A crise silenciosa da sociedade começou dentro da casa
Ponto de Vista

A crise silenciosa da sociedade começou dentro da casa

A crise social que hoje torna visível não nasceu de forma repetina, mas foi sendo construída no silêncio dos lares, onde a fragilidade familiar passou despercebida. Nenhuma sociedade permanece solida quando a sua base enfraquece. Reconhecer essa realidade é mais do que reflexão: é um chamado á responsabilidade coletiva. Fortalecer família não é apenas preservar um núcleo privado, mas proteger o próprio futuro social.

Nenhuma sociedade entra em crise repentinamente. Inicialmente, há um silêncio no lar, distante dos discursos oficiais e das estatísticas que moldam a sociedade.  Quando a família enfraquece, o país sangra. Pode até demorar a perceber-se da ferida, mas sangra onde vem a ferida.

Em Cabo Verde, estamos a normalizar ausências que nunca deveriam ser consideradas normais: Pais emocionalmente distantes, crianças a crescer sem orientação firme, jovens entregues a própria sorte numa idade em que ainda precisam de limites claros.   Certamente não por maldade, mas em consequência do cansaço excessivo, desestruturação e, muitas vezes, das desistências silenciosas que afetam a família.

Sabemos que a rua não educa, a rua adapta- essa adaptação cobra um preço alto.  Onde falta presença familiar, surgem referências erradas, pertencimentos perigosos e atalhos que não levam a lugar nenhum.  Por vezes, perguntamos, com espanto, de onde vêm a violência, a indisciplina e a perda de valores.

Não há politica pública capaz de substituir, na vida de uma criança, uma família presente.  Não há escola, igreja, policia ou Tribunal que consiga, á revelia da família, corrigir o que não foi ensinado nos primeiros anos de vida. A família é o primeiro espaço de autoridade legítima; quando abdica desse papel, alguém ocupará o vazio.

É confortável culpar o Estado, a escola ou a sociedade, mas difícil admitir que estamos a falhar no essencial: educar para o respeito, para o esforço, para responsabilidade e para as consequências. Nesta ótica, amor sem limites cria fragilidades, liberdade sem orientação cria abandono.

A crise da família não é apenas social, é estrutural.  Ela alimenta a insegurança, a exclusão, o consumo de drogas, a violência domestica e a delinquência juvenil.  Cada problema tratado isoladamente é apenas um remédio num tecido que continua a rasgar.

Defender a família não é moralismo nem nostalgia. É sim lucidez: compreender que o desenvolvimento de um país não se mede apenas em números, mas na capacidade de formar cidadãos conscientes, equilibrados e responsáveis.

Cabo Verde não pode continuar a fingir que o problema começa na rua. Ela começa em casa.  Enquanto continuarmos a tratar consequências e ignorar a origem, o país continuará a pagar com insegurança, desagregação e perda de futuro.  Ainda é possível escolher entre corrigir o rumo ou continuar a tratar sintomas, ignora a causa.

Todavia, fortalecer a família é a decisão mais difícil e também mais urgente. quando a família falha, o país paga- e a conta chega sempre com juros. Fortalecer a família exige esforço, tempo, renuncia e coragem moral. É mais fácil delegar, justificar e adiar, mas cada adiamento empurra o problema para geração seguinte, sempre mais complexo, sempre mais caro.

Portanto, a crise social que hoje torna visível não nasceu de forma repetina, mas foi sendo construída no silêncio dos lares, onde a fragilidade familiar passou despercebida. Nenhuma sociedade permanece solida quando a sua base enfraquece. Reconhecer essa realidade é mais do que reflexão: é um chamado á responsabilidade coletiva. Fortalecer família não é apenas preservar um núcleo privado, mas proteger o próprio futuro social.

Partilhe esta notícia

Comentários

  • Este artigo ainda não tem comentário. Seja o primeiro a comentar!

Comentar

Os comentários publicados são da inteira responsabilidade do utilizador que os escreve. Para garantir um espaço saudável e transparente, é necessário estar identificado.
O Santiago Magazine é de todos, mas cada um deve assumir a responsabilidade pelo que partilha. Dê a sua opinião, mas dê também a cara.
Inicie sessão ou registe-se para comentar.