O povo paga, mas quem manda é o dono do feudo?
Ponto de Vista

O povo paga, mas quem manda é o dono do feudo?

Cabo Verde precisa de líderes com a coragem de ter ao seu lado pessoas que pensam de forma independente. Líderes que não precisem de “apagar” o brilho dos outros para se sentirem fortes. O tempo dos “donos do lugar” já passou. O povo quer soluções, quer pão e, acima de tudo, quer ser respeitado por quem ele próprio escolheu para gerir o bem comum com ética e legalidade.

Cabo Verde sempre foi terra de gente digna e livre. Mas hoje, em muitos lugares do nosso país, parece que voltamos ao tempo dos “senhores do morgado”. O que estamos a ver não é política para ajudar o povo; é uma perseguição silenciosa contra quem quer trabalhar com honestidade. Quando um chefe decide que quem não baixa a cabeça deve ser isolado, ele não está a governar está a agir como dono de uma propriedade que não é sua, mas sim de todos nós.

Imagine alguém que tem o seu gabinete, que tem o seu mandato para cumprir, mas que se vê sem poder fazer nada. De um dia para o outro, cortam-lhe o correio eletrónico institucional e os acessos ao sistema. A pessoa mantém o seu lugar, mas é impedida de exercer as suas funções ao serviço do público. Isso é falta de respeito. É o que se chama de “geladeira política”. Em vez de se usar a energia para resolver os problemas da água ou do desemprego, usa-se-a para encostar quem tem ideias próprias, transformando o gabinete institucional numa cela de isolamento funcional.

O mais estranho é como organismos do Estado, como o NOSi, aceitam ordens para bloquear o correio eletrónico de trabalho de alguém sem que haja um processo legal nem uma justificação fundamentada. Quem deu essa ordem? E por que razão quem gere os sistemas informáticos do Estado obedece aos caprichos de um chefe, como se a lei não existisse? O computador é do Estado, o salário é pago pelo povo, mas a chave do sistema parece estar no bolso de uma única pessoa, que decide quem pode ou não comunicar, atropelando o direito de quem foi eleito para servir.

E o que acontece depois? O chefe passa a ter medo da própria sombra. Começa a desconfiar de tudo e de todos. Manda técnicos “varrer” salas à procura de escutas, vigia quem fala com quem e cria um ambiente em que ninguém confia em ninguém. Quem trabalha com seriedade fica sob vigilância; quem não faz nada, mas elogia o chefe, ganha prémios. Isso destrói o serviço público. No fim, quem sofre é o cidadão, que encontra as instituições paralisadas por guerras de ego e falta de transparência.

Onde estão os grandes líderes , que veem tudo isto e não dizem nada? O silêncio de quem governa o país é o que dá força a estes “pequenos ditadores". Quando um ministro ou um dirigente assiste a uma injustiça destas e olha para o lado para não perder a “estabilidade”, está a trair os valores da liberdade. Proteger quem persegue colegas e esvazia funções apenas para manter o poder é o caminho mais rápido para que um partido perca o respeito do povo e a sua bússola moral.

Ser fiel ao partido não deve ser o mesmo que ser submisso a um chefe. O verdadeiro militante é aquele que quer ver a sua comunidade crescer, e não aquele que aplaude quando um companheiro de equipa é isolado e impedido de usar as suas ferramentas de trabalho. Desperdiça-se tempo a vigiar salas e a bloquear correio eletrónico, enquanto os problemas das famílias continuam sem solução. O poder não foi feito para esmagar ou silenciar, foi feito para servir e dar resposta ao que o povo espera de quem o representa.

Este sistema de “quem não concorda, fica na sombra” está a prejudicar Cabo Verde. Perdem-se pessoas capazes porque se recusam a ser meros “apontadores” de chefe. Um partido que permite que os seus próprios quadros sejam humilhados e bloqueados por dizerem a verdade está a destruir-se por dentro. O povo, que é sábio, percebe que quem governa através do isolamento dos outros não tem nem segurança nem paz para liderar.

O que se faz às escondidas trancando acessos e retirando responsabilidades acaba sempre por se saber. A verdade é como a água: pode-se tentar barrá-la, mas ela encontra sempre um caminho. Não vale a pena vigiar gabinetes nem bloquear computadores. O que as pessoas pensam e sentem ninguém consegue apagar. A dignidade de quem quer cumprir o seu dever não se corta com um clique no sistema do NOSi nem com uma ordem verbal autoritária.

Cabo Verde precisa de líderes com a coragem de ter ao seu lado pessoas que pensam de forma independente. Líderes que não precisem de “apagar” o brilho dos outros para se sentirem fortes. O tempo dos “donos do lugar” já passou. O povo quer soluções, quer pão e, acima de tudo, quer ser respeitado por quem ele próprio escolheu para gerir o bem comum com ética e legalidade.

No final, as estruturas erguidas sobre a perseguição caem pelo seu próprio peso. A justiça administrativa e política pode demorar, mas ela chega. E quando chegar, não haverá correio eletrónico bloqueado nem gabinete isolado que segure a vontade de um povo que quer voltar a ver as suas instituições geridas com transparência, liberdade e, acima de tudo, respeito por quem foi escolhido para trabalhar em prol do coletivo.

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