
Este não é apenas mais um artigo listando boas ideias que morrerão em gavetas ministeriais. Este é um manifesto de urgência nacional. Cada dia que passa sem implementar estas estratégias é dia de oportunidades perdidas, de jovens embarcando em pateras, de famílias destruídas pela migração forçada, de potencial desperdiçado. O Plano Diretor do Turismo pode continuar acumulando pó, mas o povo cabo-verdiano não pode esperar mais. Precisamos de ação imediata, de vontade política real, de investimento estratégico e de visão que coloque pessoas no centro do desenvolvimento turístico independentemente da governação de cor amarela ou verde! Cabo Verde não precisa inventar roda, apenas precisa olhar para exemplos bem-sucedidos de países insulares que transformaram recursos naturais e culturais em prosperidade compartilhada. A pergunta que fica é: vamos continuar sonhando com o país que poderíamos ser, ou vamos finalmente construir o país que merecemos?
Um apelo à transformação de um arquipélago abençoado por belezas naturais incomparáveis, por um momento um Cabo Verde onde cada ilha não seja apenas um destino, mas uma experiência viva e pulsante. Onde Santiago não se resuma a um ponto de passagem, mas se transforme numa marca que cabe literalmente numa bolsa, levando o sabor de doces de coco artesanais, rebuçados tradicionais e produtos únicos que contam histórias. Não estamos falando de souvenirs genéricos produzidos em massa na China. Estamos falando de autenticidade embalada, de identidade municipal transformada em produto turístico de alto valor agregado. “Santiago numa Bolsa” não é apenas um slogan criativo, é uma revolução conceitual que transforma cada município numa marca própria, cada produto local numa embaixada cultural.
A verdade inconveniente é que Cabo Verde está sentado sobre uma mina de ouro verde chamada aloé vera e purgueira, plantas que crescem abundantemente nas nossas terras áridas e que o mundo inteiro procura desesperadamente para a indústria cosmética e farmacêutica. Enquanto outros países africanos faturam milhões com a exportação de produtos derivados destas plantas, nós deixamos que sequem ao sol sem propósito. A criação de pequenas fábricas locais produzindo sabão, óleo, gel, pílulas e velas de aloé vera e purgueira não é utopia, é economia básica. É empoderamento feminino tangível, é geração de emprego para jovens que atualmente só veem futuro atravessando o Atlântico em condições desumanas. Cada fábrica instalada é uma pateira que não parte, cada emprego criado é uma família que permanece unida.
E o que dizer da nossa produção agrícola sazonal que apodrece nos campos por falta de infraestrutura de processamento? Toneladas de manga, banana, tomate, cebola e repolho que poderiam ser transformadas em doces gourmet, conservas premium, compotas artesanais e salgadinhos de exportação simplesmente se perdem. Não por falta de matéria-prima, mas por ausência criminosa de visão estratégica. Outros países insulares como Maurícias e Seychelles construíram impérios econômicos baseados exatamente nesta transformação, criando marcas nacionais de produtos processados que são vendidos em supermercados europeus a preços premium. Por que Cabo Verde não pode fazer o mesmo?
A nossa costa é um dos segredos mais bem guardados do Atlântico para a pesca desportiva e turística. Águas ricas em marlim, atum e wahoo atraem pescadores dispostos a pagar fortunas por experiências autênticas. Mas onde estão as infraestruturas? Onde estão os programas de pesca turística profissionalmente estruturados? Onde está a visão que conecta conservação ambiental com desenvolvimento econômico sustentável? O turismo de pesca desportiva movimenta bilhões globalmente, e Cabo Verde, com uma das ZEE mais vastas da África Ocidental, deveria estar na vanguarda deste segmento. Enquanto isso, o peixe que os nossos pescadores capturam poderia ser defumado, embalado a vácuo e vendido como iguaria premium em mercados internacionais, criando valor agregado e emprego local. Mas não, preferimos vender fresco a preços irrisórios e desperdiçar uma oportunidade de ouro.
As nossas cidades e municípios carecem desesperadamente de identidade visual forte. Bandeiras municipais distintivas, esculturas emblemáticas, monumentos que contem histórias e criem marcos fotográficos instagramáveis não são frivolidades estéticas, são ferramentas poderosas de marketing territorial. Quando um turista posta uma foto em frente a um monumento icónico de Tarrafal ou São Miguel, Santa Cruz, Praia, está fazendo publicidade gratuita global. Cada escultura, cada símbolo municipal bem posicionado é um outdoor permanente que trabalha 24 horas por dia na promoção do destino. Mas para isso acontecer, é preciso que alguém no governo que seja A ou B entenda que branding territorial não é luxo, é necessidade económica.
A melhoria das vias de acesso às zonas turísticas não é despesa, é investimento com retorno garantido e imediato. Cada quilómetro de estrada pavimentada é uma porta aberta para o fluxo turístico, cada ponte construída é uma conexão direta com desenvolvimento económico.
A cultura cabo-verdiana é um produto turístico subutilizado de forma escandalosa. O batuque, expressão cultural única e poderosa, deveria estar no centro de experiências turísticas estruturadas, tal como acontece na Ilha do Sal. Grupos de recriação cultural profissionalmente treinados, apresentando-se em terreiros do litoral em horários programados, criando espetáculos imersivos que conectem turistas com a alma cabo-verdiana, não existem na maioria das ilhas. Enquanto isso, a dança contemporânea criada por jovens talentos locais e a música ao vivo voltada para tradições cabo-verdianas ficam confinadas a eventos esporádicos em vez de serem integradas permanentemente na oferta hoteleira e de restauração. Outros destinos insulares perceberam há décadas que cultura é commodity de altíssimo valor no mercado turístico. Cabo Verde continua tratando o seu património imaterial como hobby de fim-de-semana.
O turismo sustentável e o ecoturismo não são modismos passageiros, são o futuro inevitável da indústria. Casas turísticas sustentáveis criadas através da reabilitação de habitações desabitadas representam uma oportunidade tripla: preservação arquitetónica, desenvolvimento económico local e resposta à crescente demanda global por experiências autênticas e ecológicas. Turistas contemporâneos, especialmente europeus, pagam premium por estadias que minimizem impacto ambiental e maximizem autenticidade cultural. Restaurantes servindo comida orgânica produzida localmente, alojamentos que funcionam com energia solar, experiências que conectam visitantes com comunidades locais de forma respeitosa - tudo isso já existe em Cabo Verde de forma embrionária, mas precisa desesperadamente de escala, profissionalização e promoção coordenada.
Postais ilustrados com as paisagens mais deslumbrantes de cada ilha parecem detalhe insignificante, mas são instrumentos poderosos de memória afetiva e propaganda viral. Um turista que compra um postal bonito e o envia para casa está literalmente pagando para fazer marketing do destino. A ausência de postais de qualidade nos pontos de atendimento turístico é sintoma de uma doença maior: a incapacidade de pensar nos detalhes que criam experiências memoráveis.
A formação de jovens na produção de bijuteria, joalharia, cerâmica e arte com conchas e búzios voltadas para tradições cabo-verdianas não é apenas preservação cultural, é criação de indústria criativa exportável. Cada peça artesanal única produzida localmente e vendida em centros turísticos é produto de alto valor agregado que não pode ser replicado em fábricas chinesas. É autenticidade certificada, é história tangível, é economia criativa que gera renda e preserva identidade simultaneamente. Mas para isso funcionar em escala, precisamos de centros de formação profissional, de certificação de autenticidade, de pontos de venda estrategicamente posicionados e de marketing que conte as histórias por trás de cada peça.
Feiras alimentícias, culturais e artesanais regulares não são apenas eventos festivos, são incubadoras económicas que aumentam renda familiar, criam atrativos turísticos recorrentes e fortalecem tecido social comunitário. Transformar feiras esporádicas em calendário anual estruturado, com datas fixas amplamente divulgadas internacionalmente, é transformar evento em produto turístico consolidado. Turistas planejam viagens meses antes e buscam ativamente experiências culturais autênticas se souberem quando e onde acontecem.
Museus municipais recolhendo e expondo peças antigas que representam a cultura local não são luxo cultural, são âncoras de identidade e atrativos turísticos de primeira linha. Cada objeto exposto é aula de história viva, cada sala museológica é portal temporal que enriquece experiência turística e educa novas gerações. A Casa de Arte dedicada à divulgação de obras naturais e estímulo à apresentação artística de comunidades africanas e europeias é ponte intercultural que posiciona Cabo Verde como hub criativo atlântico, não apenas destino de sol e praia.
O apoio a empreendedores na abertura de cozinhas especializadas em gastronomia africana, latina, asiática e europeia pode parecer contraditório num texto que defende tradições locais, mas é estratégia inteligente de diversificação da oferta gastronómica que atrai segmentos turísticos variados e enriquece experiência culinária local. Turistas querem autenticidade local, mas residentes e visitantes de longa duração apreciam variedade. Cidades cosmopolitas são aquelas que celebram diversidade sem perder identidade.
Marketing turístico local focado na satisfação de visitantes não é despesa promocional, é estratégia de expansão internacional baseada no marketing boca-a-boca mais poderoso que existe: a recomendação entusiástica de quem viveu experiência memorável. Cada turista satisfeito é embaixador não remunerado que promove destino em redes sociais, em conversas familiares, em comunidades online. A era digital democratizou promoção turística - um vídeo viral bem produzido tem potencial de alcançar milhões a custo zero. Mas para isso acontecer, precisamos criar experiências dignas de serem compartilhadas, não apenas paisagens bonitas fotografadas por turistas decepcionados com infraestrutura precária e serviços medíocres.
A base de dados atualizada sobre oferta turística, mantida em colaboração com operadores e autoridades competentes, deveria ser espinha dorsal de qualquer estratégia turística séria. Sem dados confiáveis e atualizados, planejamento é adivinhação, investimento é aposta cega e promoção é tiro no escuro. Países que levam turismo a sério investem pesadamente em sistemas de informação que permitem decisões baseadas em evidências, não em achismos políticos.
Este não é apenas mais um artigo listando boas ideias que morrerão em gavetas ministeriais. Este é um manifesto de urgência nacional. Cada dia que passa sem implementar estas estratégias é dia de oportunidades perdidas, de jovens embarcando em pateras, de famílias destruídas pela migração forçada, de potencial desperdiçado. O Plano Diretor do Turismo pode continuar acumulando pó, mas o povo cabo-verdiano não pode esperar mais. Precisamos de ação imediata, de vontade política real, de investimento estratégico e de visão que coloque pessoas no centro do desenvolvimento turístico independentemente da governação de cor amarela ou verde!
Cabo Verde não precisa inventar roda, apenas precisa olhar para exemplos bem-sucedidos de países insulares que transformaram recursos naturais e culturais em prosperidade compartilhada. A pergunta que fica é: vamos continuar sonhando com o país que poderíamos ser, ou vamos finalmente construir o país que merecemos?
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