O abraço da serpente: a psicologia do algoz que se disfarça de amigo
Ponto de Vista

O abraço da serpente: a psicologia do algoz que se disfarça de amigo

Há um detalhe que o povo sempre nota e que nenhuma coreografia consegue disfarçar completamente: a incongruência entre o gesto público e o historial conhecido. O abraço fotografado não apaga as conversas que aconteceram antes. A presença encenada não desfaz a ausência deliberada que a precedeu. As pessoas que rodeiam estas dinâmicas conhecem a diferença entre a liderança autêntica e o teatro do poder conhecem quem foi afastado sem razão declarada, conhecem os que entraram com vontade e saíram sem ela, conhecem os olhares de quem sabia e calou por medo de ser o próximo. A comunidade que observa tem memória. E a memória coletiva é o arquivo mais honesto que existe.

Uma análise ao exercício perverso do poder e ao padrão que se repete sempre igual para todos

Há uma forma de exercício do poder que ultrapassa a mera gestão e entra no domínio do caráter: a necessidade compulsiva de humilhar alguém em privado e, publicamente, abraçá-lo como se nada tivesse acontecido. É o teatro do absurdo levado ao limite, onde o simulador tenta convencer o mundo de que é um homem de afetos e de causas, enquanto, na penumbra das decisões, orquestra a engenharia da exclusão com a frieza de quem nunca perdeu uma noite de sono. Este retrato não é ficção é um padrão que se repete, instituição após instituição, vítima após vítima, sempre com o mesmo guião e sempre com o mesmo protagonista a distribuir os papéis.

O método é sempre o mesmo e nunca muda porque não precisa de mudar tem funcionado. Começa pelo esvaziamento sistemático: retiram-se as responsabilidades sem explicação, bloqueiam-se as iniciativas sem justificação, anula-se a utilidade de quem, outrora, ocupava posições de relevo e confiança. A pessoa é colocada numa espécie de limbo institucional, presente, mas tornada invisível, existente, mas tratada como ausente. Quem passa por este processo reconhece-o com uma clareza dolorosa e quem já o viveu uma vez, ao ver outro a viver o mesmo, sabe identificar o padrão sem precisar de palavras. É sempre igual. É sempre o mesmo.

O que torna este padrão particularmente revelador é a sua consistência ao longo do tempo e das pessoas. Não se trata de um acidente de liderança nem de um conflito pontual entre personalidades, trata-se de um método deliberado e repetido, aplicado da mesma forma a pessoas diferentes, em momentos diferentes, com os mesmos resultados. Quem foi vítima no passado reconhece no presente o mesmo roteiro que viveu. Quem observa de fora vê, com a distância que clarifica, que o problema nunca esteve nas vítimas porque as vítimas são sempre diferentes entre si, mas a forma como foram tratadas é sempre idêntica. O denominador comum nunca é quem sofre. O denominador comum é sempre quem decide.

O líder que exerce o poder desta forma não suporta a sua própria inconsistência moral e, por isso, necessita compulsivamente da encenação da unidade. Volta ao terreno, caminha entre as pessoas, sorri para os presentes e posa para a posteridade ao lado daqueles que ele próprio afastou e ignorou. Não o faz por remorso genuíno nem por redenção fá-lo por uma estratégia calculada de gestão da imagem pública, consciente de que a opinião coletiva observa e que a narrativa precisa de ser controlada. O espetáculo da proximidade serve para apagar da memória coletiva o registo do afastamento. Mas a memória coletiva, ao contrário do que o simulador julga, não é tão curta quanto ele precisa que seja.

Há um detalhe que o povo sempre nota e que nenhuma coreografia consegue disfarçar completamente: a incongruência entre o gesto público e o historial conhecido. O abraço fotografado não apaga as conversas que aconteceram antes. A presença encenada não desfaz a ausência deliberada que a precedeu. As pessoas que rodeiam estas dinâmicas conhecem a diferença entre a liderança autêntica e o teatro do poder conhecem quem foi afastado sem razão declarada, conhecem os que entraram com vontade e saíram sem ela, conhecem os olhares de quem sabia e calou por medo de ser o próximo. A comunidade que observa tem memória. E a memória coletiva é o arquivo mais honesto que existe.

A vítima de hoje não é um caso isolado, é mais um capítulo de um livro que já tem muitas páginas escritas. E é precisamente esta continuidade que denuncia a natureza do padrão. Se apenas uma pessoa tivesse sido tratada desta forma, poder-se-ia invocar o acaso, a incompatibilidade ou o contexto. Mas quando o mesmo tratamento se repete sobre pessoas diferentes, com percursos diferentes, em momentos diferentes, a única leitura possível é a de um sistema. Um sistema que usa quem serve, descarta quem já não serve e depois, quando a imagem pública o exige, reaparece com o braço estendido como se nada tivesse acontecido. Quem já foi usado por este sistema reconhece-o ao primeiro sinal.

A encenação da reconciliação é, em si mesma, uma continuação do mesmo abuso. Usar a vítima passada como adereço do presente, fazê-la aparecer ao lado de quem a ignorou, como prova de uma generosidade que nunca existiu é uma segunda instrumentalização. A primeira foi o afastamento. A segunda é o regresso forçado pela necessidade da imagem. Em ambos os casos, a pessoa não é tratada como um ser humano com história e dignidade próprias, é tratada como um objeto que ora se guarda ora se exibe, consoante a conveniência de quem detém o poder de decidir. E esta é a marca mais profunda do simulador: a incapacidade estrutural de ver o outro como fim e não como meio.

A história das organizações e das instituições humanas está repleta deste padrão. Não é novo, não é raro e não é exclusivo de nenhum setor ou contexto geográfico. O que muda são os nomes e os cenários. O que permanece igual é o roteiro: o ciclo de aproximação, utilização, afastamento e reencenação da proximidade quando a imagem o exige. Quem conhece a literatura sobre dinâmicas de poder reconhece este ciclo com precisão. Quem o viveu na pele reconhece-o com uma precisão ainda maior. E quem o observa de fora, com os olhos abertos e a memória intacta, vê com clareza o que o palco tenta ocultar.

A verdade não precisa de permissão oficial para circular, ela viaja na percepção de quem observa o cinismo de quem hoje estende o braço para abraçar quem ontem tornou invisível. É possível controlar os sorrisos das fotografias e os apertos de mão coreografados, escolher o ângulo e a luz e o momento exato da encenação, mas não é possível apagar o que as pessoas que estiveram lá viram, ouviram e viveram. O passado não desaparece porque uma fotografia do presente sugere harmonia. E o povo, esse, sabe ler nas entrelinhas com uma competência que nenhuma gestão de imagem consegue subestimar impunemente.

Nomear este padrão com rigor não é um exercício de animosidade pessoal, é um exercício de responsabilidade coletiva. As organizações saudáveis constroem-se sobre a transparência, sobre a coerência entre o discurso e a prática e sobre o respeito consistente pela dignidade de quem as serve. Quando estes princípios são sistematicamente violados, sempre pelo mesmo método e sempre sobre pessoas diferentes, o silêncio coletivo torna-se cumplicidade. E a cumplicidade, com o tempo, tem um custo para as instituições, para as comunidades e, sobretudo, para quem, estando em posição de nomear o que vê, preferiu desviar o olhar. O padrão só se repete enquanto ninguém o nomear em voz alta.

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