
O desporto é uma poderosa ferramenta de coesão nacional, inclusão social, saúde pública e economia local. Mas só cumprirá esse papel quando deixar de ser um conjunto de momentos extraordinários e passar a ser um sistema previsível, justo e acessível. A nossa posição não é contra os avanços, é a favor de que eles cheguem a todos. Porque no final, o jogo só muda verdadeiramente quando todos entram em campo.
2025 ficará na história do desporto cabo-verdiano. A qualificação da nossa selecção nacional de futebol para o Campeonato do Mundo é um feito extraordinário, que orgulha o país inteiro. Esse sucesso pertence, acima de tudo, aos atletas, às equipas técnicas e a todos os que, ao longo de muitos anos, acreditaram que Cabo Verde pode sim, ir mais longe. Mais do que tudo, é o sucesso coletivo de todos os caboverdianos.
Mas o entusiamo do momento não pode substituir a reflexão séria. Celebrar é legítimo, Governar e Fiscalizar é obrigatório.
O Ministro do Desporto afirmou recentemente que “o sucesso do desporto cabo-verdiano não se pode medir apenas pelos resultados das selecções”. Concordamos. E é precisamente por concordar que consideramos essencial ir mais fundo no debate.
Se o sucesso não se mede apenas pelas selecções, então devemos perguntar como está organizado o desporto no dia a dia do país? Como vivem os clubes e as associações desportivas locais? Que condições têm treinadores, árbitros e os dirigentes que mantém o sistema a funcionar longe dos holofotes?
A verdade é simples: o desporto caboverdiano continua excessivamente dependente de picos mediáticos e, de vontade partidária. Quando há vitória, há discurso. Quando não há, sobra o silêncio. Esta lógica não constroi sistemas duradouros, constrói apenas momentos.
Há também uma contradição que precisa ser assumida com honestidade. Não se pode defender que o sucesso não se mede pelos resultados das selecções e, ao mesmo tempo, centrar quase toda a narrativa pública, simbólica e política no futebol (até nas feiras de turismo o destaque é a qualificação para o mundial) e na sua visibilidade internacional. O futebol é importante, ninguém o nega. Mas um país não se desenvolve desportivamente quando aposta quase tudo num único palco.
O discurso governamental aponta para uma mudança de paradigma. A UCID reconhece avanços institucionais e programas importantes, sobretudo ao nível do desporto escolar e da iniciação. Mas entende que essa mudança permanece excessivamente dependente de momentos mediáticos, particularmente do futebol e, ainda pouco enraizada no território, nas associações de base e nas modalidades menos visíveis.
Outra contradição insanável é o facto de apenas 0,5% de um orçamento de mais de 90 milhões de contos é direcionada ao Desporto. Tal alocação não corresponde a uma visão politica que valorize a importancia do desporto para a nação caboverdiana.
O verdadeiro desenvolvimento acontece quando o desporto chega a todas as ilhas, a todos os bairros e a todas as idades. Quando não depende apenas do voluntarismo. Quando cria rotinas, oportunidades e dignidade.
É por isso que defendemos que Cabo Verde precisa de dar um passo intermédio, realista e corajoso: a semi-profissionalização do desporto. Não falamos de um profissionalismo artificial, insustentável para a nossa economia. Falamos de contratos básicos, regras claras, exigência de competições regulares, formação certificada e prestação de contas. Falamos de reconhecer que o desporto não pode continuar a viver apenas da boa vontade de alguns.
Propomos ao longo da proxima legislatura, nos próximos 5 anos, o aumento faseado da rubrica dedicada ao Desporto para alcançar pelo menos 1% do orçamento geral do Estado.
O Estado não deve substituir o sector privado, mas também não pode demitir-se da sua responsabilidade. É o Estado que define o enquadramento legal, os incentivos fiscais e as prioridades estratégicas. Sem orientação política clara, o sector não se organiza sozinho.
O mesmo se aplica às infra-estruturas. Grandes centros de alto rendimento são importantes, mas não substituem uma rede funcional de infra-estruturas comunitárias, acessíveis, bem distribuídas e permanentemente utilizadas por todos os cidadãos independentemente do seu posicionamento politico. Menos obras-símbolo, mais espaços vivos. Menos centralização, mais equidade.
Quanto à diáspora, o elo emocional é valioso mas insuficiente. A diáspora deve ser integrada como parceira activa, através de mentoria, intercâmbio técnico e transferência de conhecimento. Não apenas para representar Cabo Verde, mas para ajudar a estruturar o setor.
O desporto é uma poderosa ferramenta de coesão nacional, inclusão social, saúde pública e economia local. Mas só cumprirá esse papel quando deixar de ser um conjunto de momentos extraordinários e passar a ser um sistema previsível, justo e acessível.
A nossa posição não é contra os avanços, é a favor de que eles cheguem a todos. Porque no final, o jogo só muda verdadeiramente quando todos entram em campo.
*Ministro do Governo-Sombra para o Desporto - UCID
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