim que o colaborador se mostra exausto, ou pior, assim que demonstra integridade ao recusar uma ilegalidade, o vampiro descarta-o como uma casca vazia, sem remorso, sem gratidão, sem humanidade. Para este perfil, as pessoas não são cidadãos nem profissionais; são combustíveis descartáveis ao serviço da sua ambição.

O ciclo de sedução e descarte tem, porém, uma dimensão ainda mais perturbadora quando o vampiro ópera dentro do mesmo núcleo familiar ou partidário. Não se limita a recrutar vítimas externas; infiltra-se nas relações de confiança mais íntimas, seduzindo membros da mesma família, colegas de longa data. Usa os laços existentes como alavanca de manipulação, explorando a lealdade construída ao longo de anos para transformar quem estava ao lado da vítima em instrumento da sua perseguição. É a forma mais refinada de crueldade: fazer com que alguém seja atacado por quem considera seu igual, seu irmão de causa, seu companheiro de trincheira.

Quando uma vítima anterior descobre a verdadeira natureza deste perfil e começa a resistir ou a denunciar, o vampiro recorre então a uma tática calculada e fria: recruta, dentro desse mesmo seio familiar ou institucional, novas vítimas ainda seduzidas para as usar como escudo e como instrumento de vingança. O recém-capturado, ainda embriagado pela atenção e promessas, torna-se inconscientemente cúmplice de uma perseguição que não compreende. É manipulado para atacar quem já viu demasiado, para desacreditar quem ousou dizer não, transformando-se em arma viva contra aqueles que um dia estiveram exatamente no seu lugar.

Para manter o seu banquete de poder ao longo de mandatos sucessivos, este perfil recorre ainda a uma tática particularmente macabra: a criação deliberada de “sub-vampiros”. Empodera funcionários, militantes e quadros sem escrúpulos para perseguirem os próprios colegas, instalando uma cultura de delação sistemática dentro das instituições. O subordinado é incentivado a vigiar o eleito; o técnico é instrumentalizado para sabotar o diretor; o vereador é armado contra o seu par. A instituição transforma-se num campo de caça onde os laços se desfazem em suspeita e todos habitam no limiar permanente da paranoia.

O que verdadeiramente distingue o adversário político legítimo do vampiro político é o rasto que deixam para trás. Não falamos de feridas políticas passageiras, mas de vidas destruídas de forma sistemática e irreversível. Ao longo de ciclos de poder repetidos, este método de retaliação silenciosa e esvaziamento progressivo de funções empurrou famílias inteiras para o exílio da emigração, condenou profissionais brilhantes ao abismo da depressão profunda e, nos casos mais trágicos, esteve na origem de mortes prematuras cujas causas verdadeiras ficaram sepultadas nos corredores do silêncio institucional.

O vampiro institucional é, acima de tudo, um mestre da dissimulação pública. Em praça aberta, veste a capa da modernidade, do civismo e da boa governação. Discursa sobre transparência e valorização dos recursos humanos com uma fluência que engana até os mais atentos. Mas, nos corredores escuros do poder, opera pela asfixia: bloqueia comunicações, retira competências, isola vozes críticas e utiliza a máquina do Estado como se fosse o seu aparelho digestivo particular, processando pessoas e cuspindo-as quando já não têm utilidade.

A longevidade deste perfil no poder não é um acidente democrático; é uma construção cuidadosa. Sustenta-se no medo dos que sabem e calam, na cumplicidade dos que beneficiam e fingem não ver e na exaustão dos que resistiram e foram derrotados. Cada mandato adicional não representa uma renovação de confiança popular; representa um novo ciclo de caça onde as presas são recrutadas dentro da própria casa, onde a traição vem de dentro, onde o familiar se torna verdugo sem sequer perceber que foi ele próprio o primeiro a ser capturado.

O grande erro estratégico de qualquer sangue-suga é acreditar que pode dividir indefinidamente o mesmo seio familiar sem que os fragmentos se reconheçam entre si. Os descartados de ontem e os seduzidos de hoje pertencem ao mesmo mundo, partilham as mesmas memórias, conhecem as mesmas pessoas. Quando se encontram fora do alcance do manipulador e partilham as suas histórias, reconhecem o mesmo padrão, o mesmo método, o mesmo rosto por detrás de máscaras diferentes. É nesse momento que o castelo de cartas começa a ruir. A luz da verdade, a documentação fria dos factos, os testemunhos cruzados de quem viveu o mesmo ciclo em momentos diferentes eis o único elemento que o vampiro institucional verdadeiramente não consegue suportar. O sol da justiça, embora por vezes dolorosamente lento, acaba sempre por expor a palidez moral de quem construiu um império sobre a dor e a traição dos seus próprios.

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Comentários

  • Casimiro Centeio, 25 de Fev de 2026

    Pois, Sra. Máxima ! A metáfora dos vermes a que se refere são verdadeiros vampiros políticos. Os vampiros são animais de sangue quente, quanto mais chupam, mais insaciáveis ficam.

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