
A construção de um novo hospital não deve ser a prioridade. A prioridade deve ser a implementação de uma estratégia de valorização dos profissionais e de combate à negligência sistémica, por um lado; e a aproximação dos cuidados de saúde à população, por outro. Por exemplo, a implementação de centros de saúde móveis poderia reduzir drasticamente as listas de espera nos hospitais e centros de saúde existentes, aumentar a capacidade do Governo no atendimento à população mais vulnerável e elevar significativamente o nível de satisfação dos utentes e da população em geral. Para que essa transformação aconteça, é fundamental uma mudança de hábitos institucionais, a valorização do ambiente emocional e uma gestão eficiente, baseada em decisões sustentadas por evidência científica. É necessária uma liderança transformacional. Podem dizer - e talvez eu não discorde - que já temos um Sistema Nacional de Saúde. O que não temos, de facto, é uma POLÍTICA PÚBLICA DE SAÚDE EFETIVA.
Em Cabo Verde, enfrentamos uma situação alarmante no setor da saúde: ruturas frequentes de medicamentos, de reagentes e, de forma geral, de recursos essenciais no principal hospital do país - o Hospital Universitário Agostinho Neto, na cidade da Praia.
De uma forma geral, em todos os hospitais destas ilhas, há falta de condições adequadas para a realização de cirurgias; as enfermarias, o bloco operatório e os serviços de urgência encontram-se em estado de deterioração, desatualizados e incapazes de oferecer cuidados de saúde ajustados às necessidades do país.
Charles Duhigg, especialista em hábitos, leva-nos a refletir sobre os padrões de negligência e de desatenção às questões de saúde pública. O ciclo de ruturas de materiais, equipamentos obsoletos e falta de motivação dos profissionais reflete uma rotina enraizada de práticas que perpetuam o descaso e dificultam a mudança de comportamento institucional.
Para Duhigg, a mudança de hábitos é possível, mas exige consciência, intenção e ações consistentes - algo que parece faltar no sistema atual. A escassez de médicos e enfermeiros especializados, a fuga destes profissionais para o estrangeiro e a dependência crescente de médicos cubanos (caríssimos), que enfrentam a barreira linguística, bem como a ausência de políticas eficazes de integração para os médicos recém-formados, agravam a situação.
Recentemente, fomos informados pela CCS-SIDA de que se tem registado um aumento das taxas de seropositividade; os doentes oncológicos têm aumentado; o uso precoce e abusivo de álcool e de outras drogas já é um dado adquirido; e verifica-se igualmente um crescimento do número de pessoas com perturbação mental nas ruas de praticamente todos os municípios de Cabo Verde.
Além disso, aumentam os casos de cabo-verdianos que procuram tratamento em Dakar ou que são evacuados para Portugal. Em contrapartida, assistimos a centros de saúde e hospitais sobrelotados, com utentes cada vez mais insatisfeitos, atendidos por médicos e enfermeiros desmotivados, muitos deles em estado flagrante de esgotamento.
Perante esta realidade, fala-se na construção de um novo hospital de referência. Mas que recursos humanos irão trabalhar nesse futuro hospital? Profissionais que, na sua maioria, não têm possibilidade ou oportunidade de realizar as suas especialidades; desmotivados, esgotados, com salários indignos e sem uma relação laboral humanizada - em suma, sem condições estruturais adequadas.
Os profissionais de saúde em Cabo Verde têm demonstrado ser verdadeiros heróis. Muitos tentam especializar-se por conta própria, perante a extrema insensibilidade da tutela. Ainda assim, regressam ao país e aguardam longos períodos para serem reintegrados e reconhecidos nas suas respetivas especialidades, entregando-se a uma missão nas condições existentes.
Quanto a nós, utentes, resta-nos, muitas vezes, aceitar aquilo que um Sistema Nacional de Saúde (SNS), sem políticas públicas eficazes, nos consegue oferecer. Mas não podemos continuar assim.
Daniel Kahneman, psicólogo e Prémio Nobel, destaca a importância de compreendermos os processos de decisão e as heurísticas que conduzem a políticas públicas ineficazes. A negligência na resolução dos problemas estruturais da saúde em Cabo Verde pode resultar de decisões baseadas em perceções erradas ou prioridades desalinhadas. Uma avaliação mais racional e fundamentada em evidência poderia orientar melhorias concretas e sustentáveis. A fuga de profissionais e a insatisfação generalizada indiciam uma crise emocional que precisa de ser reconhecida e tratada como prioridade.
Bruce H. Lipton, cujo trabalho incide sobre a biologia da crença e a influência do ambiente na saúde, ajuda-nos a compreender como um contexto de desumanização, escassez de recursos e desvalorização profissional afeta não só a saúde física, mas também o bem-estar emocional e psicológico dos profissionais e dos utentes. Por outro lado, defende que um ambiente de trabalho motivador e valorizador pode potenciar a cura e o cuidado - algo de que o sistema nacional de saúde de Cabo Verde claramente necessita. Impõe-se, pois, uma mudança de paradigma na saúde em Cabo Verde.
Perante a realidade descrita, a construção de um novo hospital não deve ser a prioridade. A prioridade deve ser a implementação de uma estratégia de valorização dos profissionais e de combate à negligência sistémica, por um lado; e a aproximação dos cuidados de saúde à população, por outro. Por exemplo, a implementação de centros de saúde móveis poderia reduzir drasticamente as listas de espera nos hospitais e centros de saúde existentes, aumentar a capacidade do Governo no atendimento à população mais vulnerável e elevar significativamente o nível de satisfação dos utentes e da população em geral. Para que essa transformação aconteça, é fundamental uma mudança de hábitos institucionais, a valorização do ambiente emocional e uma gestão eficiente, baseada em decisões sustentadas por evidência científica.
É necessária uma liderança transformacional. Podem dizer - e talvez eu não discorde - que já temos um Sistema Nacional de Saúde. O que não temos, de facto, é uma POLÍTICA PÚBLICA DE SAÚDE EFETIVA.
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