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Por: Redacção

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Agentes dos EUA terão interrogado o capitão do navio ESER clandestinamente em solo cabo-verdiano e sem a presença de um advogado. Sergey Kotrovskii revelou este dado esta manhã no segundo dia do julgamento dos onze tripulantes russos do cargueiro flagrado no ano passado com dez toneladas de cocaína a bordo.

É o pormenor mais relevante deste segundo dia de audiência da "Operação ESER" e uma novidade absoluta na investigação aos tripulantes russos do cargueiro que aportou ao porto da Praia em Janeiro do ano passado com dez toneladas de cocaína. Sergey Kotrovskii, o capitão do navio, questionado pelo seu advogado de defesa, Martinho Landim, disse que pelo menos por quatro vezes (31 de Janeiro, 1, 5 e 15 de Fevereiro) foi interrogado sem a presença de nenhum defensor, o que indicia falha processual, porque mal conduzida a investigação.

Pior, dessas quatro vezes, prosseguiu o capitão, duas sessões foram conduzidas por policias americanos, que disse ter reconhecido pelo sotaque e num segundo momento porque foi um dos investigadores que lhe disse trabalhar na embaixada dos EUA em Moscovo, vindo a Cabo Verde para esse fim precisamente. Esses interrogatórios, que a defesa afirma ser ilegal e violador das leis nacionais, aconteceram na cadeia central da Praia e nas instalações da própria PJ (no dia 15), colocando em causa a seriedade e independência da justiça no tratamento deste caso de tráfico internacional de droga.

Isto porque a operação era monitorada pelo MAOC-N (Maritime Analysis and Operations Centre – Narcotics), com sede em Lisboa, que forneceu então os dado à judiciária cabo-verdiana para pôr em marcha a "Operação ESER", a maior quantidade de droga alguma vez apreendida em Cabo Verde. A "intromissão" dos EUA nas investigações intrigou o advogado de defesa, que sequer foi chamado para assistir à conversa dos agentes americanos com o seu constituinte. "Foi uma acção clandestina e ilegal", reforçou Landim ao SM.

Sergey Kotrovskii voltou a referir ao colégio de juizes, presidido por Ângela Rodrigues, que recebeu ameaças de morte caso recusasse receber e transportar a mercadoria até Tanger, no Marrocos. Segundo contou, o ESER zarpou do Panamá no dia 4 de Janeiro em direcção ao Norte de África para ser reparado. E que, por causa do estado da embarcação, pararam algumas vezes para consertar pequenas falhas no sistema de comunicação, motores e grua.

No dia 12, oito dias depois de arrancarem do Panamá e já perto de Curaçao, prosseguiu o capitão, foram cercados por outras três embarcações que fizeram-no parar em alto mar e, sob ameaça, efectuaram o transbordo das caixas. De acordo com a sua versão, as ameaças foram feitas por mensagens via SMS num telemóvel que lhe foi entregue ainda no Panamá pelos armadores do ESER, Javier Ortiz e Nestor Mesa, com tradução de uma russa chamada Oksana. Nota: ontem foi mencionado um terceiro armador, referenciado como don Alfonso, e que seria um dos patrões de toda a cocaína encontrada, assim como a embarcação. Consta que o espanhol Don Alfonso veio a Cabo Verde há alguns meses reclamar o barco, pedido rejeitado. Contra ele existe um outro processo-crime e que o indicia como o cabeça de toda a operação, a par de Javier Ortiz e Nestor Mesa, da ala mexicana desta grande rede mafiosa.

O marinheiro Vadim, também ouvido esta manhã, confirmou a história dizendo que toda a tripulação estava ameaçada assim como as suas famílias na Rússia. "Cheguei a temer por mim e pela minha família", desabafou.

Ora, o telemóvel que supostamente continha essas mensagens ficou com a PJ, para, segundo o advogado de defesa dos russos, Martinho Landim, em declarações ao Santiago Magazine, verificar o seu conteúdo. Landim aponta aqui outra falha processual: "a juíza do processo deu à PJ um prazo de 15 dias, antes de iniciar o julgamento, para apresentar os resultados da análise ao aparelho, mas a PJ, além de não respeitar esse prazo - reagiu apenas hoje, terça-feira - disse que esse telemóvel que tinhamos como elemento de prova da inocência dos arguidos, pois confirmava que foram coagidos, estava com os dados deletados, isto é, não havia um único número de contacto, nenhuma chamada de saída ou de entrada e nenhuma mensagem trocada. Estranho, não!?. Imagina, era através desse aparelho que os donos da droga pressionavam a tripulação através de mensagens sms que falava em cortar a cabeça dos tripulantes e seus familiares", aponta Martinho Landim, para quem em se tratando de uma quantidade tão grande de droga, com milhões de dólares em jogo, a tripulação, se estivesse envolvida, teria de estar armada para defender a carga de tentativas de assaltos. "No navio não foram encontradas quaisquer armas de fogo, o que revela a inocência da tripulação", observa.

A nota da PJ acerca desse aparelho ainda não tinha chegado quando o representante do Ministério Público, Osmar Santos, garantiu a Kotrovskii que, a existirem essas mensagens, iriam fazer de tudo para as conhecer.

Antes, Osmar Santos quis saber do capitão como foi que aceitou trabalhar numa embarcação da qual não conhecia que produto transportava. Sergey Kotrovskii explicou: "o contrato era para transporte de contentores, produtos congelados, sardinhas e equipamentos navais, enfim carga geral, tudo entre Caraíbas, África do Norte e Europa. Em momento algum se falou de outro tipo de mercadoria. Versão também corroborada pelo maquinista que garantiu nunca ter visto, carregado ou percebido da carga ilícita até que o capitão contou o que se passava. A história contada pelos três coincide.

O julgamento dos onze russos começou ontem, 27, e deve prolongar-se até 31 de Janeiro, data que completa precisamente um ano da sua detenção no porto da Praia. Um forte dispositivo de segurança foi montado ao redor do tribunal da Praia, com cerca de duas dezenas de polícias armados com AKM a controlar o lugar.

Santiago Magazine sabe que esse aparato policial de segurança foi montando a pedido do advogado de defesa, Martinho Landim, estando envolvidas todas as forças de segurança, desde a PN, PJ até o serviço de Informação da República (SIR). Para tal foram disponibilizados 17 carros e dezenas de agentes de segurança que monitoram cada centímetro ao redor do tribunal.

Este jornal soube aina que os agentes estão no tribunal desde as 4 horas de madrugada, para garantir toda a segurança dos arguidos - aliás, as ruas de frente de trás do tribunal estão praticamente fechadas para curculação automóvel - cujos depoimentos serão cruciais para desvendar a origem e destino dessa enorme quantidade de droga e os respectivos donos.

No dia 31 de Janeiro do ano passado, a Polícia Judiciária encontrou 9.570 quilos de cocaína - 260 fardos (volumes) - num cargueiro russo, chamado ESER, que atracou no Porto da Praia. Todos os 12 tripulantes foram então detidose presos preventivamente por tráfico internacional de droga.

Na operação de busca, descarga, acondicionamento, transporte e guarda do produto apreendido, a PJ contou com a cooperação e suporte técnico da Polícia Judiciária Portuguesa, da Polícia Nacional Francesa, bem como das forças de segurança nacionais, designadamente, as Forças Armadas, Polícia Marítima e ainda a ENAPOR e do Porto da Praia.

Esse cargueiro, oriundo do Panamá, tinha como destino a cidade de Tânger, no norte de Marrocos, mas fez uma escala no Porto da Praia para cumprir os procedimentos legais relacionados com a morte a bordo do Imediato Viktor, um dos 13 tripulantes que iniciaram a viagem desde Panamá. Sucede que a PJ já estava na posse de informações de que se tratava de uma embarcação suspeita de transportar uma quantidade indeterminada de estupefacientes. E, a troca de informação operacional com o MAOC-N (Maritime Analysis and Operations Centre – Narcotics), com sede em Lisboa, a judiciária cabo-verdiana punha em marcha a "Operação ESER", a maior quantidade de droga alguma vez apreendida em Cabo Verde.



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Comentários  

0 # zé luis 29-01-2020 15:50
Já vi este filme no processo dos traficantes brasileiros que contaram à nossa justiça ma história de embalar e com uma pequena pressão da diplomacia brasileira, a nossa justiça acabou por ser prostituída ... já iniciou a nova saga Justiça Pechinguinha Cap. 2 ...
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0 # John Leite 28-01-2020 17:33
Nada a ver. Ilegais só e somente se fossem as interrogações judiciais pela PJ ou pelo Ministério Público sem advogado. Na cadeia civil, qualquer diligência com os detidos é autorizada pela Direção do Estabelecimento que, naturalmente só deixa entrar pessoas devidamente identificadas. Se um arguido aceita falar com desconhecidos, em sessão de visitas e sobre o seu processo, na ausência do seu advogado, problema dele e não poderá queixar-se de ninguém senão de si próprio. Ademais, a Cadeia Civil não permite a ninguém entrar em contacto com o arguidos em diligências sem advogado. Repare que os arguidos ainda não são presos porque não foram condenados, mas sim detidos e à disposição da justiça. Como tal é restrita seus contactos com o mundo externo, até mesmo para a preservação das provas. Não cabe!
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