Anestesiar a verdade
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Anestesiar a verdade

Falta anestesia no Hospital Universitário Agostinho Neto. É um facto. O ministro confirmou-o. O resto é ruído político, tentativa de controlo de danos e, sobretudo, uma enorme falta de respeito por quem está numa cama hospitalar à espera que o Estado cumpra o mínimo: garantir condições básicas para tratar os seus cidadãos. Num país sério, um ministro não atacaria o mensageiro. Assumiria a falha, pediria desculpa aos doentes, explicaria o plano de contingência e os prazos de reposição. Aqui, preferiu-se anestesiar a verdade. Mas a dor, essa, continua bem acordada.

"Eu me recuso a crer que um político, mesmo o mais doce político, tenha senso moral.” Nelson Rodrigues

O ministro da Saúde veio a público tentar desmentir uma notícia do Santiago Magazine sobre a falta de anestesia no Hospital Universitário Agostinho Neto. Classificou a informação como falsa. Fê-lo com ares de autoridade, como quem pretende encerrar o assunto por decreto. Mas bastou-lhe meia dúzia de frases para, paradoxalmente, confirmar exatamente aquilo que tentou negar.

O próprio ministro reconheceu a rutura de stock do agente anestésico. Admitiu que o barco com a mercadoria ainda se encontra em Portugal, retido devido ao mau tempo. Explicou que os gases anestésicos não puderam ser transportados por via aérea por se tratarem de materiais perigosos. Justificou, por isso, uma “gestão rigorosa” do pouco stock existente. E, num momento de rara franqueza involuntária, assumiu a suspensão das cirurgias programadas, garantindo apenas as de urgência, que classificou como “asseguradas”. Disse ainda tratar-se de uma situação “pontual”.

Ou seja: não há anestesia suficiente. Cirurgias estão suspensas. Pacientes aguardam. Exatamente o que o Santiago Magazine noticiou.

O que o ministro tentou fazer não foi esclarecer o país. Foi anestesiar a verdade. Tentou desacreditar a imprensa para salvar a face política, mesmo sabendo que os factos não mentem e que os doentes não são abstrações estatísticas. São pessoas de carne e osso, algumas internadas há semanas, outras há meses, à espera de uma cirurgia que não acontece precisamente porque não há anestesia no principal hospital do país.

A atitude do governante revela mais do que simples irritação com a imprensa. Revela desprezo pelos pacientes. Porque quando se prefere atacar quem informa em vez de informar quem sofre, a escolha é clara: protege-se o poder e abandona-se o cidadão.

Convém perguntar: se não fosse a notícia do Santiago Magazine, o ministro teria vindo a público explicar a situação, assumir a falha e tranquilizar os doentes e as suas famílias? Teria tido a hombridade de dizer ao país que o sistema falhou, que houve um problema logístico, que as cirurgias seriam adiadas e por quanto tempo? A resposta é evidente: não.

Aqui reside o mérito da informação. A notícia não criou o problema; revelou-o. Não alarmou o país; deu voz a quem já estava em desespero. Não inventou factos; obrigou o ministro a confirmá-los, ainda que pelo tortuoso “jeitinho político”: primeiro acusa a imprensa de divulgar “informações falsas”, depois explica minuciosamente por que razão essas informações são verdadeiras.

A culpa, afinal, não é da imprensa. É do barco parado em Portugal. É do temporal europeu. É da impossibilidade de transporte aéreo. É da gestão de stocks. Tudo, menos da notícia. O ministro limita-se a transferir responsabilidades, como se a meteorologia fosse ministra da Saúde e o Santiago Magazine o responsável pelo sofrimento dos pacientes.

Falta anestesia no Hospital Universitário Agostinho Neto. É um facto. O ministro confirmou-o. O resto é ruído político, tentativa de controlo de danos e, sobretudo, uma enorme falta de respeito por quem está numa cama hospitalar à espera que o Estado cumpra o mínimo: garantir condições básicas para tratar os seus cidadãos.

Num país sério, um ministro não atacaria o mensageiro. Assumiria a falha, pediria desculpa aos doentes, explicaria o plano de contingência e os prazos de reposição. Aqui, preferiu-se anestesiar a verdade. Mas a dor, essa, continua bem acordada.

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SOBRE O AUTOR

Hermínio Silves

Jornalista, repórter, diretor de Santiago Magazine

    Comentários

    • Casimiro Centeio, 9 de Fev de 2026

      Isso revela, nitidamente, que esse dito governante não está minimamente preparado para governar seres humanos.

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