
Que país é esse que andamos a construir quando transformamos a cidadania num ato de prostituição política? Que ganho é esse quando o preço é a consciência, quando o salário compra a submissão, quando as carreiras se constroem sobre os escombros da dignidade? Que democracia é esta onde a liberdade de pensamento é um luxo que apenas os desempregados podem dar-se ao prazer de ter? Que futuro aguarda uma nação que ensina às suas crianças que o sucesso se conquista não com talento ou trabalho, mas com bajulação e obediência cega? Cabo Verde merecia ser a terra da liberdade que prometeu ser, não esta prisão a céu aberto onde as correntes são invisíveis, mas as feridas são reais.
Há uma frase que ecoa pelas ruas, pelos cafés, pelas casas de Cabo Verde há duas décadas, repetida como um mantra de resignação: “É basta bu apoianu ki nu ta ranjau um emprego”. Nestas sete palavras cabem o peso de uma nação inteira, a capitulação de uma geração, o retrato silencioso da dignidade coletiva. Cabo Verde, essa pequena nação que um dia ergueu a bandeira da liberdade conquistada com suor e sangue, transformou a democracia numa armadilha mais cruel que os dias sombrios do partido único. Porque a prisão mais perversa não é aquela que se vê, mas aquela que se carrega na consciência, aquela que se veste como uniforme invisível, aquela que se respira como ar contaminado.
Mestres, doutorados, trabalhadores do saneamento, todos nivelados pela mesma necessidade brutal, todos reduzidos ao mesmo denominador comum da fome e do desespero. Quando aceitam a “oportunidade”, no instante em que estendem a mão para receber o emprego condicionado à lealdade política, não percebem que a escravatura mental começou exatamente ali. Uma escravatura sem correntes visíveis, mas com grilhões mais pesados que qualquer ferro: os grilhões da autocensura, da traição de si mesmo, da morte lenta da integridade. Aqueles que abraçam essa oportunidade como única saída do desemprego não entendem, naquele momento crucial, que estão a assinar um contrato faustiano que lhes custará muito mais do que qualquer salário poderá compensar.
O ritual é sempre o mesmo, mecânico e desumano. Primeiro, obrigatoriamente deves vestir a camisola, fazer campanha. Não importa se ela sufoca, se queima a pele, se envergonha a família. E então vem a ordem bruta, sem pedir por favor, quanto mais permissão: textos produzidos que és obrigado a republicar para que o chefe possa ganhar e garantir a sua visibilidade. Comentários que tens de fazer para proteger o chefe, instruções claras de quem atacar, com que algoritmos e quando atacar. O patrão não pede, não sugere, ordina. E tu, que precisas do salário para alimentar os filhos, para pagar a renda, para sobreviver mais um mês, obedeces sem questionar, repetindo o teatro como um ator condenado a representar eternamente o mesmo papel degradante.
Essa manipulação acontece com dois tipos diferentes de pessoas, e ambos os cenários são igualmente devastadores. Uns têm consciência clara de que perderam tudo, de que venderam a dignidade e a honra. Veem-se ao espelho e reconhecem um estranho, carregam uma tristeza profunda nos olhos, uma vergonha que não se confessa, mas que corrói por dentro. Repetem esse teatro tenebroso em proteção de uma cor política, em defesa ao seu chefe, cientes de que estão a deitar a sua moral. São prisioneiros lúcidos da própria covardia, e essa lucidez é o seu tormento diário, a ferida que nunca cicatriza, a culpa que os acompanha em cada publicação partilhada, em cada comentário fabricado, em cada ataque ordenado.
Por outro lado, temos o cenário mais calamitoso e perverso: aqueles que fazem isso sem consciência, cegamente, indo para o campo ainda pior que é atacar quem pensa diferente, injuriosamente, telecomandadamente, de forma cega, repetindo todos os posts do boss, comentando todas as suas publicações, atacando a oposição sem mente própria como um verdadeiro robô. Transformaram-se em autómatos perfeitos, em extensões digitais da vontade do patrão, em marionetas que dançam ao ritmo de algoritmos e instruções. Perderam até à memória de terem sido humanos, tornaram-se zumbis políticos que insultam, difamam e destroem reputações sem hesitar, sem questionar, sem sentir.
A situação é tão triste que rompe a alma de muitos que foram recrutados para seguirem como discípulos do boss. Quando acordam desse pesadelo, muitos já estão na depressão, devastados por sentimentos de culpa, de inutilidade técnica, por serem apenas usados como mecanismo do alcance do mal. O sentimento de culpa é avassalador: quantas vidas prejudicaram? Quantas mentiras espalharam? E quando rejeitam continuar nesse caminho, o castigo é implacável: são castigados com a não promoção, cortes de salário, e são deixados na prateleira a apodrecer, marcados como traidores, isolados como leprosos, condenados ao ostracismo institucional.
O refúgio vem de formas desesperadas. Muitos refugiam-se assim na droga, no alcoolismo, tentando esquecer no fundo da garrafa o que fizeram e quem se tornaram. Alguns fogem pela emigração, por não aguentarem ambientes laborais tão tóxicos e a pressão do chefe. Emigram não apenas em busca de melhores condições económicas, mas para escapar da pressão psicológica constante, do olhar do chefe que lembra diariamente o pacto que assinaram, do peso insuportável de viver numa mentira permanente. A fuga torna-se a única forma de recuperar algum fragmento de sanidade mental, ainda que deixem para trás família, raízes e terra Natal.
Muitos chegam até nós no final dizendo que nunca queriam estar a fazer isso, mas que foi a única saída. Como se a sobrevivência física justificasse o suicídio moral, como se não houvesse escolha entre a fome do corpo e a fome da alma. Outros que nunca aceitaram isso chegam até nós e desabafam como sempre ficam na prateleira, castigados, humilhados e desprezados. Ficam lá durante anos, observando os obedientes serem promovidos, vendo os subservientes prosperarem, testemunhando a mediocridade ser recompensada enquanto a competência é punida, enquanto a integridade é tratada como defeito de carácter.
Que país é esse que andamos a construir quando transformamos a cidadania num ato de prostituição política? Que ganho é esse quando o preço é a consciência, quando o salário compra a submissão, quando as carreiras se constroem sobre os escombros da dignidade? Que democracia é esta onde a liberdade de pensamento é um luxo que apenas os desempregados podem dar-se ao prazer de ter? Que futuro aguarda uma nação que ensina às suas crianças que o sucesso se conquista não com talento ou trabalho, mas com bajulação e obediência cega? Cabo Verde merecia ser a terra da liberdade que prometeu ser, não esta prisão a céu aberto onde as correntes são invisíveis, mas as feridas são reais.
Será que deveras isso é democracia? Cada cabo-verdiano, dentro e fora do país, precisa tirar as suas próprias conclusões, olhar para este espelho e decidir que reflexo quer ver. Porque um país constrói-se não apenas com estradas e edifícios, mas com a dignidade de cada cidadão. E quando essa dignidade se vende no mercado da necessidade, quando a alma tem preço e a consciência tem dono, já não estamos a construir um país. Estamos a cavar um túmulo coletivo onde enterramos, dia após dia, tudo aquilo que nos tornava humanos, tudo aquilo que dava sentido à luta dos nossos antepassados, tudo aquilo que justificava chamarmos Cabo Verde de pátria.
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