Pedro Pires alerta para “variantes revisionistas” da luta de libertação
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Pedro Pires alerta para “variantes revisionistas” da luta de libertação

O antigo presidente da República defendeu ontem, na Praia, a preservação rigorosa da verdade histórica sobre a luta de libertação nacional, alertando para “variantes revisionistas e mistificadoras” que procuram branquear o colonialismo e relativizar o papel dos combatentes. O comandante falava no lançamento do seu livro “De Guerrilheiro a Homem de Estado”.

Na cerimónia de lançamento do seu livro “De Guerrilheiro a Homem de Estado”, promovida pelo Instituto Pedro Pires para Liderança - que aconteceu esta quinta-feira, 19, no Auditório do TechPark, na cidade da Praia -, o antigo presidente da República explicou que a escolha da data [a 19 fevereiro de 1990, o Conselho Nacional do PAICV anunciava o fim do regime de partido único] simboliza “um apelo à verdade” e um convite à valorização do passado, à consolidação do presente e à preparação responsável do futuro.

“Venho insistindo na necessidade de se procurar descobrir e preservar a verdade histórica”, afirmou o comandante, sublinhando que a ideologia colonial negava a história aos povos colonizados e procurava subtrair-lhes a iniciativa histórica.

A diferença entre libertação nacional e descolonização

Ao longo da sua intervenção, Pedro Pires destacou a diferença entre libertação nacional e descolonização, considerando que a primeira constitui uma iniciativa intrínseca do povo colonizado, enquanto a segunda pode representar “uma doação armadilhada do ex-colonizador”.

“O processo emancipatório libertador era regenerador, transporta em si uma atitude de autonomia e de dignidade”, declarou o antigo presidente, acrescentando que a luta armada foi também um ato de cultura, capaz de transformar mentalidades e despertar a consciência patriótica.

Pedro Pires evocou, ainda, o papel determinante do PAIGC e do seu secretário-geral, Amílcar Cabral, classificando-os como protagonistas insubstituíveis do processo libertador e da construção das bases do Estado soberano.

O antigo presidente da República e primeiro-ministro durante o regime monopartidário defendeu que os Estados nascidos da libertação nacional não devem ser entendidos como continuidade do Estado colonial, mas como uma rutura política, cultural e institucional com o modelo opressor anterior.

Estados fortes, reformadores e eficientes

“Não se podia manter a sociedade colonizada inalterada como se nada houvesse acontecido”, afirmou Pedro Pires, defendendo reformas profundas, democratização do acesso à educação, à justiça e à saúde, bem como a mobilização da vontade nacional como condição essencial para garantir a viabilidade do novo Estado.

Referindo-se ao contexto de Cabo Verde após a independência, em 1975, o comandante salientou que o jovem Estado enfrentava riscos de inviabilidade, exigindo liderança patriótica, centralização estratégica de recursos e escolhas políticas criteriosas.

Segundo Pedro Pires, países recém-independentes e pobres em recursos necessitam de “Estados fortes, reformadores e eficientes”, capazes de unir a nação, mobilizar energias sociais e lançar bases materiais e morais para o futuro.

No final, o antigo presidente da República prestou homenagem às suas origens cabo-verdianas e ao povo da Guiné-Bissau, que o acolheu como combatente e dirigente político, estendendo a gratidão à sua família e aos seus camaradas de luta, reafirmando que as conquistas da libertação resultaram de um esforço coletivo e partilhado.

C/Inforpress
Foto: Fundação Amílcar Cabral

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