
Do ponto de vista científico, importa sublinhar que o direito à emoção é o mais primordial dos direitos humanos. O ser humano não é, como durante muito tempo se pensou, um ser racional que ocasionalmente sente emoções. É exatamente o contrário: é um ser emocional com capacidade racional. A neurociência, a psicologia do desenvolvimento e a antropologia cognitiva demonstram amplamente que a linguagem emerge de interações socialmente e emocionalmente marcadas e constitui o principal meio através do qual o sujeito se constrói, se reconhece e se exprime no mundo (Damásio; Maturana & Varela; Vygotsky; Benveniste; Humboldt). A língua materna ocupa, nesse processo, um lugar central, por ser o primeiro espaço simbólico onde emoção, identidade e cognição se entrelaçam.
Pamódi ki kabra ten bóka séku?
Éra na dia ki Kristu nase ki galu fla:
“Jesus Kristu já naseu!”
Baka fla: “Aonde?”
Karneru fla: “Na Belém.”
Kabra fla: “Mintira!”
E dadu un bafatada, d’ê fika ku bóka séku di un bês.
Estamos na quadra festiva do Natal e do fim de ano, um tempo em que as emoções afloram com mais intensidade e em que a linguagem deixa de ser apenas instrumento de comunicação para se tornar, sobretudo, expressão de afetos, memórias e pertença. É também neste tempo que se torna mais evidente uma verdade simples e profunda: as emoções exprimem-se plenamente na língua materna.
Em Cabo Verde, convivem, de forma natural, expressões que circulam no espaço lusófono — como “Boas festas e feliz Natal” — com outras que só fazem sentido pleno no universo afetivo do crioulo: “vótu di bida ku saúdi na anu ki ta ben”, “bon dia, bon anu, bon fésta, nin k’é poku pa poi na mó”. E essas expressões pedem respostas à altura, respostas que não se traduzem, mas se vivem: “N da-u anu ki ta ben interu pa bu goza só sábi”.
É tempo de “dá-ka, dá-ka”, de “nhós nu brinka só sábi”, de “konta párti”: contar anedotas, rir alto, partilhar histórias antigas e criar novas. É tempo de celebrações religiosas e gastronómicas, de mesas cheias e de encontros prolongados. E, entre essas tradições, há uma que diz muito sobre quem somos: o Sanbrás. Mais do que a ceia ou o almoço do dia festivo, o Sanbrás nasce das sobras, da comida partilhada no dia seguinte, muitas vezes com os mesmos convidados. Ele simboliza continuidade, reaproveitamento e comunidade — valores profundamente enraizados na cultura cabo-verdiana. Que para 2026, se for para ser pior, que seja Sanbrás de 2025, naquilo que ele foi melhor.
Neste ano em que celebramos os 50 anos da Independência, este tempo festivo ganha ainda mais densidade simbólica. Ao longo do ano, enquanto decorriam festivais comemorativos, um verdadeiro dueto entre razão e emoção fez-se ouvir, em tom quase sinfónico. Foi o debate em torno da língua materna: intenso, por vezes duro, marcado por emoções fortes, acusações e divergências profundas. Houve necessidade de dizer coisas difíceis. E essas coisas foram ditas — com razão e com emoção. Vozes vindas das escolas e da sociedade fizeram-se ouvir, mas foram sobretudo os poetas — guardiões sensíveis da palavra — que ergueram muitas dessas falas, escrevendo com e a partir da língua da emoção: o crioulo.
Isso não é um desvio. É da natureza das coisas. A língua materna é, antes de tudo, a língua da emoção. É nela que o ser humano se exprime desde bebé; é nela que aprende a amar, a pedir, a protestar, a manifestar alegria e ira. A racionalidade vem depois. A emoção vem primeiro. E nenhuma sociedade pode ser justa se permitir que um falante de uma língua formal ou dominante oprima outro por este se exprimir, emocionalmente, na sua língua materna.
Do ponto de vista científico, importa sublinhar que o direito à emoção é o mais primordial dos direitos humanos. O ser humano não é, como durante muito tempo se pensou, um ser racional que ocasionalmente sente emoções. É exatamente o contrário: é um ser emocional com capacidade racional. A neurociência, a psicologia do desenvolvimento e a antropologia cognitiva demonstram amplamente que a linguagem emerge de interações socialmente e emocionalmente marcadas e constitui o principal meio através do qual o sujeito se constrói, se reconhece e se exprime no mundo (Damásio; Maturana & Varela; Vygotsky; Benveniste; Humboldt). A língua materna ocupa, nesse processo, um lugar central, por ser o primeiro espaço simbólico onde emoção, identidade e cognição se entrelaçam.
Por isso, neste tempo de balanços e desejos, em agradecimento a todos os que leram, concordaram, discordaram, refletiram e sentiram com os textos sobre a língua materna ao longo do ano, deixo um voto simples: que no ano que vem haja debates, se for preciso; que haja conflitos, se tiverem de existir; mas que haja também reconciliações, celebrações e encontros. Que continuemos a falar — com emoção e com responsabilidade — na língua que nos constitui.
Bon fésta. Bon anu. Ku bida, ku saúdi, ku palavra.
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Comentários
Aguinaldo Monteiro, 24 de Dez de 2025
O texto é de uma beleza rara, profundamente enraizada na sensibilidade cultural e humana cabo-verdiana. Com escrita elegante e reflexiva, consegue articular emoção, identidade, memória e ciência numa narrativa coesa, envolvente e profundamente verdadeira. A forma como valoriza a língua materna - não apenas como meio de comunicação, mas como espaço primeiro da emoção, da pertença e da construção do ser - revela uma compreensão madura e humanista da linguagem.
Aguinaldo Monteiro, 24 de Dez de 2025
É particularmente feliz a maneira como o autor transita entre o português e o crioulo, não como recurso estilístico gratuito, mas como gesto simbólico e político, afirmando, na prática, aquilo que defende no plano conceptual: certas emoções não se traduzem, vivem-se. As referências às expressões festivas, ao "Sanbrás" e às práticas comunitárias conferem ao texto um calor humano e uma autenticidade que o tornam próximo, reconhecível e profundamente nosso.Aguinaldo Monteiro, 24 de Dez de 2025
Trata-se, em suma, de um texto lúcido, corajoso e reconciliador, que não foge ao debate, mas o humaniza. Um texto que convida à escuta, ao respeito e ao encontro, lembrando-nos que falar a nossa língua é também afirmar quem somos. Um contributo valioso para o pensamento cultural e linguístico cabo-verdiano, especialmente num tempo de balanço, celebração e esperança.Responder
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