
Se é do conhecimento geral que existem menores a serem exploradas sob o olhar silencioso de muitos, então a questão deixou de ser factual e passou a ser moral. Que tipo de sociedade queremos ser quando sabemos e, ainda assim, escolhemos não ver? Nenhum crescimento económico compensa a falência ética e nenhuma imagem internacional vale mais do que a integridade de uma criança. Enquanto continuarmos a tratar estas histórias como conversa de café, como crónica urbana, como “coisas que sempre aconteceram”, estaremos a perpetuar exactamente o mesmo mecanismo que o mundo condenou no caso Epstein.O silêncio, em qualquer latitude, também é cúmplice.
Há nomes que o mundo aprendeu a pronunciar com indignação tardia, e Jeffrey Epstein é um deles. O que o seu caso revelou não foi apenas a perversidade de um homem, mas a arquitectura do silêncio que o rodeava, a rede de cumplicidades, a facilidade com que o poder cria imunidade moral e transforma menores vulneráveis em território disponível.
Seria confortável pensar que esse mecanismo pertence apenas às elites estrangeiras, às ilhas privadas, aos círculos fechados onde o dinheiro compra tudo. Mas o padrão não tem passaporte. Repete-se onde houver desigualdade, vulnerabilidade e uma sociedade que prefere o incómodo do silêncio ao desconforto da denúncia.
Em Cabo Verde não existem jactos privados a transportar adolescentes para mansões secretas, mas existem bairros onde a pobreza pesa, existem sonhos de ascensão rápida, existem homens e mulheres mais velhos que sabem exactamente como usar essa fragilidade a seu favor. E todos sabemos. Sabemos das miúdas que passam a circular com adultos muito mais velhos, sabemos dos telemóveis oferecidos, das roupas novas, das “ajudas”, das propinas na universidade, dos encontros discretos, dos quartos alugados longe dos olhares directos. Sabemos das intermediárias, sabemos dos pais que fingem não perceber, sabemos das vizinhas que comentam em voz baixa mas nunca denunciam.
O mais perturbador não é a ignorância, é o conhecimento colectivo que nunca se transforma em responsabilidade.
As crónicas de Roca Vera Cruz, tão cruas e tão próximas da realidade de São Vicente, são quase retratos etnográficos dessa normalização. Na crónica “Café de Primeira”, por exemplo, surge a descrição quase banalizada de jovens que entram cedo num circuito de favores e dependências, onde o corpo se torna moeda e onde o patrocínio é apresentado como estratégia de sobrevivência. Já em “Tia Ma Titio”, a linguagem coloquial e desarmada revela algo ainda mais inquietante: o quotidiano onde encontros com homens mais velhos são narrados com naturalidade, onde se fala de presentes, de reformas, de hotéis discretos, onde a fronteira entre exploração e “arranjo de vida” parece dissolver-se numa conversa de esplanada.
Não são ficções distantes. São espelhos sociais.
Relatórios internacionais sobre tráfico de pessoas já referiram a vulnerabilidade de menores em Cabo Verde, incluindo exploração sexual comercial em contextos associados à pobreza e ao turismo. Isto não significa demonizar o turismo, significa reconhecer que quando há assimetria económica profunda, alguém transforma desejo em poder e necessidade em submissão. E quando a sobrevivência entra na equação, a moral começa a negociar consigo própria.
Ainda me recordo da polémica envolvendo um artista e uma adolescente da ilha do Fogo. O debate público centrou-se mais na idade da menor, repetindo-se até à exaustão que ela tinha 16 anos na altura dos factos, como se esse número funcionasse como absolvição ética. A rapidez com que parte da sociedade aceitou ou justificou o comportamento revelou uma fragilidade moral colectiva que não pode ser ignorada.
Numa sociedade pequena, a impunidade não precisa de milhões nem de redes internacionais; basta-lhe a proximidade, os laços familiares, as amizades estratégicas, os cargos e o estatuto que funcionam como escudo invisível. Quando o suspeito é conhecido, o discurso altera-se: já não se fala de crime, fala-se de “assunto delicado”; já não se fala de vítima, fala-se de “exposição desnecessária”; já não se fala de investigação, fala-se de “não destruir a imagem do país”. A linguagem suaviza-se e, nessa suavização, dilui-se a urgência de proteger quem realmente importa.
O paralelo com Jeffrey Epstein não é uma comparação de escala, é uma comparação de mecanismo. Onde há poder sem escrutínio, vulnerabilidade sem rede de protecção e sociedade sem coragem, o abuso encontra terreno fértil. Não precisa de luxo, precisa de complacência. Não precisa de segredo absoluto, basta-lhe o silêncio cúmplice que relativiza e normaliza.
Cabo Verde tem leis, tem instituições, tem profissionais dedicados que enfrentam estes casos com poucos recursos e muita resistência social.
Mas nenhuma lei é suficiente se culturalmente aceitarmos zonas cinzentas, se continuarmos a romantizar o “Dar um café”, e continuarmos a fingir que certas relações são apenas escolhas livres quando a desigualdade é brutal e a maturidade é desigual.
A infância não é negociável, nem é estratégia económica ou atalho social.
Se é do conhecimento geral que existem menores a serem exploradas sob o olhar silencioso de muitos, então a questão deixou de ser factual e passou a ser moral.
Que tipo de sociedade queremos ser quando sabemos e, ainda assim, escolhemos não ver?
Nenhum crescimento económico compensa a falência ética e nenhuma imagem internacional vale mais do que a integridade de uma criança.
Enquanto continuarmos a tratar estas histórias como conversa de café, como crónica urbana, como “coisas que sempre aconteceram”, estaremos a perpetuar exactamente o mesmo mecanismo que o mundo condenou no caso Epstein.
O silêncio, em qualquer latitude, também é cúmplice.
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