Calu di Guida, o músico e compositor que traz a terra dentro de si
Cultura

Calu di Guida, o músico e compositor que traz a terra dentro de si

Aos 23 anos deixou Cabo Verde e partiu para a América, levando uma mala de sonhos e os preciosos conselhos do tio António e a incumbência de representar dignamente a família do outro lado do mar, Não apenas a sua família genealógica, mas essa outra maior que são as almas de São Domingos todas juntas e a outra, maior ainda, que é cabo-verdianidade. Na música tornou-se referência e no setor de seguros fez a ascensão social e colocou-se no topo, sem nunca pisar ninguém. Na sua terra natal tem patente um projeto cultural de fôlego: “90 Dias Performance”, entre a música e a poesia.

Carlos Moreno (Calu di Guida) é reconhecidamente um grande músico, compositor e letrista, e a ele se referem elogiosamente várias vozes, incluindo a de Gláucia Nogueira, referência maior na investigação da música cabo-verdiana. Natural de Boa Vista, São Domingos, ilha de Santigo, Calu di Guida poderia ter-se limitado a ser apenas um nome da música e ficado por aí, remetido ao seu cantinho de sonoridades e letras de canções. No entanto, quis ir mais além, entregar-se a um bem maior: fazer da música instrumento de consciência das pessoas e de transformação social. E, assim, se elevou à circunstância de ativista e empreendedor cultural.

E não foi só nos Estados Unidos da América (EUA), para onde se mudou trinta e sete anos atrás, era ainda um jovem de 23 anos com muitos sonhos e uma vontade incontrolável de quebrar barreiras. A sua ação, enquanto músico, compositor e letrista nunca se afastou do berço natal, a terra que, por nenhuma vez que fosse, deixou de amar e transportar no seu coração do tamanho do mundo, universalista e solidário.

Hoje, com sessenta anos de idade, Carlos Moreno (o nosso Calu di Guida) tem sempre presente o momento em que atravessou esse mar imenso e aportou no “sonho americano”, começando pelas tarefas mais humildes, o destino inevitável de quem pretende construir raízes e mudar de vida.

Paralelamente, de guitarra sempre ao lado, nunca deixou de parte a magia da música, tendo-se dedicado também a outra das suas paixões: o futebol de onze, onde chegou a dar cartas na primeira divisão cabo-verdiana, mas que também transportou para os EUA, ainda o futebol americano (uma espécie de râguebi “da pesada”) era rei absoluto. Calu que, pese a sua modéstia, sempre se aventurou a voos mais altos e chegou a ser campeão da Nova Inglaterra por duas vezes.

Para ganhar a vida, que futebóis e música, como sói dizer-se, nesse tempo não davam para levar comida à mesa, começou por baixo, nas limpezas, mas, anos depois, trabalhou no sistema de ensino e chegou ao setor de seguros onde é hoje vice-presidente de uma companhia cotada na Bolsa de Nova Iorque, um salto raramente acessível a um imigrante, principalmente oriundo de um país pobre e desconhecido para a maioria dos norte-americanos. Começou por baixo, fez a pulso a ascensão social, com muito trabalho e sem pisar ninguém.

A terra nunca saiu de si

Foi rosto e protagonista de vários agrupamentos musicais, tocando na América e na Europa, levando um cadinho da cultura cabo-verdiana a vários destinos e tocando, inclusive, com o grandíssimo Norberto Tavares. E regista o extraordinário palmarés de, apenas em um ano, ter produzido 1140 composições musicais. Um feito assinalável, tratando-se de alguém que não está a tempo inteiro na música e que tem uma vida profissional consolidada no exigente mercado dos seguros.

São Domingos, pese a distância e o inexorável passar do tempo, nunca saiu de dentro de si. A terra esteve sempre nas suas memórias, nas vivências e na interioridade mais profunda de Carlos Moreno. E as suas composições trazem vivas as mundivivências locais, desde as especificidades sociais aos aspetos políticos. Calu di Guida é um criador engajado com a vida real das pessoas, é daqueles que não se reveem na música pela música e sustenta que a criação artística tem de estar comprometida com um bem maior.

Calu di Guida tem perfeita consciência de que a música influencia os comportamentos e os sentimentos humanos, que deve servir a coisas mais elevadas e transformadoras, mas sem nunca renegar influências incontornáveis que, no seu caso, têm rosto e legado: Ano Nobo, Codé Di Dona, Ntoni Denti d'Oro, Miranda Tabari, Nha Cumazinha Mendi, Prima de Rebeirão de Cal, uma mulher muito sábia e, também, nome maior do Finaçon. Isto para citar alguns dos mais antigos e que incorporam o conceito, muito caro a Calu di Guida, de que sem cultura não há identidade.

Não deixar morrer a tradição, logo a cultura identitária, levaram Carlos Moreno a investir na sua terra, na música, naturalmente, mas também noutras formas de expressão artística, como a poesia. Mais recentemente, tem na rua, em São Domingos, “90 Dias Performance”, que se prolonga até de março, altura em que estará em Cabo Verde para, no dia 13, viver com os seus a festa do município.

As lições de tio António

Talvez a mais importante referência de Calu seja o tio António Moniz, que lhe deixou exemplos e apontou caminhos que foram centrais para o seu percurso, um homem sábio que, na ocasião em que o então jovem de 23 anos partiu para a América, lhe endossou a enorme responsabilidade de representar a família no “país das oportunidades”. Não a sua família genealógica, antes essa família maior que são as almas de São Domingos e outra, ainda maior, do universo da cabo-verdianidade.

As lições do visionário tio António, começaram cedo, quando Carlos Moreno, ainda criança, frequentava a escola primária, o induzindo a ter foco, a alargar horizontes, a ir para a Praia estudar e fazer o liceu. E que, no dia em que Calu di Guida partiu para a América, viajou de São Domingos à Praia para o relembrar a responsabilidade de representar dignamente essa família maior. Uma incumbência de que Calu di Guida nunca se esqueceu.

Calu di Guida, uma biografia

Carlos Alberto Gonçalves Moreno (Calu di Guida), natural de São Domingos, teve contacto bem cedo com a música, pela familiaridade com figuras como Codé di Dona, Ntóni Denti d’ Oru e Ano Nobu, estes dois últimos compadres da sua mãe, que era prima da mulher de Ano Nobu. O músico recorda-se também de Rico Preta, um vizinho tocador de gaita, tendo sido este o primeiro instrumento que se lembra de ouvir (entrevista a Cabo Verde & a Música – Museu Virtual, maio 2021). Como compositor, a sua referência é Ano Nobo, de quem se considera um discípulo.

Apesar da proximidade com esses artistas, a mãe, como acontece em muitas famílias, tinha restrições à prática musical e não queria que ele tocasse qualquer instrumento, por encarar a música como divertimento associado ao consumo de bebidas alcoólicas e não a coisas sérias. Calu, então, gravava as tocatinas. E observava. Foi ficando com uma ideia da escala do violão, depois aprendeu algumas coisas com Dick d’Anu Nobo (filho do compositor) e outros colegas de liceu, como Kiki e Orlando Pantera. Com este último, foi assistir aulas de violão com o professor Kubala, no gimnodesportivo da Praia.

Em 1989, Calu di Guida partiu para os Estados Unidos, onde reside desde então e onde participou de vários grupos, além de outras atividades musicais. Foi o guitarrista da primeira fase do La Tour, a convite de Zé Galvão. O grupo incluía Zé Azancoth, Pulonga, Philipe Monteiro, Patchely e Luís Karantonis. Calu participou na gravação do primeiro álbum do grupo, que acabou por não ser editado.

Na sequência, com Galvão, que também saíra do La Tour, entrou no Uprising (grupo com várias formações ao longo do tempo mas que nessa época incluía Bardot, Julinho, Adriano e Patchely, além dos recém-chegados), atuando como guitarrista e produtor musical. Aí esteve de 1994 a 1997. Calu é autor de quatro composições gravadas pelo grupo – “Linda”, no disco Paranoia; “Passada Rabentola”, “Melissa” e “Manu Prera”, no disco Rabentola.

Calu di Guida esteve também n’Os Pecos Band (com Izildo, Zito, Calu Bana, Luís, Gau Salgado e Jorge Monteiro), e participou na gravação do álbum Belêm, como guitarrista e produtor musical.

Como instrumentista, acompanhou Norberto Tavares numa digressão a Portugal, em 1995, e entre 1996 e 1997 acompanhou Chandinho Dedé numa tournée que os levou a Portugal, Cabo Verde, Holanda, França e Luxemburgo. Tocou também com Zeca nha Reinalda, Beto Dias, Fantcha, Gardénia Benrós e Jacqueline Fortes, entre outros.

Como produtor musical, trabalhou em discos de Zé Galvão, Calú Bana, todos os álbuns de Gau Salgado – Salgado, Primavera, Sistema (single), Tchapu Tchacoleta, Bali Pena – e todos gravaram músicas da sua autoria, tendo participado também como guitarrista.

Em 2006, Calu di Guida produziu Midju Terra, que inicialmente era um projeto seu com Jorge Pimpa, com a ideia de juntar guitarra e gaita. Tchuni Preta canta quase todas as músicas, sendo que uma delas, “Bida koitadu”, um batuku, é interpretada por Calu. Desentendimentos com o vocalista levaram Calu a abandonar o projeto antes do fim e o disco saiu como um álbum a solo de Tchuni Preta. Seis composições são de Calu di Guida: “Midju Terra”, “Palanca”, “Três Maninho”, “Kunoti”, “Kapoku” e “Bida koitadu”.

Composições suas já foram gravadas por artistas como Maria de Barros, Rosa Mestre, Gutty Duarte, Calú Bana, Gau Salgado, Nataniel Simas, Zé Galvão, Desiree Fernandes, Zeca di Nha Reinalda, Vargas Monteiro, Adel Lopes, Pulonga Bita, Julinho Teixeira, Adriano Goncalves, Paulo Pires/ Augusto Pires Bardot e Patchely e Maruka Tavares. Muitas outras permanecem inéditas.

Apesar desse longo percurso, Calu di Guida não é um músico a tempo inteiro, dedicando-se profissionalmente ao sector financeiro.  Desde 2021, faz parte do grupo Terreru Music, com Jacinto Fernandes, Maruka Tavares, Djinho Barbosa e Djoy Amado.

Calu di Guida esteve ligado à criação da escola de música de São Domingos, quando a pedido do então presidente da Câmara Municipal, Franklin Tavares, organizou um evento para arrecadação de fundos e conseguiu a doação de um grande número de instrumentos musicais. O nome, escolhido por Calu, foi Dona Mendi-D’oru Mendi, homenagem aos artistas veteranos do concelho.

Composições

Amor incondicional; Angela de Praia Branca; Bali Pena; Bedja; Bon madrasta; Cabo Verdi ka ten crise; Concedju; ; 14; Di Santo; Fé; Febreru ku denti D’oru; Funana ka ten frontera; Funana Ramedi Terra; Gamboa (parceria com Calú Bana); Grogu; Impossível ka tem; Love forever; Ma Iva; Meh pa fla; Nobu, tudu sta na bu mó; Ovo D’ Ouro; Passada Rabentola; Praga tataruga; Preto é mi; Prima Vera; Salgado Nha Mana; São Domingos; Sistema; Sistema; Tempu; Pa ka txoman dodu; Trokadu Vinti Meres; Txapu txakoleta; Txuba; 24 horas; Zig Zag.

Biografia e Composições: Cabo Verde & a Música – Museu Virtual

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