Pub
Por: José Luiz Tavares

JLT Poema Coronavirus

Depois, sim, que agora

estamos vivos.

Depois — quando o espirro

expirar.

Depois — quando tiveres

pó na goela.

Não agora — que agora

estamos vivos.

 

Antes, sim, com os braços

portentosos.

Antes - sim – de a fraqueza

noivar com eles. Depois, sim,

porque há brilho no ar

e a decadência é sem desculpa

e sem tristeza.

 

Antes não, que te falta

o assobio e a trela,

e a cara é sem rugas,

e a morte concorda contigo,

e tudo é mão de amigo

mesmo se te espreita

o tempo inimigo.

 

Depois sim, que estar vivo

é cedo encarquilhar-se;

não, não agora, porque estás

no impenetrável interior,

e desconheces o limite ulterior,

e não sabes pedir por favor

o socorro amplamente publicitado.

 

Agora sim,

que é antes de toda a dor,

ainda no corpo tens cor,

e sobe-te à boca

centos de sabores.

 

Mas ainda não ao grande sim,

porque maravilha-te estar aqui

(só mais um instantinho),

embora penses na mão da eternidade

ou como é doce o despenhamento.

 

Antes não

— porque há a verdade

que desconheces,

e porque realmente não sabes

tudo desejas devotamente.

 

Não ainda — que os teus ossos

não sabem a alcatrão,

nem depois — que o esqueleto

é pertença do patrão.

 

Não depois,

mas agora sim,

porque tens fogo nas ventas,

mascas pó e polenta,

e o tempo inimigo te diz

que tudo se há de compor.

 

José Luiz Tavares nasceu a 10 de junho 1967, no Tarrafal, ilha de Santiago, Cabo Verde. Estudou literatura e filosofia em Portugal, onde vive. Entre 2003 e 2020 publicou catorze livros espalhados por Portugal, Brasil, Cabo Verde, Moçambique e Colômbia. Recebeu uma dezena de prémios atribuídos em Cabo Verde, Brasil, Portugal e Espanha. Não aceitou nenhuma medalha ou comenda, até agora. Traduziu Camões e Pessoa para a língua cabo-verdiana. Está traduzido para inglês, castelhano, francês, alemão, mandarim, neerlandês, italiano, catalão, russo, galês, finlandês e letão. Sobrevive ao tempo do mundo sem estar em nenhuma rede social.

Comentários  

+1 # José Luiz Tavares 18-03-2020 18:49
Em consonância com a tradução que acima se oferece, a segunda estrofe, corrigida, fica assim:

Antes, sim, com os braços
portentosos.
Antes - sim – de a fraqueza
noivar com eles. Depois, sim,
porque há brilho no ar
e a decadência é sem desculpa
e sem tristeza.
Responder
0 # Yannick Frederico 18-03-2020 12:31
Magistral!
Responder