
Há também uma diferença de método. Correia e Silva comunica muitas vezes através de números, gráficos e apresentações formais. Carvalho opta pelo contacto directo, pela praça pública, pelo discurso “olhos nos olhos”. Fala menos de percentagens e mais de experiências concretas - salário que não chega ao fim do mês, jovem que quer emigrar, mãe que luta por emprego. Essa comunicação mais crua e directa tem-lhe granjeado simpatias, sobretudo entre os que se sentem pouco representados pela linguagem técnica do poder.
Cabo Verde vive um momento de definição política. Não se trata apenas de escolher entre nomes ou partidos, mas entre visões de país. Entre uma governação que se apoia em relatórios e conferências, e uma proposta que reivindica proximidade, coerência ideológica e centralidade humana.
O actual Primeiro-Ministro, Ulisses Correia e Silva, tem conduzido o país com um discurso frequentemente ancorado em indicadores macroeconómicos e em narrativas de estabilidade. No entanto, a percepção de muitos cidadãos é de ambiguidade ideológica: liberal quando se trata de facilitar o ambiente de negócios e dialogar com grandes operadores económicos; interventivo quando implementa políticas sociais como o Cadastro Social Único; prudente – ou hesitante, segundo críticos – no plano da política externa.
Essa elasticidade pode ser lida como pragmatismo. Mas também pode ser entendida como falta de norte político claro.
A questão ideológica importa
É aqui que a figura de Francisco Carvalho ganha relevo. A sua proposta apresenta-se como assumidamente de esquerda, com um discurso que coloca a dignidade humana no centro da política. Não fala apenas de crescimento; fala de distribuição. Não enfatiza apenas a estabilidade macro; insiste na justiça social concreta.
Num país marcado por desigualdades persistentes, desemprego jovem e pressão migratória, essa diferença ideológica não é detalhe académico — é orientação estratégica.
Enquanto o governo actual procura equilibrar mercado e intervenção social, Carvalho sustenta que o Estado deve assumir papel mais firme na protecção dos vulneráveis, no investimento público estruturante e na valorização do trabalho.
Estilo e comunicação: política de proximidade
Há também uma diferença de método. Correia e Silva comunica muitas vezes através de números, gráficos e apresentações formais. Carvalho opta pelo contacto directo, pela praça pública, pelo discurso “olhos nos olhos”. Fala menos de percentagens e mais de experiências concretas - salário que não chega ao fim do mês, jovem que quer emigrar, mãe que luta por emprego.
Essa comunicação mais crua e directa tem-lhe granjeado simpatias, sobretudo entre os que se sentem pouco representados pela linguagem técnica do poder.
Resistência e capital político
Outro factor que pesa na sua afirmação política é a narrativa de resistência. Para os seus apoiantes, os processos judiciais e disputas institucionais que o têm envolvido — frequentemente apontados por sectores do MpD como questões de legalidade — reforçam a imagem de alguém que enfrenta o sistema e continua a avançar.
Para os detractores, trata-se de cumprimento da lei. Para os simpatizantes, é prova de resiliência.
Independentemente da leitura, o facto político é que Francisco Carvalho não desapareceu sob pressão. Pelo contrário, consolidou presença no debate público.
Política externa e posicionamento
Na política externa, críticos do governo consideram que Cabo Verde tem adoptado postura excessivamente cautelosa, evitando posições mais firmes em temas internacionais sensíveis. Carvalho propõe maior clareza de alinhamento com princípios de justiça social e soberania, defendendo uma diplomacia mais assertiva.
É um contraste entre prudência estratégica e posicionamento ideológico assumido.
O essencial: a disputa de narrativas
A escolha entre Ulisses Correia e Silva e Francisco Carvalho pode resumir-se a uma pergunta simples: queremos continuidade com ajustamentos graduais ou mudança de orientação política?
O actual governo apresenta-se como gestor responsável de estabilidade e crescimento. Carvalho oferece-se como alternativa de ruptura moderada, com ênfase na centralidade humana e na coerência ideológica.
A diferença está na narrativa e na prioridade. De um lado, governa-se com números e relatórios. Do outro, promete-se governar com pessoas e histórias concretas.
No fim, a política é isso: disputa de projectos. E, numa democracia madura, cabe aos cidadãos decidir qual visão melhor responde à vida como ela é - não como aparece nos slides, mas como se vive nas ruas, nos bairros e nas ilhas.
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