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Por: Mário Loff

 Mário Loff2

O país é pobre, mas, vamos à frente foliões. Já é a hora de irmos à rua, informou a mestra sala, e a coordenadora das alas continuou as suas palavras com ordens de coordenação dos passos da dança até ao último elemento do grupo que insistia num baile aprimorado com cheiro a samba tropical de África. Estão ouvir o barulho. Que grande barulhada, informar o mestre de bateria desta vez. É hoje que vamos festejar até as tantas de madrugada, esse ano o público não vai nos acusar de atraso. Então vamos abrir a porta e encher esta avenida de cor, alegria e festa, reconquistar é o nosso objetivo, por essas palavras podiam se sentir que ele é de que clube, ele, um dos bailarinos com a fantasia de um desses jogadores famosos de Benfica de Portugal, é hoje, é hoje que iremos arrebentar, estamos na hora, temos o grupo bem firmado e bem formado, temos corres, temos odores e alegria, disse a responsável que estava a examinar pormenorizadamente todos os elementos, mas sem largar a pasta das faturas que a cada minuto que passa tinha um futuro promissor de dividas, os apoios nunca satisfazem as exigências, mas a vontade de divertir e fazer as coisas acontecerem é imensamente maior, podia se constatar isso.

Então vamos começar a batucada, depois avançamos com a música. Voltou uma vez mais um grande grito da rua que invadiu o interior do pavilhão onde todos os elementos do grupo estavam ansiosos para o desejado desfile, afinal o grito deve ser para o desfile  tendo em conta que a princípio o grupo deve ter uma boa receção. Que trabalho tiveram para se organizarem, desde costureira, ferreiro, marceneiro, pedreiro e obreiro do projeto, organização de jantarada e outros afazeres de se juntar o capital, badju de conjunto. Até badju canequinha fizeram, e cada vez mais que juntavam o tão necessário capital para o carnaval mais necessidade tinham, a senhora a frente do computador la no banco teve grande importância na dedução daqueles trocos e trocados para a conta do grupo, ela teclava a cada final de mês o desconto entre duzentos escudos a dois paus, ninguém sentiu, foi educada e com respeito, afinal o que não se vê no final do mês não se sente, o importante é o carnaval que realizamos todos os dias e celebramos no dia-a dia e o uso dos trajes e as mascaras que pensamos e construimos durante um ano inteiro. A minha máscara para esse ano foi de Bolsonaro(i)o, sim o bozo, mas quase que queria fazer de Trump ou algum herói de nome Ulisses, cada um com o seu grau e papel nesta sena de se aprazermo-nos de carnaval.

Enquanto alastrava o grito de felicidade na capital do país vindo desde os bares, restaurantes, casa de pasto, cafés, o grupo que estava prestes a sair para o desfile afirmara que, desta vez não vão atrasar nada, esse grito la fora é a confirmação de que esse ano vai ser grande. 

Então pessoal, tudo pronto? Perguntou a rainha. Depois deram o sinal para abrirem a porta, ao mesmo tempo, houve de novo um grande grito por toda a cidade. Este ano sim, este ano, mandamos nós, disse a presidente do grupo antes de avançarem até a metade da avenida completamente dececionada com o vazio na bancada, nas bermas da estrada e um grande vazio dos polícias, até os taxistas que têm a presença constante por aquelas bandas não estavam. E o rei lá em cima lamentou. A culpa foi do Benfica que marcou dois golos, e como esse golo doí mas em nós do que na equipa contrária, e por duas vezes confundimos festejos dos golos para o nosso entusiasmo. Aqui as coisas do país são as nossas coisas, só nossas e mais nada, temos tido dificuldade e apalpar o necessário, o útil e o prioritário, talvez até o que é nacional. Temos a necessidade de lamentar de tudo e atrasarmos no essencial porque o que vem em primeiro lugar são os outros. Como é possível dar grande importância a um jogo que acontece lá no outro continente e nós aqui, bem aqui, e ninguém liga? Lamentou o tal rapaz de camisola do Benfica. Precisamos acertar nos nossos carnavais. Os nossos outros carnavais que retire as pessoas a cabeça de fora para dentro e se possível fizer com que os nossos sejam, sim, as nossas manifestações de felicidade. Afinal nada disso é a continuação da colonização, é só sequência de um carnaval identitário com uma máscara que muda de cara sem rosto fixo. Viva o Benfica que traz a felicidade e fez nos esquecer de carnaval e do governo. A senhora presidente estava chateada, mas lembrou que o país é pobre. Desgraçadamente pobre, e depois com algum fingimento de despreocupação, para não desmoralizar o grupo disse.

— viva o Benfica, terminou o jogo. Avisou. Todo o mundo da cidade veio a avenida e por um dia não se assistiu a telenovela das nove. Assim, amanheceu e voltamos a lembrar do governo, porque tinham a divida para cobrir de tudo o que foi feito para o desfile. A vida continua a ser um desfile de carnaval até a próxima atuação.



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