
Reagindo à exigência de uma caução de 15 mil dólares para a obtenção de vistos de turismo e de negócios, o Governo de Ulisses Correia e Silva emitiu um comunicado onde lava as mãos e culpa os cabo-verdianos. O Governo de Cabo Verde parece ter-se assumido como porta-voz do Governo dos Estados Unidos, explicando a medida e apontando responsabilidades ao seu próprio povo, que deveria defender.
Não aventando, no mínimo, a possibilidade de, por via diplomática, tentar demover a Casa Branca no que respeita à exigência de uma caução de 15 mil dólares para a obtenção de vistos de turismo e de negócios, o Governo de Cabo Verde aponta baterias ao seu próprio povo, dizendo que a culpa é dos cabo-verdianos e que não tem nada a ver com isso.
Segundo o Governo de Ulisses Correia e Silva a decisão do executivo dos Estados Unidos resulta “de comportamentos individuais que não têm nada a ver com o Governo, tendo o mesmo, apelado, já no ano passado, em diversas ocasiões, seja nos EUA, seja em Cabo Verde, para a responsabilidade dos visitantes cabo-verdianos e daqueles que os acolhem, para evitarem cair ou ajudar na ilegalidade, por permanência para além do tempo permitido por cada tipo de visto”, pode ler-se no comunicado emitido pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE).
Embora dizendo que “lamenta a medida, que poderá restringir a mobilidade entre os dois países”, o Governo de Ulisses Correia e Silva sublinha que esta “resulta do comportamento dos cabo-verdianos que, na posse de um visto de turismo ou de negócios, acabam por não respeitar as leis americanas sobre a imigração, permanecendo nesse país para além do tempo permitido ou, mesmo, acabando por ficar, ilegalmente, nos Estados Unidos da América, caindo no que se designa de overstay” [ultrapassagem do prazo].
“Pelos dados disponibilizados no Relatório do Departamento da Homeland Security ao Congresso dos EUA, em relação ao ano de 2024, no tocante aos vistos de turismo e de negócio, Cabo Verde tem uma taxa de overstay de 13,26%, um agravamento em relação a 2013, em que era de 12,41%, números muito maiores que vários outros países”, refere, ainda, o comunicado do MNE.
Críticas contundentes nas redes sociais
Nas redes sociais e noutros fóruns de debate, o essencial das reações vão no sentido da crítica contundente ao Governo. Destacamos três comentários que ilustram bem o que pensam os cabo-verdianos sobre a posição do Governo.
“Quando o assunto é a tal ‘remessa’ da diáspora que representa 25% do PIB (acredito ser mais) os olhos brilham e esfregam as mãos de contentamento, por haver capital diretamente injetado na economia/Estado para poderem ‘torrar’ como vem sendo hábito nas últimas décadas. Mas, fingem ignorar que provavelmente as mesmas provêm de concidadãos que poderão estar em situação irregular. Que levante a mão o imigrante que nunca esteve em tal situação, mesmo que por um curto período de tempo!”, pode ler-se num dos comentários, da autoria de Gi Lopez.
Um outro internauta, de nome Elton Tavares, diz que “o Governo tem sim senhor a sua culpa, com políticas sociais débeis, enferrujadas, proporcionando um bocadinho mais do que a miséria, as pessoas estão obrigadas a saírem e não regressar à terra, com toda a razão, as pessoas precisam viver e não sobreviver, e infelizmente Cabo Verde não proporciona isso aos seus”.
O terceiro comentário, da autoria de Ricardo Medina Cardoso, por nós selecionado é, ainda, mais contundente: “Uma posição fraca, defensiva e politicamente cobarde."
Ao atribuir quase exclusivamente a responsabilidade aos cidadãos cabo-verdianos, acusando-os de comportamentos ilegais (overstay), o Governo opta por lavar as mãos e eximir-se do seu papel enquanto representante e defensor dos interesses do povo cabo-verdiano no plano internacional. Trata-se de uma atitude que transfere a culpa para os mais vulneráveis, muitos deles emigrantes ou visitantes que agem movidos por dificuldades económicas, falta de oportunidades e esperança de uma vida melhor — realidades que o próprio Estado não tem conseguido resolver.
Um governo responsável não se limita a “lamentar” decisões externas nem a fazer apelos morais aos cidadãos. Um governo responsável protesta, negocia, propõe soluções, protege os seus nacionais e assume a sua parte da culpa. Tudo o resto é conformismo diplomático e submissão política.
Cabo Verde merece um Estado que defenda os seus cidadãos com coragem, dentro e fora das suas fronteiras — não um governo que, perante uma medida injusta, escolha o caminho mais fácil: apontar o dedo ao próprio povo.”
Ou seja, o entendimento geral vai no sentido de que o Governo de Cabo Verde parece ter-se assumido como porta-voz do Governo dos Estados Unidos, explicando a medida e apontando responsabilidades ao seu próprio povo, que deveria defender.
Foto: DR
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Comentários
Roberto Vieira De Carvalho, 8 de Jan de 2026
Logo no primeiro mandato, 2016-2021 este governo MPDista decidiu destruir o Ministério das Comunidades, num ato deliberado de irresponsabilidade política e de desprezo institucional pelos emigrantes. Hoje colhe-se o resultado: propaganda em vez de políticas, encenação em vez de compromisso, simbolismo vazio em vez de soluções reais.
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Roberto Vieira De Carvalho, 8 de Jan de 2026
É isto que o mapeamento da diáspora produziu? Um mero “espaço diáspora”, vazio de conteúdo e de ambição? Isto não é política pública é um improviso dos rabentolas... Trata-se de uma desgovernação total, protagonizada por um governo do MPD politicamente falido, sem visão estratégica e completamente incapaz de compreender a complexidade das migrações e o papel central da diáspora no desenvolvimento nacional.
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Aguinaldo Monteiro, 8 de Jan de 2026
Os comportamentos individuais como causa da medida, o Governo corre o risco de transmitir a perceção de distanciamento em relação às dificuldades reais que levam muitos cabo-verdianos a prolongar a sua permanência no exterior: limitações económicas, escassez de oportunidades e expectativas legítimas de melhoria das condições de vida. Reconhecer essas causas estruturais não significa justificar a ilegalidade, mas sim compreender o fenómeno de forma mais ampla e humana.
Aguinaldo Monteiro, 8 de Jan de 2026
Uma resposta pedagógica e institucionalmente robusta passaria por três eixos complementares: reforçar a sensibilização dos cidadãos para o cumprimento das regras migratórias; intensificar o diálogo diplomático com os Estados Unidos, explorando soluções proporcionais e diferenciadas; e, simultaneamente, aprofundar políticas internas que criem mais oportunidades e reduzam a pressão migratória.Aguinaldo Monteiro, 8 de Jan de 2026
As responsabilidades individual e do Estado não são conceitos opostos, mas complementares. Cabo Verde ganha mais quando o seu Governo assume uma postura equilibrada: firme na defesa dos seus cidadãos, realista na leitura dos factos e proativa na diplomacia. Só assim se reforça a confiança interna e a credibilidade externa de um país que tem na sua diáspora uma das maiores riquezas nacionais.Responder
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Casimiro Centeio, 8 de Jan de 2026
Como assim ? Como é que o governo de Ulisses não tem nenhuma responsabilidade perante a situação em causa?, LAVANDO AS MÃOS COMO PILATOS NO JULGAMENTO DE CRISTO? Não foi o próprio Ulisses que proclamou " ULISSES É SOLUÇÃO" ? Nessa altura tinha solução para tudo, mas agora tem apenas a "indiferença" ! Falta de honestidade política! A honestidade é uma linguagem que todos os surdos podem ouvir e os cegos podem ver. O seu governo não tem essa virtude, sr. Ulisses!
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