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Quando o altruísmo choca com o egoísmo governamental
Colunista

Quando o altruísmo choca com o egoísmo governamental

A única coisa que é obrigatória neste país é o serviço militar, mas para os maiores de 18 anos. Os políticos que entenderem que são mal pagos têm uma única solução: deixar a política e regressarem às suas atividades anteriores, caso as tiverem, já que pessoas disponíveis para preencherem as vacaturas não faltarão. Os professores do ensino básico, secundário e superior, médicos, enfermeiros, veterinários, técnicos superiores da administração pública, oficiais de registos e notariados, engenheiros dos ministérios das obras públicas e da agricultura, técnicos do ministério da cultura ficariam muito satisfeitos se tivessem os vossos salários que para eles é atrativo, e, possivelmente, desempenhariam melhor o vosso papel.

Umas medidas insensatas outras ditatoriais que roçam a crueldade, tomadas por este governo, afugentam as pessoas da política e criam animosidade em relação aos políticos.

Particularmente, fiquei perplexo quando li e ouvi o depoimento de duas ilustres cidadãs cabo-verdianas, de gerações diferentes, de setores de atividades diferentes:  uma com a sua generosidade, altruísmo, voluntariado e entrega às causas sociais que há mais de uma década tem levado a solidariedade, conforto e alimentação  às casas das famílias carentes da nossa sociedade; e a outra, que no campo desportivo, vem prestigiando a nação, empoderando as mulheres, levantando a autoestima da juventude feminina, sempre com a bandeira desta nação na sua mão direita. 

Refiro-me à Dra. Ana Maria Hopffer Almada, presidente da fundação Donana, uma cidadã respeitada, professora de várias gerações, com grande prestígio na nossa sociedade, quando dizia, há uns dias, que nos armazéns do Banco Alimentar, onde depositam géneros alimentícios recolhidos nos supermercados, mercearias e nas outras instituições de caridade para distribuírem à população carente, restavam apenas 2 (dois) sacos de arroz. Mais, há uns meses tinha dito que durante a pandemia da covid 19, quando o governo distribuía cestas básicas de forma pouco transparente, numa altura em que os pedidos de ajuda aumentaram exponencialmente, a sua a fundação não foi tida nem achada. Tratando-se de uma fundação que já provou a sua seriedade, espírito de solidariedade e profissionalismo, que apenas quer apoiar famílias em dificuldade, esperava-se uma outra atitude do governo, não fosse o totalitarismo triunfante em Cabo Verde, onde pensar diferente ou ter outra sensibilidade passou a ser crime.

O país recebeu nos últimos dias uma grande quantidade de cereais: arroz e farinha de trigo. Estive de calculadora na mão a somar a quantidade de cereais recebida durante os últimos 3 anos, principalmente do Japão e da China. Perdi a conta quando concluí que não temos silos suficientes para tanta ajuda. Caso o governo considerasse as fundações como a Donana, as igrejas ou mesmo a Cáritas como parceiras e não concorrentes, canalizaria uma parte considerável dessas ajudas para essas associações que sabem muito bem e melhor que o governo, onde mora a pobreza em Cabo Verde.

A causa da marginalização da Fundação Donana está intrinsecamente ligada ao seu fundador – o ilustre cidadão, Dr. David Hopffer Almada – um excelente jurista, que já desempenhou funções relevantes no aparelho do estado cabo-verdiano desde o início desta república como estado soberano, na qualidade de ministro da justiça, ministro da informação, cultura e desportos e deputado da nação, uma figura prestigiada dentro e fora do país.  A sua antiga filiação ao PAIGC e PAICV constitui motivo para a falta de solidariedade e complementaridade que devia existir entre essa fundação e o governo. Tudo porque o partido no poder não sabe coabitar com a diferença e não se dá ao trabalho de consultar o estatuto desta fundação para ver que nos seus órgãos sociais estão pessoas honestas, respeitadas, de diversas sensibilidades que se na sua filosofia tivesse fins políticos, não tomariam parte dela.

Dra. Ana Maria Hopffer Almada, continue com a sua atividade de voluntariado com entrega total à causa dos pobres desta terra, mesmo ignorada pelo governo, que a população, principalmente, os mais necessitados, agradecem.  A sua entrega nos traz à memoria uma ilustre cidadã do mundo que também dedicou a sua vida aos pobres, a madre Teresa de Calcutá.

Um outro motivo que me causou perplexidade foi um post de Nancy Moreira, o nosso orgulho, campeã africana de boxe na categoria 63-66kg, que para ir participar numa competição em Camarões com a bandeira de Cabo Verde, teve de recorrer a empréstimo bancário de seiscentos mil escudos para custear estágios, passagens e hotel.

É a forma que ela encontrou para se deslocar de Portugal onde reside até Camarões a fim de representar Cabo Verde, já que da parte da superestrutura do desporto que temos neste país, que consome a maior fatia do bolo do desporto, não encontrou solidariedade.  Dessa competição, saiu com a medalha de ouro, ou seja, é a campeã africana. Mas como dizia o outro, quando uma porta se fecha, outras se abrem. Não é que o nosso ilustre e grande músico Dino de Santiago, também residente em Portugal, vendo o sufoco financeiro da nossa conterrânea, campeã africana, que teimosamente quer representar este país que não valoriza os atletas, mesmo os de alta competição, numa espécie de bofetada com luva branca aos governantes, entregou uma quantia significativa à nossa campeã de boxe e prontificou-se a mobilizar mais pessoas para a ajudar a saldar a dívida contraída para representar Cabo Verde?

Dino, o seu gesto é nobre e ficará registado definitivamente no coração dos cabo-verdianos. o silêncio do palácio do governo na Várzea, traduz-se numa coisa só – vergonha! A vergonha ainda é maior quando sabemos que as empresas estrangeiras que ultimamente vem instalar-se em Cabo Verde para ganhar dinheiro e depois zarpar-se, já receberam avales deste governo traduzido em milhões de escudos.

Todos os países do mundo acarinham os seus atletas. Há aqueles que andam numa conquista desenfreada à procura dos melhores noutras paragens para os representar, porque sabem que o ouro ganho numa competição internacional, o hino entoado e a bandeira hasteada dão grande visibilidade ao país.

Portugal assegurou com as duas mãos Pedro Pichardo, de origem cubana, campeão olímpico e mundial de triplo salto. Já tinha agarrado com toda a força o nigeriano Francis Obikwelu que veio a ganhar medalha de prata nos jogos olímpicos.

Os nossos basquetebolistas, “Os Tubaron Martelo”, para irem ao campeonato do mundo no Japão, tanto o treinador Mané Trovoada como o capitão Fidel Mendonça num ato de coragem, mas também de desespero, tiveram de dar um murro na mesa para que a verba fosse desbloqueada para uns dias de estágio. No final, numa atitude de hipocrisia lemos mensagens de governantes a abocanhar o louro dos nossos briosos.

Não vou referir-me ao caso do nosso campeão olímpico e do mundo, o mais medalhado de sempre Gracilino Barbosa, porque como o mesmo disse para conseguir aquilo que tem direito enquanto medalhado vai levar o governo às barras do tribunal.

O boa-vistense Wesley Brito, acaba de ser campeão do mundo de Winggfoil em Marrocos. Há pouco tempo, lamentava falta de apoio para se deslocar à cidade da Praia para tratar da documentação e vistos para competir. Wesley, tanto o Cozzolino ou Matchú Lopes poderão mostrar-lhe os países que valorizam os atletas.

Um outro grande atleta do boxe, medalha de ouro da Zona II de África, Sifonelo Lopes, para treinar e competir, primeiro terá de ir buscar o seu sustento, escavando várias sepulturas com 2 metros de comprimento, 90 cm de largura e 1,5 metro de profundidade, debaixo de sol escaldante, no cemitério da Várzea onde exerce a sua profissão, para no fim do dia, ir suar a camisola na placa do gimnodesportivo. Isto acontece num país que se gaba de ter dinheiro e de dar subsídios por tudo e por nada a quem não precisa e que coloca à frente (direção) do desporto, pessoas insensíveis, que não sabem quanto custa uma medalha numa competição internacional.

Pelas informações que tenho, hoje o nosso coveiro-boxeiro, está no país de Biden num estágio. Sifonelo, esta terra é sua, espero ver-lhe um dia nas nossas avenidas, mas, se é para voltar à antiga profissão e treinar para competir, pense duas vezes.

Gostar da política e dos nossos políticos que só olham para os seus próprios umbigos é uma tarefa impossível. Neste caso, estamos perante a legitimação do significado da frase do filosofo inglês Thomas Hobbes “o homem é o lobo do homem”, isto é, o homem é o maior inimigo do próprio homem.

O tema de conversa por estes dias é o aumento salarial no Banco de Cabo Verde e a velha lengalenga de que os políticos ganham mal.

O curioso é o facto de os políticos assumirem que ganham mal, mas que persistem em continuar na política e se são afastados ou colocados na lista concorrente para as eleições numa posição com poucas chances de serem eleitos, vociferam, ameaçam, revoltam-se, isto é, querem dedicar-se à política até à morte.

A única coisa que é obrigatória neste país é o serviço militar, mas para os maiores de 18 anos. Os políticos que entenderem que são mal pagos têm uma única solução: deixar a política e regressarem às suas atividades anteriores, caso as tiverem, já que pessoas disponíveis para preencherem as vacaturas não faltarão.  Os professores do ensino básico, secundário e superior, médicos, enfermeiros, veterinários, técnicos superiores da administração pública, oficiais de registos e notariados, engenheiros dos ministérios das obras públicas e da agricultura, técnicos do ministério da cultura ficariam muito satisfeitos se tivessem os vossos salários que para eles é atrativo, e, possivelmente, desempenhariam melhor o vosso papel.

Este país já foi muito respeitado na arena internacional; já esteve na linha da frente na resolução de muitos conflitos na África; hoje, é uma chacota. Não é que ouvimos um alto dirigente a pedir desde os Estados Unidos, para mediar conflitos no Níger, Mali, Burkina Faso e Gabão onde tiveram lugar golpes de estado?

Isto faz-me lembrar de um certo presidente da república lusófono da CEDEAO, que enquanto o tribunal estava a analisar o processo dos resultados eleitorais ocorrido no seu país, autoproclamou-se presidente e tomou posse à revelia da Assembleia Nacional, que também se prontificou para mediar o conflito entre Rússia e Ucrânia. Dizem que o embaixador russo nesse país fez o seu trabalho de casa, isto é, avisou o homem forte de Moscovo das pretensões do autoproclamado presidente de bengala. Putin ainda não respondeu nos canais diplomáticos ao seu homólogo, mas conforme o embaixador disse num círculo restrito, a única resposta que teve do palácio de Kremlin foi uma sonora gargalhada – uma coisa que muito raramente o antigo homem forte do KGB faz.

Cabo Verde já teve excelentes diplomatas no passado recente, por isso, hoje, estamos a colher frutos da cooperação chinesa e japonesa, recebendo toneladas de arroz e de trigo que muitas vezes são desencaminhados, conforme notícias recentes. Tais doações devem-se à diplomacia dos anos 70 e 80, iniciada com o grande timoneiro, combatente da liberdade da pátria, Abílio Monteiro Duarte, um homem culto, elegante, fino compositor, de discurso vibrante, um negociador nato, que foi ministro dos Negócios Estrangeiros, Cooperação e Comunidades de 1975 a 1981. Não tenhamos dúvidas, os alicerces da nossa diplomacia foram colocados por este ilustre filho das ilhas, e o Comandante Silvino Manuel da Luz soube muito bem prosseguir, debaixo da liderança do Comandante Pedro Pires enquanto primeiro-ministro.

Disponibilizar-se para mediar golpes se internamente também existem todas as razões que levaram aos golpes nessas Repúblicas africanas é no mínimo inusitado. As causas desses golpes são a corrupção, o desprezo para com os partidos da oposição, o enriquecimento ilícito de um grupinho à volta do poder, a venda ao desbarato dos bens públicos, a pobreza extrema da maioria da população que são coisas que também existem em Cabo Verde.

Cabo Verde quer ser mediador na CEDEAO, mas não paga as suas quotas a ponto de chegar à exorbitante quantia de 32 (trinta e dois) milhões de euros. Não ratificou o protocolo sobre os direitos humanos que dá competência ao tribunal da CEDEAO em matéria de direitos humanos para não acatar as decisões desse tribunal. Escancara as portas da sua fronteira aos europeus ao passo que para os africanos coloca pequenas frestas com grades para os filtrar.

Mesmo para escala técnica, um africano da nossa zona onde devia haver livre circulação, corre o risco de ser preso nos nossos aeroportos. Alguém deve estar a recordar-se de um estudante universitário bissau-guineense, “nosso irmão”, o termo é muito usado nos banquetes dos dirigentes dos dois estados, quando estava a caminho do Brasil onde concluía o seu doutoramento.

Quando é tratado assim um irmão, como há de ser um nigeriano, senegalês ou um marfinense? O inquérito feito na altura ainda está para ser divulgado. Essa forma de tratamento é do conhecimento de todos os estados da CEDEAO. Só quem não vê um palmo à frente do seu nariz é que acredita que esses países nos aceitam como mediadores

Queremos ser mediadores lá fora, quando cá dentro tentámos mediar o conflito entre uma câmara municipal da situação, numa ilha do norte, com um pequeno partido político e o resultado foi zero.

Cabo Verde já mediou vários conflitos no tempo do partido único e na democracia, sempre por convite das organizações internacionais ou das partes beligerantes.

O grande estadista e ex-presidente e falecido Dr. António Mascarenhas Monteiro, após terminar o seu mandato, na sua curta vida de ex-presidente, esteve a mediar conflitos no Togo, no Burkina Faso, no Haiti e em Madagáscar. Ainda sobre Dr. Mascarenhas, estranhei o facto de alguém que nasceu e cresceu cá, presenciou silenciosamente os seus dois mandatos, esperou 15 anos pacientemente, após a sua morte, para contestar as suas decisões enquanto presidente da república, quando já não podia rebater a crítica. Isso faz-me lembrar duma expressão latina que diz: “Mortuo leone et lepores insultant” – ao leão morto até as lebres insultam.

Mas também não é de estranhar quando alguns imberbes na política, andam todos os dias a insultar, a apoucar nas suas páginas um líder com a dimensão de Amílcar Cabral. Esses críticos, pessoas autointituladas de superinteligentes, pais de todas as áreas do conhecimento, estão sossegadinhos à espera de que os dois ex-presidentes felizmente vivos, partam para casa do pai, para também lançarem os seus venenos pela forma como exerceram as suas magistraturas.  

Esses comportamentos só contribuem para afastar as pessoas, principalmente, os jovens da política e dos políticos.

 

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