
Uma companhia aérea vive de reputação. Sem confiança, não há fidelização. Sem fidelização, não há sustentabilidade. Se a transportadora nacional quiser recuperar o respeito dos cabo-verdianos, terá de abandonar práticas que geram indignação, assumir responsabilidade pelas falhas e colocar o passageiro no centro da sua estratégia. Caso contrário, a preferência por outras companhias deixará de ser tendência — e tornar-se-á regra.
Cobrar na última porta: prática inaceitável
A transportadora aérea nacional TACV, atualmente conhecida como Cabo Verde Airlines, enfrenta hoje não apenas desafios operacionais, mas uma profunda crise de credibilidade. Entre os episódios mais revoltantes apontados por passageiros está a cobrança de 100 euros na porta de embarque por compras feitas dentro da própria sala de embarque — uma prática que muitos classificam como abusiva e desrespeitosa.
O cenário repete-se: o passageiro passa pelo controlo de segurança, entra na sala de embarque, realiza compras em lojas autorizadas do aeroporto — espaço que, em teoria, já faz parte do percurso final da viagem — e, quando se prepara para entrar no avião, é surpreendido com a exigência de pagar 100 euros adicionais para transportar esses mesmos artigos.
A questão não é apenas financeira. É ética e operacional. Cobranças feitas no último minuto, quando o passageiro já não tem alternativa real, soam menos como política de bagagem e mais como aproveitamento da vulnerabilidade do consumidor.
Falhas acumuladas e má gestão evidente
Este episódio não surge isolado. Soma-se a atrasos frequentes, dificuldades no reembolso, alterações de voos comunicadas tardiamente e um serviço ao cliente que muitos consideram insuficiente.
Num país arquipelágico como Cabo Verde, onde o transporte aéreo é essencial e não opcional, a companhia nacional deveria ser exemplo de eficiência e respeito pelo cidadão. Em vez disso, cresce a perceção de falhas graves na gestão, no planeamento e na comunicação com os passageiros.
A falta de coerência entre o que é permitido vender na sala de embarque e o que é permitido transportar a bordo revela desarticulação interna. Em ambos os casos, quem paga é o passageiro.
A preferência crescente por companhias internacionais
Não é coincidência que muitos cabo-verdianos, sempre que possível, optem por viajar com companhias internacionais como a TAP Air Portugal e outras operadoras que realizam voos internacionais a partir de Cabo Verde.
A escolha já não é apenas por preço — é por previsibilidade, clareza nas regras de bagagem e maior estabilidade operacional. O passageiro prefere saber exatamente o que está incluído no bilhete, quais são os limites e quais serão os custos adicionais, sem surpresas na porta da aeronave.
Quando a transportadora nacional deixa de ser a primeira opção para muitos cidadãos, o sinal é claro: a confiança foi abalada.
Um alerta que não pode ser ignorado
Uma companhia aérea vive de reputação. Sem confiança, não há fidelização. Sem fidelização, não há sustentabilidade. Se a transportadora nacional quiser recuperar o respeito dos cabo-verdianos, terá de abandonar práticas que geram indignação, assumir responsabilidade pelas falhas e colocar o passageiro no centro da sua estratégia.
Caso contrário, a preferência por outras companhias deixará de ser tendência — e tornar-se-á regra.
Os comentários publicados são da inteira responsabilidade do utilizador que os escreve. Para garantir um espaço saudável e transparente, é necessário estar identificado.
O Santiago Magazine é de todos, mas cada um deve assumir a responsabilidade pelo que partilha. Dê a sua opinião, mas dê também a cara.
Inicie sessão ou registe-se para comentar.
Comentários