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 Ricardo Cabral

Matam-se mulheres, mas em segredo social.

Em Cabo-Verde, como em qualquer outro país machista, e onde o homem tem o privilégio para ser bem sucedido através da brutalidade, a mulher é um mero objeto de suporte ou estatuto — e descartável quando não serve o homem.

Os machos deste contexto governam a sua sociedade acreditando cegamente que, sem a sua agressividade instintiva, as pessoas não sobrevivem.

A violência sobre as mulheres é lamentável e demonstra a incapacidade social perante os conflitos que se tornaram tabus. Esta sociedade, por remorsos sobre a sua realidade improdutiva, se apega ao mito do velho patriarcado como única garantia para quando a violência for necessária; numa existência insegura, a violência é sempre vista como o derradeiro recurso, e portanto, o homem violento reage muito pela sua humilhante precariedade social.

Vergonhosamente, para um homem cabo-verdiano e conservador, quanto mais mulheres tiver nas suas mãos, maior é o seu estatuto no grupo local de machistas. A tradição de ter filhos com várias mulheres só não seria desprezível se a mulher tivesse a dignidade de consentir com as decisões do marido, mas do país o qual falamos, a realidade não é essa. A imposição do homem no seu matrimónio é desesperante e sem limites. E quando a mulher recusa, ou quer fugir da relação, a violência masculina é um cenário provável; o feminicídio, também, é mais ou menos tolerado.

Por mais que haja pessoas e teorias que expliquem a liberdade, na generalidade e em África, a verdadeira liberdade é reservada só aos homens ou ricos. E o cabo-verdiano, rico ou pobre, usa a alienação cultural para fazer o corpo e mente da mulher serem a compensação sobre a pouca intelectualidade, ou capacidade, do próprio macho tenso. O típico cabo-verdiano é um ex-colonizado — Ser historicamente explorado —, nervoso pela sua condição de insegurança na fragilidade política, ambiental e económica, que é apavorado pela possibilidade de ser, sexualmente e em última instância, abandonado pelas mulheres — as que o dão algum poder na sua vida miserável.

O violento ou assassino, orgulhoso pela sua cultura machista, crê fazer justiça doméstica quando, na verdade, o abuso sobre a mulher foi a única forma dele se afirmar numa comunidade com objetivos insignificantes.

Tudo conspira contra as mulheres. O pai, o avô, a família, as músicas e vídeos nas TVs, os supostos bons costumes ou a bíblia, todos conspiram para que a mulher se contente em ser subjugada. Tudo o que é moral, é manipulado para que o homem seja uma necessidade e a mulher se deixe guiar pela indomável virilidade do mesmo. Ninguém se opõe, e quem o fizer estará a desafiar a intocável posição masculina, candidatando-se a ser punido com o corte da navalha.

Antes da independência cabo-verdiana, o pilar da ideologia nacionalista era a liberdade do povo, ou a liberdade das pessoas. No entanto, passado décadas, a mulher é, ainda, dependente da vontade vândala do homem.

Quase nenhum cabo-verdiano entende a liberdade. Quase ninguém, homem, quer a igualdade. As ideologias de Amilcar Cabral foram um fracasso, e, infelizmente, após as independências, o próprio morreria de desilusão caso não fosse morto pelas balas traidoras. Aliás, a brutalidade declarada sobre as mulheres só prova que o Amilcar nasceu para ser traído pela infinita imaturidade do africano desatualizado.

Que Cabo-Verde saiba que cada mulher que morre nas mãos dum marido, ou namorado, é mais um passo para trás, em direção a nada. O progresso que vive de imaturidades, tabus ou abusos, é sempre temporário.



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Comentários  

0 # Ovidio 29-04-2019 01:00
Bom concebido.
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+3 # Paula da Costa Willi 28-04-2019 16:19
Grande reflexão que me faz doer a alma. Senti esta dor quando cheguei a Cabo Verde pela 1ª vez em Agosto de 74 quando da chegada dos líderes do PAI a São Vicente e Santo Antão. Falei com muitas mulheres e fiquei assustada pela submissão ao poder dos homens quando elas eram grandes guerreiras de luta diária pela sobrevivência da família e o suporte principal da família. Pensava eu na altura que havia muito trabalho a fazer e tristemente sinto que pouco se alcançou. O meu bem haja a quem continua com esta luta.
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