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Por: Paulo Varela

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Um mês para esquecer, neste mesmo Abril da primavera e dos passarinhos, na Europa, enquanto no sul saheliano estávamos em plena seca e miséria profunda, nasce Adolf Hitler, Salazar e a Colonia Penal do Tarrafal.

As três pedras que fundaram a desgraça e limitaram com crueldade para sempre nossa liberdade. Este limite ainda vive na nossa génese. 

Também o mesmo Abril que canta em Grândola a queda do fascismo e chama Maio para entregar a liberdade dos homens de Tarrafal.

Porque será que as amarras ainda persistem em nossas mentes a tal ponto de comprometer nosso andar? 

Tarrafal merece um plano especial, precisa ser estudado e enquadrado numa operação de resgate e trabalho psicotécnico, tal como acontece em territórios que vivem traumas pós-guerra. A resistência e a desconfiança que impera neste território e se respira entre suas gentes resulta de uma longa convivência com a repressão, cujos, 43 anos de independência, ainda não foram suficientes para retrair. O povo do Tarrafal ainda sofre do trauma deixado pelo "Campo".

O PRINCIPIO DA COMPENSAÇÃO faz todo o sentido. A próxima geração de dirigentes do Tarrafal irá certamente debruçar-se sobre esta preocupação e trabalhar um dossier que não será fácil de gerir, contudo, terá muitos apoios e Tarrafal então se erguerá da latência mental e retoma a partir de 1936.

Sim, 1936, foi onde paramos, enquanto a Praia se construía para receber a capital do país, Capitão Ambrósio se manifestava em São Vicente, o centro da ilha de Santiago gazia rebelião em Ribeirão Manuel, o Sal recebia os estudos para implantação do aeródromo para ligar a Itália à América do Sul, Eugénio Tavares advogava pela cultura na Brava e os Claridosos expunham suas ideias que despontava o iluminismo Cabo-verdiano... Enquanto estas luzes clareavam nas ilhas, Tarrafal era transformado num campo de sofrimento e repressão destinado a calar as vozes da liberdade... calando por arrastamento toda a população que viveu os efeitos do regime e por herança seus filhos e netos.

Hoje o que temos? Uma sociedade calada, pacata, complacente, indefesa, sem ambição, submissa e desconfiada. Estes defeitos emergem da injeção do medo recalcado na alma até ao centro do cerebelo. 

Para superar este estado de espirito generalizado, os estudos precisam indicar medidas, cujas intervenções acarretam seus custos de  mobilização de meios ajustados à sensibilização e a campanhas agressivas de injeção de autosuficiência, auto estima, valorização espiritual, elevação moral, atração e emissão de energias positivas, amor ao próximo, ambição... um trabalho certamente muito exigentes em matéria de meios de comunicação e produção de materiais audiovisuais, de exercício comportamental, animação comunitária persistente, infraestruturas alegres e espaços livres e ruas planeadas para alterar o estado de espirito e provocar a interação altruísta, enfim, novas marcas, normas e actitudes específicas para cada sintoma degenerado. Isto tudo tem um custo elevado!

O PRINCIPIO DA COMPENSAÇÃO ESTÁ DISPONÍVEL PARA SER ACCIONADO.

Quando? Não sei!

Apenas sei que precisamos instaurar este processo e advogá-lo convenientemente, pois, se é pelas pessoas que edificamos uma sociedade sólida, estas mentes precisam ser trabalhadas para que possam suportar o peso da estrutura que lhes virá em cima.

Quem paga? Os mesmos que causaram a nossa estagnação e para o nosso prejuízo nos recalcaram o medo que hoje impede nosso avanço.

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