Oposições acentuam diferença entre o país dos números e o país real
Política

Oposições acentuam diferença entre o país dos números e o país real

Para a UCID, apesar da redução da taxa de desemprego, muitos jovens ainda vivem em condições de precariedade e informalidade, e a economia continua concentrada em poucos sectores e ilhas, criando um país a “duas velocidades”. Para o PAICV, são evidentes os “falhanços do Governo”, sendo necessário um novo modelo de desenvolvimento, “inteligente, competitivo e inclusivo”, centrado no emprego digno, no reforço do setor privado nacional, na conectividade entre as ilhas, na água, energia, saúde e educação, colocando “as pessoas no centro” da governação, com mais oportunidades e justiça social.

O primeiro sinal foi dado por António Monteiro, deputado da União Cabo-verdiana Independente e Democrática (UCID). Há um país dos números e da maquilhagem, e esse outro das pessoas reais. O deputado democrata-cristão falava esta quarta-feira, 25, durante o debate parlamentar com o primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva, sobre os 10 anos de governação do Movimento para a Democracia (MpD), um tema proposto pelo Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV).

Segundo António Monteiro, Cabo Verde apresenta sinais positivos, como o crescimento económico, o aumento da taxa de emprego e a entrada no patamar de rendimento médio-alto, mas muitas famílias e jovens vivem na precariedade.

Um país a “duas velocidades”

“O país apresenta sinais positivos: crescimento económico, mais taxa de emprego e até a passagem de Cabo Verde ao patamar de rendimento médio-alto”, disse o deputado da UCID, acrescentando, contudo, que “a política séria não se faz apenas com números e títulos, faz-se, em primeiro lugar, com a vida concreta dos cidadãos e das famílias, porque fora dos relatórios há uma realidade que não podemos maquilhar”.

O deputado sublinhou que, apesar da redução da taxa de desemprego, muitos jovens ainda vivem em condições de precariedade e informalidade, e que a economia continua concentrada em poucos sectores e ilhas, criando um país a “duas velocidades”.

“O crescimento que o Governo anuncia está a chegar ao prato das pessoas, ao bolso das famílias e ao futuro dos jovens, hoje está a ficar concentrado em poucos setores e em poucas ilhas, deixando o país a duas velocidades?” - foi a interrogação deixada por António Monteiro.

Ainda segundo o deputado da UCID, “o país precisa de menos propaganda e mais soluções concretas, com dignidade humana, justiça social e instituições credíveis”, e garantiu que a UCID continuará a fiscalizar, a propor e a exigir resultados efetivos da governação.

Um Governo de “falhanços”

Na mesma linha de crítica foi a intervenção do líder parlamentar do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV), que denunciou os “falhanços do Governo” em áreas centrais como o emprego, o crescimento económico e os serviços essenciais, afirmando que Cabo Verde precisa de mudança urgente e de um modelo inclusivo a partir de 17 de maio – a data das eleições legislativas.

Clóvis Silva considerou que uma década de governação do MpD “termina sem deixar saudades”, e acusou o executivo de Ulisses Correia e Silva de não ter cumprido promessas como a de crescimento robusto de 7 porcento (%) ao ano, criação de 45 mil empregos dignos, modernização do Estado e eliminação da pobreza extrema.

O líder parlamentar do PAICV avançou os dados disponíveis sobre o mercado de trabalho, lembrando que em 2016 havia 209.725 pessoas empregadas, número que caiu para 198.914 em 2025, representando uma perda líquida de 10.811 empregos e que a população ativa teve uma redução de 246.680 para 216.287, com a taxa de atividade a cair de 63,7% para 58,3%, enquanto o número de pessoas inativas subiu para 154.903.

No domínio financeiro, Clóvis Silva salientou que a dívida pública passou de 200 milhões de contos, em 2015, para 317 milhões, em 2025, e que o serviço da dívida absorve, atualmente, 33% das receitas correntes, comprometendo investimentos em educação, saúde e segurança.

O líder parlamentar criticou, ainda, o modelo económico baseado no turismo, setor que representa cerca de 25% do Produto Interno Bruto (PIB), mas que “continua como enclave, sem integração produtiva nem benefício direto para a população”. E “o crescimento médio anual entre 2016 e 2024 foi de apenas 3,33%, muito longe dos 7% prometidos. O crescimento registrado em 2024 foi pontual, dependente do turismo, e não altera a tendência estrutural do país”, afirmou o deputado do PAICV.

Clóvis Silva acusou o Governo de priorizar números para agradar a organizações internacionais e cumprir metas de acordos como o do Fundo Monetário Internacional (FMI), mas em detrimento do poder de compra dos cidadãos e do emprego jovem.

“O Governo apostou em números para agradar a organizações internacionais, por isso, o vosso discurso tem sido por estes números, mas esqueceu as pessoas deste país. Impulsionado por turismo, impostos e gastos públicos, o país cresceu, mas gerou pouca riqueza partilhada com os cabo-verdianos”, criticou o deputado.

Perante este cenário, o líder parlamentar do PAICV garantiu que o partido está preparado para apresentar um novo modelo de desenvolvimento, “inteligente, competitivo e inclusivo”, centrado no emprego digno, no reforço do setor privado nacional, na conectividade entre as ilhas, na água, energia, saúde e educação, apresentando-se às eleições com uma plataforma que coloca “as pessoas no centro” da governação, com mais oportunidades e justiça social.

C/Inforpress
Foto: GCI/AN

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Redação

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