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Rebeira da Jamaica

As populações dos bairros de ocupação clandestina, na Cidade da Praia, manifestaram-se “preocupadas” com a chegada da época das chuvas e clamam por “intervenções urgentes” antes que seja “tarde de mais”.

Água Funda, Jamaica e Fundo de Castelão são os bairros em que a Inforpress foi constatar o dia-a-dia dos moradores, bem como as suas preocupações.

Entretanto, com a chegada das chuvas, conforme afirmaram, já contactaram a edilidade local “várias vezes”, mas até o dia da nossa reportagem ninguém “deu a cara” para os trabalhos de prevenção.

Barracas de chapas e lonas: este é o cenário das localidades, com casas em que cinco membros de uma família dividem o mesmo quarto e fazem necessidades fisiológicas ao ar livre.

O cheiro das defecações, relatam, aumenta com a chuva.

Em declarações à Inforpress, Osvaldo Lopes, que reside na zona de Jamaica há cerca de 15 anos, manifestou-se preocupado com a situação de acesso à localidade que, conforme nos mostrou, “só é possível através de uma “única estrada”, mas em “péssimas condições”.

Quando chove, avançou, “quem está dentro está, e quem está fora, fica fora”, até a situação se normalizar.

Segundo o mesmo, a localidade fica “encravada” quando chove, uma vez que a via de acesso fica “completamente cortada” e as lamas invadem, impossibilitando a circulação das pessoas e veículos.

“Quando uma pessoa está doente, os carros não descem para vir socorrê-la. Temos de a carregar ou então procurar aqueles veículos velhos, os clans, os chamados táxis clandestinos, porque aqui carro novo não costuma vir”, demonstrou, salientando que “muitas pessoas”, inclusive idosas, já partiram uma perna ou um braço naquela estrada.

Esta é também a preocupação do jovem Wilson Vieira, para quem a sua zona, Jamaica, está “parada” e com “estradas inacabadas”, necessitando de uma “mão amiga” para mudar este “cenário preocupante”.

“Se chover com grande intensidade, as pessoas ficam com muitas dificuldades para chegarem às suas respectivas casas, porque as cheias não as deixam passar.   Muitas casas não têm o betão e metem muita água durante as chuvas. No ano passado, por exemplo, a água entrou na nossa casa e ficámos dentro da lama”, recordou Wilson Vieira, lamentando não terem recebido nenhum apoio, a não ser o djunta mon (a ajuda) dos vizinhos.

Este jovem defende intervenções “urgentes” por parte da câmara municipal ou da Protecção Civil para se evitar casos de “afrontas” e perdas de vidas humanas, evidenciando, que é preciso zelar pela prevenção a fim de escapar-se de “danos maiores”.

“Eu acho que este ano, pelo menos, o Estado deveria ajudar as pessoas mais carenciadas, melhorando a situação das suas moradias”, reforçou.

“Por todos os lados a situação é crítica, mas há alguns sítios que, ao chover, o terreno desce e quase abafa as casas. Já houve época em que as lamas invadiram completamente uma moradia”, precisou.

Outra preocupação dos moradores da Jamaica relaciona-se com o apagão há mais de três meses, aumentando, “cada vez mais”, conforme os moradores, o clima de insegurança instaurado naquela localidade.

“Existe um grupo de rapazes denominado Bitxu Soltu (Bicho Solto) que, de vez em quando, atacam as pessoas. Ficam a correr nas ruas com Boca Bedju  (arma de fogo artesanal) na mão, chamamos a polícia, mas acho que o Governo deve analisar esta situação para ver o que está errado e agir da melhor forma”, reclamou um morador, que disse que às 19:00 horas fecha as portas da sua casa e do seu negócio por sentir-se inseguro.

Segundo contou Osvaldo Lopes à Inforpress, a polícia faz somente as intervenções imediatas, o que permite que a situação volte a repetir-se nos outros dias. Aliás, afiançou ele, o seu filho foi vítima de uma bala perdida e há mais de um mês apresentou uma queixa às autoridades mas “não resultou em nada”, tendo este ficado com a bala na perna à espera de ser extraída.

Em Água Funda, encontramos Padju Sanca, uma guineense que reside há dois anos na Cidade da Praia. Esta partilhou a mesma preocupação com os residentes do Bairro da Jamaica, noticiando que, recentemente, um grupo de jovens se reuniu para limpar os caminhos das cheias. A outra guineense Maira Djalou é de opinião que a situação de Água Funda é “muito lamentável”, elencando problemas de estrada e a falta da energia eléctrica.

No terreno, encontramos cabos de electricidade no chão e, ao que pudemos constatar, nesses bairros não existem espaços para os jovens, a não ser um campo de futebol de terra batida. Maira Djalou apelou à construção de casas de banho porque, segundo a mesma, nas chuvas as pessoas saem para fazer necessidades fisiológicas nas ribeiras.

Na mesma zona, Edson Silva, um vendedor de peixe, partilha a sua barraca com a esposa e três filhos, demonstrou-nos “situação precária” em que vivem. “Vivemos todos os dias na nossa barraca. Em dias de chuva a água fica a pingar em cima de nós. Às vezes ultrapassamos, mas não estamos bem”, lamentou.

Em Ribeira Castelão, a população apelou à construção de uma ponte para facilitar o acesso das pessoas, principalmente nas épocas das chuvas. No dia 02 de Agosto, o director do Serviço de Protecção Civil da Câmara Municipal da Praia, Celestino Afonso, garantiu que a instituição se encontra  “minimamente preparada” para fazer face a eventuais cheias no município da capital.

Segundo as suas palavras, para “intervenções pontuais” na preparação e reposição da normalidade durante época das chuvas foi feito um orçamento de mais de 25 mil contos. Na altura, aquele responsável reforçou que o referido plano deu “maior importância” na prevenção, assim como a sensibilização das pessoas e a “preparação mínima”, apostando na desobstrução e limpeza urbana de forma a facilitar o escoamento das cheias. “Estamos minimamente preparados para dar respostas de emergência em situações normais de cheias ou precipitações que ocorram”, afiançou, adiantando que se houver “algo maior” recorrerão ao Serviço de Protecção Civil Nacional e à ajuda internacional para “situação extrema”.

As zonas baixas e as de ocupação clandestina, nomeadamente Jamaica, Água Funda, Fundo Castelão e Safende são tidas como as mais críticas, traduzindo em “preocupações maiores” para as autoridades.

 

Reportagem de Wilson Moreira e Luis Carvalho

Inforpress



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Comentários  

0 # Maria Rodrigues 07-09-2019 08:32
Se é clandestino, então não é legal nem autorizado e como tal não é suposto existir. Assim sendo, as medidas de correcção das águas devem ser orientadas aos bairros legítimos.
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