O JOGO DO MATA-MATA NO PAICV E A GESTÃO POLÍTICA NO MpD
Ponto de Vista

O JOGO DO MATA-MATA NO PAICV E A GESTÃO POLÍTICA NO MpD

Uma luta fratricida tem assolado o PAICV, tornando-se particularmente visível quando as suas alas se digladiam e se confrontam para manter, conquistar ou ampliar o poder. Foi assim nas ocasiões em que se tentou eleger o líder parlamentar para substituir o líder demissionário e com mandato caducado, João Baptista Pereira, e voltou a sê-lo, agora, durante o X Congresso do Poder Autárquico em Cabo Verde, nas eleições dos órgãos sociais da Associação Nacional de Municípios de Cabo Verde (ANMCV), que se viu, indevidamente, atrelado às dinâmicas do processo eleitoral em curso no PAICV para escolha do líder.

Neste contexto, importa registar que, em 34 anos de poder autárquico e na sua primeira oportunidade de liderar esta importante instituição para o municipalismo cabo-verdiano, o PAICV teve o demérito de contaminar o processo eleitoral da ANMCV, marcado por golpes palacianos orquestrados pelos seus proeminentes dirigentes.

Neste ponto, a liderança de Rui Semedo, que está prestes a terminar, sai, obviamente, fragilizada, na medida em que ficou a ideia de que conduziu mal este processo e, talvez, não soube ser imparcial, favorecendo uma das partes. Por conseguinte, corre o risco de sair desacreditado, apesar da vitória do PAICV nas últimas eleições autárquicas, alcançada sob a sua liderança.

A divisão interna do PAICV, evidente nos recentes episódios de disputa de poder, é um facto público e notório e compromete a sua capacidade de se apresentar como uma alternativa de governo confiável aos olhos dos cabo-verdianos.

Ontem, as eleições para os órgãos da ANMCV acentuaram essa divisão e ficou a impressão de que o PAICV desaprendeu a lidar com o poder. Foi-lhe dada a vitória nas autárquicas e, com isso, os seus autarcas, organizados em alas, desentenderam-se e se engalfinharam na luta pelo domínio da ANMCV.

A situação política interna do PAICV é extremamente grave, com previsões de que se agravará após as eleições para a liderança. As tensões dentro do partido remontam a 2011, quando a decisão de José Maria Neves, então presidente do PAICV, de apoiar Manuel Inocêncio nas eleições presidenciais, em detrimento de Aristides Lima, gerou uma profunda divisão interna.A sucessão de José Maria Neves na liderança do PAICV foi apenas mais um capítulo numa história de sucessivas turbulências internas. Seguiram-se episódios como os que envolveram o Grupo de Reflexão de Felisberto Vieira e Júlio Correia, que prejudicaram a carreira do promissor José Sanches, e a controversa 'purga' durante as eleições legislativas de 2021. Estes eventos transformaram o PAICV num palco de conspirações, traições e intrigas, desorientando os militantes que escolheram as redes sociais como palco para os seus conflitos.

Como evidenciado pelos recentes acontecimentos, o PAICV tem enfrentado turbulências internas há algum tempo. O partido está actualmente concentrado nos seus conflitos internos, o que compromete a sua capacidade e disponibilidade de se dedicar aos assuntos de Estado e às necessidades dos cabo-verdianos.

Perante a fragilidade da oposição, o MpD encontra-se numa posição privilegiada para ganhar um terceiro mandato, mas esta oportunidade exige um sentido acrescido de responsabilidade. O partido não pode ceder ao comodismo ou à arrogância, mas sim reinventar-se, apresentar novas ideias e soluções, manter-se unido e próximo do povo, e neutralizar o populismo que se desenha no horizonte. A união pode ser o elemento diferenciador determinante para a escolha dos cabo-verdianos em 2026. Este elemento, com certeza, está relacionado com outro que é a confiança. Os cabo-verdianos tenderão a confiar mais no partido que se apresentar mais unido, menos envolto em confusões e traições, e cuja prioridade não sejam os processos internos, mas sim os desafios da nação cabo-verdiana.

Assim, ao líder do MpD cabe ser perspicaz na gestão de todos os processos políticos internos até às eleições legislativas de 2026, de forma a garantir ao MpD este bem maior que é a coesão interna, para que seja percepcionado como um partido unido, e rezar para que o jogo do mata-mata no PAICV continue. Para quem for o líder escolhido do PAICV, Francisco Carvalho ou Nuías Silva, o desafio é, de longe, maior e mais exigente. Terá de, num curto período de tempo, conseguir pacificar e unir o partido, o que não se afigura fácil, dada a acentuada divergência de posições entre as partes em confronto.

Apesar da sua posição vantajosa, o MpD não está imune a divisões internas. Existe sempre riscos de conflitos durante as eleições concelhias e a escolha dos candidatos, processos que exigem uma gestão transparente e inclusiva. A chave para o sucesso reside na capacidade de gerir a coesão interna e definir uma estratégia eficaz para a manutenção do partido, de modo a construir uma percepção pública positiva, baseada na confiança, honorabilidade, integridade e credibilidade.

Embora o MpD detenha uma vantagem clara neste momento, a política é intrinsecamente volátil, e uma reviravolta pode ocorrer a qualquer instante. Como diz o adágio popular, 'Até ao lavar dos cestos é vindima', nada está garantido.

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