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Arquivo de Amílcar Cabral em Lisboa conta ao mundo a história deste simples africano
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Arquivo de Amílcar Cabral em Lisboa conta ao mundo a história deste simples africano

Um rascunho da declaração de princípios do Partido Africano da Independência, escrito por Amílcar Cabral no verso da resolução sobre as colónias portuguesas, é um dos documentos do arquivo do líder africano na Fundação Mário Soares e Maria Barroso.

Esta declaração de princípios do Partido Africano da Independência (PAI), criado clandestinamente em setembro de 1956, foi escrita no verso da resolução da segunda conferência dos povos africanos sobre as colónias portuguesas, que se realizou em Tunes, em 1960, onde Cabral apareceu com o pseudónimo Abel Djassi.

A explicação é avançada à agência Lusa pela arquivista Catarina Santos, da Fundação Mário Soares e Maria Barroso (FMSMB), que desde 1999 acolhe o arquivo de Amílcar Cabral, após solicitação das autoridades guineenses e da filha do líder africano Iva Cabral, que até então tinha organizado o espólio do “pai” da independência de Cabo Verde e da Guiné-Bissau e é uma das principais dinamizadoras da sua conservação.

Mas existem outros documentos que motivam a procura deste arquivo composto por mais de 10.000 artigos e que é um dos mais consultados da Fundação, que reúne 150 arquivos, conforme disse à Lusa o seu diretor executivo, Filipe Guimarães da Silva.

Um deles é uma carta-aberta de Amílcar Cabral ao Governo português, em 1961, na qual o líder africano toma a iniciativa de propor uma resolução pacífica do conflito, a qual viria a ser recusada por Salazar.

Um outro documento apresenta tópicos para a intervenção de Amílcar Cabral no seminário de quadros do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), em novembro de 1969, nos quais analisa alguns tipos de resistência, entre os quais a resistência cultural.

“Não basta comer, fazer política, combater. É preciso liquidar a ‘cultura’ colonial” e “edificar uma cultura nova”, lê-se na folha escrita a caneta com tinta azul pelo punho de Cabral, que defende uma “cultura nova, ao serviço da resistência”.

Catarina Santos explicou à Lusa que estes documentos receberam uma primeira intervenção em Bissau, com operações de limpeza e de reprodução, antes de virem para a FMSMB.

A organização feita pela filha do dirigente Iva Cabral foi mantida pela Fundação.

“A maior parte do arquivo é textual, tem um conjunto de manuscritos, mas também muitos documentos datilografados, decorrentes do trabalho do PAIGC. Tem também uma coleção de fotografias bastante significativa e importante, onde se retratam diversos momentos da luta, quer no interior do país, quer no plano internacional”, adiantou.

Do espólio de Cabral faz parte o seu livro de curso do Instituto Superior de Agronomia (ISA), em Lisboa, com uma caricatura desenhada por um colega de curso, o engenheiro Sousa Veloso, na qual se pode ver um desenho “com referência à seca em Cabo Verde, que provocou grandes fomes e a morte de população, e à qual Amílcar Cabral era muito sensível”.

A falta de chuva que provocou essa seca é referenciada nas lágrimas desenhadas no rosto de Cabral e que caem sobre as ilhas de Cabo Verde. A mesma caricatura faz referência ao gosto do independentista africano pelo desporto, apresentando-o com “chuteiras e meias e equipamento de futebol e também ao gosto pela leitura, transportando debaixo do braço livros de Engels e Dostoievski”.

A mesma página inclui junto da caricatura um poema que lhe foi dedicado por Alda do Espírito Santo, sua colega na Casa dos Estudantes do Império, e um poema que Cabral ofereceu à sua mãe, Iva: “Para ti que foste a estrela/Da minha infância agreste/P´ra ti, Mãe, que me deste/A tua alma viva /E o teu amor profundo/Maior que o próprio Mundo”.

Vários livros de leitura para o ensino primário e um manual de história geral da África, que resultou das lições feitas no Centro de Aperfeiçoamento de Professores, em Conacri, fazem igualmente parte do acervo de Cabral, cujo centenário do nascimento de assinala este ano, em setembro.

Catarina Santos destaca ainda uma fotografia da autoria de Bruna Polimeni, uma fotojornalista italiana e “uma das principais responsáveis pela construção da imagem da marca de Amílcar Cabral”.

“Nesta fotografia vemos o Cabral com uma criança de colo, será filho de um guerrilheiro. É uma fotografia muito interessante, que funciona quase como uma espécie de metáfora, em que o dirigente africano segura o futuro da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, um futuro livre, e segura no seu colo quem vai salvaguardar esse futuro”, diz.

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