Quando os doutores descobrem que não precisas de autorização para pensar
Ponto de Vista

Quando os doutores descobrem que não precisas de autorização para pensar

O conhecimento verdadeiro não precisa de defender o seu território sustenta-se pela sua consistência. Os intelectuais seguros não tremem diante de novas vozes dialogam com elas. O facto de reagirem com tanta resistência, de investirem energia em calar quem começa a falar, de se sentirem ameaçados por jovens que ainda nem terminaram as suas jornadas, revela algo essencial: o debate deixou de ser exclusivo. Se a sociedade cabo-verdiana prestar verdadeira atenção, se olhar com olhos limpos, se escutar sem preconceitos, descobrirá que o pensamento genuíno não é monopólio de títulos, mas fruto de coragem intelectual. E este reconhecimento altera equilíbrios antigos.

Algo profundo está a acontecer no cenário intelectual cabo-verdiano, e os que sempre ocuparam posições centrais no debate público sentem o chão mover-se sob os seus pés. Não se enganem sobre a natureza desta transformação: não se trata apenas de rigor académico, nem exclusivamente de metodologia ou qualidade intelectual. Trata-se, sobretudo, de poder. Do poder de influenciar quem pode falar, quem pode pensar, quem é reconhecido como legítimo intérprete da realidade cabo-verdiana. Estes guardiões tradicionais do conhecimento enfrentam agora uma pergunta desconfortável: e se descobrirem que não são os únicos mediadores do pensamento? E se perceberem que uma jovem do bairro pode expressar, com clareza e autenticidade, reflexões profundas sem recorrer aos mesmos formalismos? A reação que surge, muitas vezes, é previsível: questionar as credenciais antes de escutar o argumento, duvidar da forma antes de enfrentar o conteúdo, tentar enquadrar o novo dentro dos critérios antigos.

A hipocrisia é tão obscena que chega a ser cómica, se não fosse trágica. Os mesmos que exigem referências bibliográficas deixam rastros suspeitos claros de ferramentas automáticas nos seus textos. Os mesmos que cobram normas APA dependem de tecnologias para escrever os artigos que assinam como seus. Os mesmos que se escandalizam com reflexões publicadas nas redes sociais recorrem a atalhos digitais para formular os seus próprios pensamentos. Todos sabemos disso. As fontes são seguras, os padrões são reconhecíveis, as evidências estão lá para quem quiser ver. Mas eles acreditam que ninguém ousa dizer o óbvio, que o pacto de silêncio os protegerá para sempre, que o medo que impõem aos outros os manterá intocáveis. Estão enganados. A mensagem que enviam é cristalina: eu posso usar todas as ferramentas que condeno, eu posso tomar atalhos enquanto exijo autenticidade, eu posso depender de máquinas enquanto te acuso de superficialidade.

O que mais expõe a fragilidade desta elite intelectual é precisamente o que mais os inquieta: jovens e mulheres não estão a pedir licença para pensar. Não estão a bater à porta suplicando por um lugar à mesa. Estão a construir as suas próprias mesas, a estabelecer os seus próprios critérios, a criar os seus próprios espaços, onde a legitimidade vem da verdade vivida e da experiência concreta. E esta verdade corrói como ácido a estrutura de privilégios que levaram décadas a construir. Quando uma jovem descreve a violência que vive sem citar Foucault, quando um estudante analisa a corrupção que presencia sem referenciar Weber, quando uma mulher teoriza sobre o patriarcado que a esmaga sem pedir autorização a Bourdieu, estes doutores perdem o único poder que realmente tinham: o poder de serem intermediários obrigatórios entre a realidade e a sua interpretação. E, sem este papel de tradutor, sem esta função de intérprete autorizado, descobrem-se nus, irrelevantes, assustadoramente dispensáveis.

A violência desta tentativa de silenciamento não está apenas no que fazem, mas no que revelam sobre si mesmos. Revelam que nunca acreditaram verdadeiramente na democratização do conhecimento que pregam nos seus discursos. Revelam que o sistema académico que defendem nunca foi apenas sobre buscar a verdade, mas também sobre controlar quem tem o direito de proclamá-la. Revelam, no fundo, que sempre souberam que, se o jogo fosse justo, se a competição fosse honesta, se o pensamento fosse verdadeiramente livre, muitos não sobreviveriam uma semana sem as estruturas que os protegem. Por isso precisam das barreiras, das credenciais, dos protocolos, de toda a burocracia que transforma o ato natural de pensar numa corrida de obstáculos onde só chegam ao fim aqueles que já nasceram do lado certo da linha de partida. E, quando alguém ousa saltar as barreiras, quando uma voz se recusa a correr a corrida deles, quando um pensamento emerge livre das amarras que impuseram, a única resposta que conhecem é a tentativa desesperada de aniquilação.

Mas aqui reside a verdade que os inquieta e que nenhuma estratégia de silenciamento conseguirá apagar: cada ataque que desferem, cada tentativa de desqualificação, cada esforço para intimidar funciona como uma confissão pública de insegurança. Porque o poder verdadeiro não precisa de atacar  simplesmente existe. O conhecimento verdadeiro não precisa de defender o seu território  sustenta-se pela sua consistência. Os intelectuais seguros não tremem diante de novas vozes  dialogam com elas. O facto de reagirem com tanta resistência, de investirem energia em calar quem começa a falar, de se sentirem ameaçados por jovens que ainda nem terminaram as suas jornadas, revela algo essencial: o debate deixou de ser exclusivo. Se a sociedade cabo-verdiana prestar verdadeira atenção, se olhar com olhos limpos, se escutar sem preconceitos, descobrirá que o pensamento genuíno não é monopólio de títulos, mas fruto de coragem intelectual. E este reconhecimento altera equilíbrios antigos.

A todos os jovens e mulheres de Cabo Verde que sentem o peso desta tentativa de silenciamento: compreendam que este peso não mede a vossa fraqueza, mede a relevância da vossa voz. Ninguém investe energia em silenciar quem não tem nada a dizer. Ninguém se sente ameaçado por vozes irrelevantes. Ninguém reage com intensidade ao que considera inofensivo. O facto de se esforçarem tanto para vos calar é, paradoxalmente, um sinal de que estão a ser ouvidos. Se continuardes a falar, a escrever, a pensar em voz alta, a existir intelectualmente sem pedir licença, o espaço público tornar-se-á inevitavelmente mais plural. Não há título académico que vos possa ser negado se recusardes aceitar que ele seja o único critério de legitimidade. Não há credencial que substitua a coragem de pensar com a vossa própria cabeça. Não há metodologia que dispense a honestidade intelectual de quem vive e interpreta a própria realidade com lucidez. Transformai cada tentativa de intimidação em maturidade, cada crítica em aperfeiçoamento, cada resistência em motivação para elevar ainda mais o nível do debate. O futuro intelectual de Cabo Verde não pertence a um grupo fechado. Pertence a quem pensa, a quem estuda, a quem vive e a quem tem coragem de dialogar. E isso já começou.

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