
Penso estarmos perante uma ação da mesma natureza daquelas empreendidas, em 2024, a várias câmaras municipais, desta feita com um guião invertido, começando por um ex-autarca do MpD para, nos dias seguintes, poder, eventualmente, deter Francisco Carvalho, para tentar instalar na opinião pública a ideia que “a Justiça quando bate à porta é para todos, não olhando à cor política”. No entanto, o partido do Governo e o Ministério Público – naturalmente, a confirmar-se este cenário, que é uma mera hipótese – dariam autênticos tiros nos pés: o primeiro, ficando para a história como batoteiro; o segundo, vendo romper-se a ténue película de credibilidade com que se veste.
À hora que escrevo estas linhas, não tenho ainda informação completa sobre a evolução da detenção do ex-presidente da Câmara Municipal da Brava. No entanto, o país foi apanhado de surpresa, porquanto nada fazia prever que a operação de busca e apreensão do Ministério Público pudesse ter como desfecho a detenção de Francisco Walter Tavares, do anterior secretário municipal e de um empresário local.
Por outro lado, fica-se com a sensação de déjà vu… Eu explico! Corria o ano de 2024, quando o Ministério Público promoveu uma acção de busca e apreensão à Câmara Municipal da Praia e, perante alguma indignação, que associava a iniciativa a um processo de perseguição a Francisco Carvalho, logo o Ministério Público resolveu empreender, com uma ostentação inusitada de armas de guerra e agentes embuçados, outras acções da mesma natureza a várias autarquias, principalmente lideradas pelo MpD.
A intenção era óbvia, criar uma cortina psicológica que permitisse construir na opinião pública a ideia de que não havia motivação política – e, muito menos, perseguição – ao autarca da capital.
Na ocasião, aquele que é agora indiciado, ao que se diz, por alegados crimes de corrupção, tráfico de influências, recebimento indevido de vantagem, participação ilícita em negócio e peculato de uso, não foi minimamente incomodado e o diligente Ministério Público não ocupou os Paços do Concelho da Brava com a ostentação de armas e homens de rosto tapado, um pouco na linha das séries policiais norte-americanas.
Penso estarmos perante uma ação da mesma natureza daquelas empreendidas em 2024 a várias câmaras municipais, desta feita com um guião invertido, começando por um ex-autarca do partido do Governo para, nos dias seguintes, poder, eventualmente, deter Francisco Carvalho, para tentar instalar na opinião pública a ideia que “a Justiça quando bate à porta é para todos, não olhando à cor política”. E, desta forma, justificar que “não se trata de perseguição”, criando uma ambiência social para, eventualmente, decretar a prisão preventiva do presidente da Câmara Municipal da Praia e líder do PAICV.
No limite, ganhar na secretaria
Deste modo, a prisão do anterior presidente da Câmara Municipal da Brava seria um ensaio para um golpe maior: afastar o líder do PAICV das eleições legislativas de 17 de maio. No limite e, no meio do desespero pelos sinais negativos que se leem nas sondagens e se percebem na sociedade, ao MpD e a Ulisses Correia e Silva restaria afastar o seu principal adversário e ganhar as eleições na secretaria.
Este eventual golpe maior tem, contudo, logo à partida, três problemas: pode insuflar a sociedade cabo-verdiana num clima de indignação popular e de instabilidade política; chamar a atenção da comunidade internacional para uma eventual judicialização da política e politização da Justiça, abalando a imagem do país, até agora visto como bom aluno das práticas democráticas ocidentais; e traduzir-se num autêntico tiro no pé, passando a ideia de que, não podendo ganhar nas urnas, restaria ao MpD fraudar a pluralidade democrática e republicana.
Ademais, a confirmar-se uma eventual detenção e prisão de Francisco Carvalho, nada garantiria – e antes pelo contrário – que o PAICV, surfando na indignação social, não ganhasse as eleições, eventualmente até com um score ainda mais esmagador.
O partido do Governo e o Ministério Público – naturalmente, a confirmar-se este cenário, que é uma mera hipótese – dariam autênticos tiros nos pés: o primeiro, ficando para a história como batoteiro; o segundo, vendo romper-se a ténue película de credibilidade com que se veste.
Uma coisa é evidente: o ex-presidente da Câmara Municipal da Brava – a quem assiste o sagrado direito à presunção de inocência! – ficaria para a história como o culpado conveniente, para tentar maquilhar o Ministério Público com uma aura de credibilidade e legitimar um verdadeiro golpe contra a seriedade das eleições e a democracia.
Olhos bem abertos!
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Post Scriptum: Pese o facto de não ser susceptível a teorias da conspiração, a verdade é que, nas últimas semanas, alguns dirigentes do MpD têm vindo a repetir, à boca pequena, que Francisco Carvalho “não vai ganhar as eleições” e que vem aí uma “bomba” até ao final do mês…
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Comentários
Casimiro Centeio, 27 de Fev de 2026
Concordo, plenamente, com a tua análise, Carro António Alte Pinho! Os antigos fascismo e colonialismo nunca avisam quando estão chegando. Eles vêm fantasiados de LIBERDADE, DEMOCRACIA, JUSTIÇA PARA TODOS, IGUALDADE, DEUS, PÁTRIA e POVO . Só que nunca vêm em nome da HIPOCRISIA, porque já tinham vindo. Temos que estar atentos, realmente. Com o regime sistemático que vivemos atualmente, tudo é possível.
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