Quando o desespero aperta, os demónios saem do armário
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Quando o desespero aperta, os demónios saem do armário

Os sinais são bem anteriores à publicação da notícia sobre um plano para afastar o líder do maior partido da oposição das eleições de 17 de maio, com o secretário-geral do partido do Governo a acusar publicamente Francisco Carvalho de ser um bandido e enfatizando a necessidade de o parar, ou seja, de o colocar atrás das grades. Mas, já anteriormente, o antecessor do actual secretário-geral, havia garantido que ele seria preso dentro de pouco tempo. Estava criada uma teia de propaganda e mistificação que permitisse fermentar na sociedade a normalização de um acto de subversão da democracia, afastando da corrida eleitoral o principal opositor do ainda primeiro-ministro, criando condições para, como se diz no futebol, o partido do poder ganhar na secretaria.

Ausente desta coluna de opinião desde há três semanas, parece-me ser útil assinalar alguns acontecimentos marcantes nesse período para que, juntos, possamos reflectir sobre o momento político e abrir caminhos de antevisão para o futuro.

Muito se falou (e especulou mais ainda) sobre uma notícia deste jornal onde se avançava a existência de um plano, alegadamente cozinhado entre poderes políticos e judiciais, visando afastar Francisco Carvalho das eleições legislativas de 17 de maio. Plano esse que consistia em emitir um mandado de prisão em nome do presidente da Câmara Municipal da Praia, decorrente da pendência de processos por alegados crimes a si imputados.

Há antecedentes que apontam a existência de um plano para ganhar na secretaria

Logo, um coro de indignados se abateu sobre o Santiago Magazine, ferrando-lhe o anátema de publicar uma falsidade e alinhar num complô de ataques ao poder judicial e ao Estado de Direito democrático, visando favorecer uma suposta estratégia de vitimização do líder do principal partido da oposição.

Pelo que conheço do jornal e dos seus responsáveis, sem nenhuma hesitação, mesmo não as conhecendo, dou como válidas as fontes que estiveram na origem da notícia e, pelo que conheço do processo político cabo-verdiano e interpretando alguns sinais, dou de barato a existência desse plano. E, desde logo, porque há antecedentes que nos levam a dar como credível a existência de um tal plano e de suas intenções, aliás, já testado e com garantidos efeitos, em democracias de outras latitudes, de que destacaria, por proximidade linguística, o Brasil e a Guiné-Bissau.

Os sinais são bem anteriores à publicação da notícia, com o secretário-geral do partido do Governo a acusar publicamente Francisco Carvalho de ser um bandido e enfatizando a necessidade de o parar, ou seja, de o colocar atrás das grades. Mas, já anteriormente, o antecessor do actual secretário-geral, havia garantido que o líder do PAICV seria preso dentro de pouco tempo.

Estava criada uma teia de propaganda e mistificação que permitisse fermentar na sociedade a normalização de um acto de subversão da democracia, afastando da corrida eleitoral o principal opositor do ainda primeiro-ministro, criando condições para, como se diz no futebol, o partido do poder ganhar na secretaria.

Porém, aquilo que me surpreendeu não foi a histeria das declarações e o grito dos indignados, foi, sim, o ensurdecedor silêncio da Procuradoria Geral da República que, tão afoita a criminalizar jornalistas, não disse uma única palavra sobre uma notícia em que era visada.

É minha convicção que o plano exposto pelo Santiago Magazine não se concretizará, não tanto por não haver um juiz disponível para se prestar à ignomínia (embora isso seja relevante), mas, antes, pelas previsíveis consequências do acto que, inevitavelmente, incendiaria o processo político e a sociedade cabo-verdiana e que, por tal facto, se viraria por inteiro contra os seus orquestradores.

Há sondagens que podem dar muito jeito, outras nem tanto

Mais ou menos uma semana antes da notícia do Santiago Magazine, o país havia sido surpreendido por nota enviada às redações (e noticiada pela imprensa) por uma empresa de sondagens, onde se enfatizava a alegada vitória de Ulisses e do seu partido nas próximas eleições. No entanto, quer os resultados da sondagem, quer algumas omissões pouco científicas, levantaram justas interrogações e inquietudes na opinião pública.

Desde logo, não seria crível que o PAICV tivesse uma percentagem menor do seu pior resultado de sempre, nas eleições de 1991, mas também porque custaria a engolir que, em apenas um ano, mudasse a tendência de voto indicada, aliás, pela mesma empresa. Tão-pouco faria sentido o surpreendente resultado do partido do Governo na ilha do Fogo.

Um varejo pelas redes sociais, nesse período, pesem algumas excitações pontuais alardeando a grande derrota do principal partido da oposição, a verdade é que praticamente ninguém deu importância ao assunto, nem mesmo os que haviam sido beneficiados. Não sei se se recordam, à saída de uma audiência com o presidente da República, confrontado pelos jornalistas com o resultado da sondagem, o líder parlamentar escusou-se a comentar.

Haveria que ter em minha posse todos os dados da sondagem, o método utilizado, mas também os critérios técnicos seguidos e a divulgação do nome de quem a pagou, para ter uma opinião mais rigorosa. De todo o modo, a sua divulgação, nas condições em que foi feita, parece-me estar em contra-mão ao Código Eleitoral, não me parecendo, como a lei determina, que tenha sido depositada na Comissão Nacional de Eleições.

A coisa até poderia ficar-se como um censurável acto de precipitação, os resultados, em tese, depois de analisados aprofundadamente, até poderiam levar-nos a concluir não se tratar de uma falácia encomendada, mas, a manipulação, pelas omissões que comparta, está na sua génese.

Num cenário em que a manipulação e a falácia ganharam terreno desde há uns anos a esta parte, uma sondagem simpática com o partido do Governo até pode dar muito jeito, no entanto, quando as coisas são muito atamancadas, o feitiço vira-se contra o feiticeiro. E é precisamente por isso que ninguém fala na sondagem.

A verdade da mentira

Com o aproximar das eleições, temos assistido à reiterada instalação de uma realidade paralela, onde a verdade se confunda com a mentira e vice-versa. E, neste contexto, não tendo muito para oferecer aos cabo-verdianos, seja pelo balanço da ação governativa de uma década, seja por uma clara visão desenvolvimentista para o país, recorre-se a promessas repescadas (e nunca cumpridas de 2016) e a outras novidades da cartilha de enganação pré-eleitoral.

Tentando conter os danos de uma governação que é genericamente rejeitada pelo cidadão comum, desde logo pelos pobres, pelos trabalhadores e por uma classe média, também ela crescentemente empobrecida, o primeiro-ministro percorre o país com uma corte de ministros e puxa-saco, anunciando obras e projetos adormecidos, ressuscitados sabe-se lá de onde, mas publicitados estridentemente de execução prática para o ano eleitoral, preferencialmente após as eleições.

Empolgado em plena pré-campanha eleitoral, o primeiro-ministro permite-se, até, endossar as despesas aos contribuintes, confundindo actos de natureza partidária com supostas visitas de Estado, como aconteceu com a sua mais recente visita aos Estados Unidos, uma semana após o seu principal opositor ali ter estado. É um sinal triste de promiscuidade política e de desonestidade que, ao contrário de beneficiar Ulisses Correia e Silva, só o prejudica.

Esta malta é pouco atenta aos fenómenos políticos, com défice de estratégia e sem uma orientação táctica objectiva, razão pela qual ainda não perceberam que o seu principal problema nem é Francisco Carvalho que, aliás, têm sido os próprios a transformar em vítima, revelando não ter aprendido nada com as idas eleições de 2011. O problema é que os cabo-verdianos já não se reveem neste poder e querem a mudança, independentemente do protagonista em presença. É que esta malta também não aprendeu nada com as eleições de 2016.

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