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Cimeira da "paz" na Suíça reforça o alinhamento do governo de Cabo Verde com a Ucrânia e os seus aliados
Ponto de Vista

Cimeira da "paz" na Suíça reforça o alinhamento do governo de Cabo Verde com a Ucrânia e os seus aliados

O primeiro-ministro cabo-verdiano partiu ontem para Suíça onde vai participar na chamada Conferência para a Paz na Ucrânia. Esta opção, no nosso entendimento, vem reforçar o alinhamento de Cabo Verde com uma das partes em conflito e o consequente abandono da tradição de não alinhamento da nossa diplomacia.

De acordo com o comunicado do governo divulgado pela Agência Lusa, a conferência visa "aprofundar os debates sobre a estratégia de paz ucraniana e outras propostas de paz que respeitem a Carta das Nações Unidas e os princípios da lei internacional". Porém, como poderá ser possível discutir e estabelecer pontes credíveis para a paz quando uma das partes em conflito nem sequer foi convidada? É possivel construir um roteiro realista com vista ao fim do conflito sem a participação da Rússia?

Antes mesmo de ter sido iniciada já se sabe que a cimeira da Suíça será um fracasso em termos de resultados práticos, não apenas pelo facto de não contar com a presença da Rússia, mas sobretudo porque um importante número de países não se fará presente no evento ou estarão representados por pessoal diplomático de nível inferior.

Observando a lista de países que já confirmaram presença constata-se que a maioria são nações do chamado ocidente global, que fazem parte da NATO ou que são aliados tradicionais dos Estados Unidos (que curiosamente não estará representado pelo seu presidente, Joe Biden). Mais de metade dos 90 países presentes serão do continente europeu.

Em sentido contrário grande parte dos países do chamado sul global não se farão presentes. Nenhum país dos BRICS se fará representar ao mais alto nível. A China, a maior potencial do sul global e um dos principais aliados de Moscovo, rejeitou participar da conferência dada a ausência da Rússia.

Dos 54 países africanos apenas 5 estarão representados pelos respetivos chefes de Estado ou de Governo (Gana, Cabo Verde, Quénia, Costa do Marfim e Somália) e 7 estarão representados pelos Ministros das Relações Exteriores ou por pessoal de menor escalão (Benim, Cômoros, Libéria, Ruanda, São Tomé e Príncipe e África do Sul). Portanto, um total de 42 países africanos não enviarão nenhum tipo de representação e entre os PALOP apenas Cabo Verde e São Tomé e Príncipe estarão presentes, sendo o nosso país o único representado pelo chefe do governo.

É bom lembrarmos que o nosso primeiro-ministro, em julho do ano passado, recusou participar na cimeira Rússia-África com o argumento de que o seu Governo não participa em nenhum ato que possa indicar apoio à guerra. É razoável pensar que os 47 países africanos que estiveram nesta cimeira apoiam a guerra na Ucrânia?

Escusado será dizer que a ausência de muitos países na Cimeira da “paz” na Suíça advém do facto de terem percebido que no fundo se trata uma conferência dos “adversários” da Rússia e não de uma verdadeira promoção da paz e de que o encontro se propõe ainda a servir como palco de promoção e re-legitimação do Zelensky como representante da Ucrânia, ignorando o facto do seu mandato como presidente ter expirado a 20 de maio.

Não restam dúvidas que atualmente o mundo está em transformação. A China vem-se consolidando como uma potência económica, a Rússia vem procurando reconquistar o prestígio perdido com o fim da União Soviética e nações emergentes como a Índia, o Brasil, a Turquia ou o Vietnam vêm aumentando a sua influência na geopolítica mundial. Se é verdade que os EUA continuam sendo a maior potencial mundial, nos mais diversos domínios, não é menos verdade que estamos caminhando para um mundo de múltiplas polaridades. A nosso ver, Cabo Verde enquanto um pequeno estado insular não deve abandonar a sua matriz diplomática que sempre foi de não alinhamento e de neutralidade perante os blocos políticos em disputa.

O comunicado do Governo de Cabo Verde sublinha ainda o compromisso do país com a "paz global e a ordem internacional baseada em regras, num momento em que a guerra na Ucrânia continua a devastar vidas e a desestabilizar a segurança europeia, com repercussões económicas sentidas em todo o mundo". Ora, é lamentável que esta mesma ordem mundial baseada em regras não esteja a ser aplicada aos Palestinianos que diariamente estão sendo dizimados e massacrados pelas bombas do exército de Israel. Sobre isto o Governo não tem nada a declarar? Não tenhamos dúvidas, a história julgará o silêncio da diplomacia Cabo-verdiana perante o genocídio dos palestinos.

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