Depôs de sabe, morrê ca nada
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Depôs de sabe, morrê ca nada

A água castanha da Lajinha não pede narrativas defensivas. Pede decisões. Pede investimento estrutural. Pede que o saneamento deixe de ser tratado como assunto menor, empurrado para depois da festa seguinte. E pede, sobretudo, que o país deixe de normalizar dois pesos e duas medidas quando o que está em causa é saúde pública, ambiente e dignidade urbana. Porque quando o esgoto vem à superfície, já não há discurso que o esconda. E quando a coerência falha, o cheiro espalha-se muito para além da praia. E na Camara Municipal de São Vicente já fede há muito tempo.

A Lajinha acordou depois do exagero dos cinco dias de festa, pintada de castanho. Talvez seja uma forma que a própria natureza encontrou para mandar a actual gestão à mer@@ (desculpem o meu francês mas não há sinónimo institucional que descreva melhor).

Ainda mal a ilha descansou, já andam os Mandingas a cumprirem o calendário e a fazerem as honras do Carnaval que chega daqui a pouco mais de um mês.

Já só espero que o Monte Cara se levante à pancada aos “Donos disto tudo” da Câmara Municipal.

É preciso lembrar que governação não é apenas gerir o visível, o festivo ou o politicamente rentável; governação é decidir onde se investe quando o dinheiro é escasso. E o saneamento básico raramente dá votos, porque não corta fitas nem rende fotografias. Aliás só dá porcaria literalmente e só se nota quando falha. Mas quando falha, falha de forma humilhante.
Não se trata de demonizar eventos culturais ou momentos de celebração colectiva. Trata-se de reconhecer o desfasamento entre o discurso de emergência e as opções práticas. Uma ilha em recuperação estrutural depois da tempestade Erin, exige foco, contenção e investimento em infra-estruturas críticas. O saneamento é uma delas. Talvez a mais silenciosa ou a que tem sido mais negligenciada.
A tempestade Erin não criou este problema. Apenas retirou o verniz. A água castanha na Lajinha é um aviso claro de que a cidade continua a funcionar sobre um sistema cansado, remendado e empurrado para “Amanhã”.

O Amanhã chegou e veio dar à costa.
Enquanto não houver uma decisão política clara de tratar o saneamento como prioridade real, com planeamento, investimento e transparência, continuaremos neste martírio de ver esgotos a céu aberto, mau cheiros, varejeiras, larvas e afins…
O saneamento básico não é um luxo técnico. É uma medida mínima de respeito pela saúde pública, pelo ambiente e pela inteligência dos cidadãos.

E é aqui que a discussão deixa de ser apenas técnica e passa a ser política, no sentido mais sério da palavra. Porque, noutros pontos do país, quando surgem dúvidas, atrasos ou fragilidades de gestão, instala-se rapidamente um clima de suspeição permanente, de vigilância cerrada, de escrutínio quase persecutório. Aí sim, até os Senhores deputados da nação e até o Vice-presidente da Assembleia, fazem publicações nas redes sociais sobre o assunto.

O caso da Praia é gritante: a actuação da Câmara tem sido acompanhada à lupa, amplificada, questionada até ao detalhe, como se governar em contexto difícil fosse, por si só, indício de culpa.

A figura de Francisco Carvalho tornou-se, para alguns, sinónimo de alvo preferencial. E venham de lá os dardos com pontaria.

A pergunta impõe-se mais uma vez, incómoda mas legítima: porque não o mesmo rigor em São Vicente?
Porque não a mesma urgência investigativa quando uma zona balnear urbana apresenta sinais claros de colapso do saneamento?

Porque não a mesma pressão política, mediática e institucional sobre a gestão camarária liderada por Augusto Neves, quando os problemas são antigos, conhecidos e agora visíveis não só a olho nú mas também sentido por qualquer nariz sensível.

Não se trata de substituir um alvo por outro. Trata-se de coerência. De perceber que o escrutínio não pode depender da ilha, da cor política ou da conveniência do momento. Se na Praia se exigem explicações, relatórios, responsabilidades e consequências.

O mais incrível foram as declarações do Vereador do ambiente que diz o esgoto não chegou ao mar.

Então o castanho da água era o quê? Rosas?!

A água castanha da Lajinha não pede narrativas defensivas. Pede decisões. Pede investimento estrutural. Pede que o saneamento deixe de ser tratado como assunto menor, empurrado para depois da festa seguinte. E pede, sobretudo, que o país deixe de normalizar dois pesos e duas medidas quando o que está em causa é saúde pública, ambiente e dignidade urbana.

Porque quando o esgoto vem à superfície, já não há discurso que o esconda. E quando a coerência falha, o cheiro espalha-se muito para além da praia. E na Camara Municipal de São Vicente já fede há muito tempo.

SEM APLAUSOS

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