Cabo Verde não se cala
Cultura

Cabo Verde não se cala

Democracia não é slogan / nem rotina de expediente; / é contrato que se prolonga / entre o Estado e a sua gente.


A política, quando é séria,
não é truque nem vitrine;
é o pulso da matéria
que molda o rumo e define.

A democracia não cai
do céu como dádiva pura:
exige luta, exige ensaio,
exige fibra e ternura.

Sim, há quem desista cedo,
quem se furte ao compromisso;
mas o povo, mesmo em medo,
nunca abdica do seu piso.

Somos filhos de mares bravos,
de vento lento e chão duro;
aprendemos com os escravos
a transformar dor em futuro.

Cabral abriu-nos caminho
com a tocha da consciência:
que o saber não vive sozinho,
que a justiça é resistência.

Cesária deu-nos a voz
que o mundo inteiro escutou,
e viu que dentro de nós
canta o que nunca calou.

Baltasar pôs por escrito
a pátria que o povo sente,
e fez do verbo um grito
que ecoa por toda a gente.

Amaro da Luz lembrou
que o Estado sem ética falha,
e que o poder, se se corrompe,
abre feridas na malha.

E tantos outros, no fundo,
do mais anónimo mortal,
ergueram este pequeno mundo
a nível continental.

Por isso não nos venham
dizer que somos pequenos;
o arquipélago é quem tem
sete mares dentro e plenos.

Se o voto perde o sentido
e a abstenção se levanta,
é que o povo foi traído
na promessa que lhe encanta.

Mas um povo que resiste
não tolera servidão;
quem nasce em ilhas insiste
na coragem de ser Nação.

Democracia não é slogan
nem rotina de expediente;
é contrato que se prolonga
entre o Estado e a sua gente.

É dever de transparência,
é moral de governar,
é justiça em vigência
que não pode vacilar.

Pois Cabo Verde não se cala
quando ferem o seu direito;
há uma chama que não rala,
há um orgulho que é perfeito.

20 de Janeiro de 2026

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