Ulisses Correia e Silva deveria seguir o caminho apontado pelos seus adversários internos: fazer uma saída minimamente honrada e republicana (tardia, é certo), ficando para a história política recente como um líder (estou a ser simpático no uso da palavra) que reconheceu a derrota e abriu ao partido a possibilidade de escolher novos caminhos. Ou arrastar-se até 2026 e sofrer nova (e ainda mais esmagadora) derrota pessoal, remetendo-o para o esquecimento público e a irrelevância política.
Entre adversários e inimigos, Ulisses Correia e Silva, seguramente, estará a passar por um dos piores momentos da sua vida política. E, no mínimo, o que se poderá dizer é que o ainda presidente do MpD está sem saber o que fazer (a indecisão sempre foi uma das suas características pessoais).
Ulisses é um político de águas mansas, a tempestade é alheia à sua natureza, adversa à sua compreensão dos fenómenos políticos, porque, na verdade, ele nem é um político na verdadeira aceção do termo. É apenas um tecnocrata que transformou um partido político numa espécie de sociedade anónima gerida por um precário conselho de administração, rampa de ascensão de oportunistas e carreiristas.
Levado ao colo, nos últimos doze anos, por bajuladores e alpinistas sociais, que se aproveitaram de seu efémero prestígio público para subir na vida e banquetearem-se com as mordomias do Estado e os negócios paralelos, Ulisses ainda não compreendeu a sua nova circunstância, o que lhe pode ser politicamente fatal.
Quem são os adversários?
Os seus adversários internos são aqueles que não lhe querem pessoalmente mal, que apenas almejam que Ulisses liberte o partido do colete de forças que o tem aprisionado e sangrado nos últimos anos, e que a liderança dê a palavra aos militantes através de uma Convenção Nacional Extraordinária e a realização de eleições internas transparentes, livres e democráticas. Ao contrário daquela farsa organizada, em abril de 2023, com a fraude eleitoral e o descarregamento generalizado de votos promovido pelos seus circunstanciais aliados de então e com o seu beneplácito pessoal – é bom que se relembre.
Os adversários de Ulisses são os que o criticaram lealmente, olhos nos olhos, lhe apontaram caminhos a seguir e se afirmaram alternativa. E são muito poucos!
Quem sãos os inimigos?
Os inimigos de Ulisses são, desde logo, os integrantes do seu círculo mais exclusivo, que veem na derrota do chefe caído em desgraça uma oportunidade de ocupar a vagatura e seguirem impunes defendendo os interesses sistémicos de que são representantes. E, ainda, aqueles que, à sombra do Estado, promovem negócios privados e aconchegam as carteiras com comissões e outras prebendas na penumbra do investimento estrangeiro...
Mas, os inimigos de Ulisses, são também aqueles que, à última da hora, babam em declarações de apoio ao líder caído pelo terramoto de 01 de dezembro e que, num passado recente, sempre conspiraram contra ele. O que os move é a ganância de abocanhar os despojos do barco a naufragar, ocupando cargos e aconchegando as suas fúteis vidinhas pessoais, porque já sabem que o seu futuro político é igual a zero.
[um dia, ainda irei publicar um opúsculo com as confidências e inconfidências desses (e dessas) oportunistas que sempre conspiraram contra o chefe e que, agora, aparentemente lhe beijam as mãos]
Uma saída digna ou a implacável derrota?
A tentativa de imputar os resultados das eleições autárquicas a especificidades locais e, por arrasto, aos candidatos impostos pelo próprio Ulisses, não surtiu efeito. Hoje, há um grande consenso sobre uma evidência incontestável: em 01 de dezembro, Ulisses e o governo receberam um enorme cartão vermelho do eleitorado!
Ulisses Correia e Silva deveria seguir o caminho apontado pelos seus adversários internos: fazer uma saída minimamente honrada e republicana (tardia, é certo), ficando para a história política recente como um líder (estou a ser simpático no uso da palavra) que reconheceu a derrota e abriu ao partido a possibilidade de escolher novos caminhos.
Ou arrastar-se até 2026 e sofrer nova (e ainda mais esmagadora) derrota pessoal, remetendo-o para o esquecimento público e a irrelevância política.
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A equipa do Santiago Magazine