
Um país pequeno, insular, com recursos limitados, não sobrevive sendo gerido por quem trata a política como emprego vitalício. Cada ano desperdiçado com esta farsa é um ano roubado ao futuro. Ou rompemos radicalmente com este modelo exigindo currículos reais, implementando avaliação objetiva de desempenho, expulsando o despreparo técnico institucionalizado ou afundamo-nos irremediavelmente. Não há meio-termo possível. E quando o colapso chegar, os “profissionais da política” estarão confortavelmente reformados ou exilados. Quem pagará o preço?
Existe uma verdade brutal que ninguém ousa pronunciar em público: boa parte da classe dirigente cabo-verdiana trata a política como emprego de último recurso, não como missão de serviço público. São dezenas de indivíduos cujo único currículo real é a militância partidária nunca geriram uma empresa, nunca enfrentaram a folha de pagamento no final do mês, nunca arriscaram capital próprio em nada. Fora da política, não valeriam metade do salário que recebem como diretores-gerais ou secretários de Estado. E eles sabem disso. Por isso agarram-se aos cargos com unhas e dentes, defendem o partido com fervor de quem defende a própria sobrevivência económica. A governação transformou-se, assim, não em projeto coletivo, mas em estratégia individual de não afundar na irrelevância profissional.
Analisemos friamente o percurso típico: assessor parlamentar aos 25 anos, chefe de gabinete aos 30, diretor de instituto aos 35, secretário de Estado aos 40. Impressionante, não é? Mas façamos a pergunta que incomoda: o que é que esta pessoa efetivamente sabe fazer? Que problema concreto alguma vez resolveu? Que empresa criou? Que reforma implementou com sucesso mensurável? A resposta é um vazio ensurdecedor. Vinte anos de nomeações sucessivas sem um único resultado tangível além da própria sobrevivência burocrática. Este não é um currículo de excelência técnica é um atestado de dependência do sistema. E o mais perverso? Este padrão repete-se por todo o aparelho estatal, criando uma aristocracia protegida por redes clientelares que confundem antiguidade com sabedoria, permanência com capacidade, fidelidade partidária com aptidão para a gestão.
A formação real desta gente não acontece em faculdades ou nas empresas, acontece nas traseiras das sedes partidárias, onde aprendem a única ciência que dominam: a navegação em hierarquias de poder. Tornam-se mestres em bajular o líder certo, em silenciar opiniões próprias quando ameaçam a ascensão, em transformar convicção ideológica em oportunismo calculado. Desenvolvem um faro apuradíssimo para saber quem cumprimentar primeiro numa sala, que discurso repetir em cada contexto, como simular indignação nas crises e humildade nas vitórias. A sua expertise é puramente performativa espetáculo político sem substância técnica. E é com este vazio de competências reais que pretendem gerir um país inteiro.
O terror secreto que corrói estes “profissionais” é o medo do mercado de trabalho real. Sabem perfeitamente que nenhuma empresa privada séria os contrataria para posições equivalentes às que ocupam através da política. Um diretor-geral habituado a decidir por decreto descobriria que no mercado real, resultados importam mais que retórica. Este medo existencial transmuta-se em agressividade política: defendem o partido não por ideologia, mas porque a militância é o único seguro de vida que possuem. Trair as cores significaria suicídio profissional fora da política, despidos dos títulos pomposos e dos carros oficiais, não são ninguém. Por isso, quanto mais limitado tecnicamente o indivíduo, mais feroz a sua lealdade partidária. Não é convicção é desespero disfarçado de compromisso político. E este desespero contamina cada decisão governativa, porque quem governa pensando primeiro na próxima nomeação nunca governará pensando no país.
As consequências para a governação são catastróficas: ministérios geridos por quem só conhece outros ministérios, institutos dirigidos por quem nunca produziu nada além de relatórios políticos. Quando gestores sem formação em gestão gerem recursos públicos, quando economistas sem vivência económica real desenham política fiscal, o resultado é previsível: projetos que nunca arrancam, reformas que morrem em PowerPoints, crises que se agravam porque quem devia resolvê-las não possui as ferramentas académicas necessárias.
Dentro desta lógica perversa, a meritocracia é vista não como aspiração, mas como ameaça existencial. Se critérios técnicos objetivos começassem a determinar nomeações, 70% da classe política atual ficaria sem os seus cargos de conforto. Por isso, a lealdade cega torna-se valor supremo: não importa se o ministro não sabe o que faz, importa que seja “dos nossos”; não interessa se a diretora nunca entregou resultados, importa que “se sacrificou pelo partido”. Esta inversão de valores cria uma aristocracia parasitária, imune ao mérito, protegida apenas pela omertà partidária. E quem questiona esta farsa internamente? Rotulado de traidor, expulso do sistema. A mensagem é clara: ou aceitas a mediocridade ou ficas de fora. E assim se garante que a ausência de competência técnica se reproduza indefinidamente, geração após geração de políticos cuja única perícia é a arte de simular governação enquanto parasitam recursos públicos.
Enquanto esta classe trata cargos públicos como empregos vitalícios, o povo paga a conta literalmente e em sofrimento. Cada político sem competências técnicas em posição de liderança custa o equivalente a dezenas de salários-mínimos. Mas o custo real transcende o financeiro: é a saúde que colapsa porque quem gere o ministério nunca administrou uma clínica; é a agricultura que definha porque o responsável nunca plantou nada na vida; é a educação que regride porque quem a dirige confunde pedagogia com propaganda. Cada decisão tomada por quem não possui conhecimento técnico multiplica-se em tragédia coletiva.
O mais desesperante é que a política está desenhada para se auto-perpetuar: a classe dirigente no poder recruta mais leais despreparados em vez de técnicos qualificados críticos. Porque profissionais genuínos fariam perguntas inconvenientes, exigiriam resultados mensuráveis, denunciariam a farsa. Então, cada “renovação política” significa apenas trocar militantes verdes por militantes amarelos mesma ausência de preparação técnica, cores diferentes. E porque controlam os recursos públicos, seduzem novas gerações com o velho pacto faustiano: “Entra para o partido, mostra lealdade, garantimos-te um tacho.” Assim se perpetua, ciclo após ciclo, uma dinastia de despreparo técnico que condena o país à estagnação permanente.
A questão final não é se podemos continuar assim manifestamente não podemos. Um país pequeno, insular, com recursos limitados, não sobrevive sendo gerido por quem trata a política como emprego vitalício. Cada ano desperdiçado com esta farsa é um ano roubado ao futuro. Ou rompemos radicalmente com este modelo exigindo currículos reais, implementando avaliação objetiva de desempenho, expulsando o despreparo técnico institucionalizado ou afundamo-nos irremediavelmente. Não há meio-termo possível. E quando o colapso chegar, os “profissionais da política” estarão confortavelmente reformados ou exilados. Quem pagará o preço?
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