Entre a crise permanente e o monumento de 150 mil contos  
Ponto de Vista

Entre a crise permanente e o monumento de 150 mil contos  

Se o país vivia sob forte constrangimento financeiro, a prudência exigiria foco absoluto no essencial: reforço da saúde, estímulo à produção nacional, apoio às famílias vulneráveis, criação de emprego sustentável. Se, por outro lado, existia margem orçamental para investimentos de 150 mil contos em obras não prioritárias, então o discurso da crise permanente enfraquece. Crises globais não anulam a responsabilidade das escolhas internas. A pandemia e a guerra tiveram impacto, mas não determinam prioridades específicas — essas são definidas por quem governa. E é precisamente nessas escolhas que se mede a sensibilidade social e a visão estratégica de um executivo.

Ao longo dos últimos anos, o governo de Cabo Verde construiu uma narrativa assente em dois pilares: a pandemia da COVID-19 e a guerra na Ucrânia. Ambos os acontecimentos tiveram impacto real e profundo na economia global e, naturalmente, no nosso país. Ninguém de boa-fé ignora isso.

O problema não está na existência da crise. Está na coerência das decisões tomadas em nome dessa mesma crise.

Repetidamente, a população ouviu que era preciso contenção. Que os recursos eram escassos. Que o contexto internacional limitava a ação governativa. Que era necessário compreender atrasos, dificuldades e limitações. O discurso da prudência orçamental foi constante.

Contudo, no meio dessa alegada escassez estrutural, surge a decisão de investir 150 mil contos num monumento. E é aqui que a narrativa começa a levantar sérias dúvidas.

Num país onde o custo de vida pesa cada vez mais no orçamento das famílias, onde jovens enfrentam dificuldades no acesso ao emprego estável, onde setores essenciais continuam a precisar de reforço estrutural, a prioridade dada a uma obra de natureza simbólica suscita interrogações legítimas. Não se trata de rejeitar cultura, identidade ou memória histórica. Trata-se de ponderar o momento, o contexto e a hierarquia das urgências.

A política é, acima de tudo, a arte de escolher. E as escolhas revelam prioridades.

Quando se invoca crise para justificar limitações sociais e económicas, mas se encontram verbas significativas para projetos de forte visibilidade pública — especialmente em períodos politicamente sensíveis — instala-se uma perceção de incoerência. E na governação, a coerência é um ativo fundamental de credibilidade.

Se o país vivia sob forte constrangimento financeiro, a prudência exigiria foco absoluto no essencial: reforço da saúde, estímulo à produção nacional, apoio às famílias vulneráveis, criação de emprego sustentável. Se, por outro lado, existia margem orçamental para investimentos de 150 mil contos em obras não prioritárias, então o discurso da crise permanente enfraquece.

Crises globais não anulam a responsabilidade das escolhas internas. A pandemia e a guerra tiveram impacto, mas não determinam prioridades específicas — essas são definidas por quem governa. E é precisamente nessas escolhas que se mede a sensibilidade social e a visão estratégica de um executivo.

Nenhuma governação está acima da crítica. Pelo contrário, a crítica fundamentada fortalece a democracia. Questionar prioridades não é negar os desafios globais; é exigir consistência entre o discurso e a prática.

Cabo Verde merece uma governação que alinhe palavras e decisões. Porque, em tempos difíceis, mais do que monumentos caros, o país precisa de políticas que respondam diretamente às necessidades reais do seu povo.

E numa democracia madura, essa reflexão pertence aos cidadãos.

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