A política da castração intelectual. Como os partidos fabricam obediência, punem a verdade e tentam eliminar consciências
Ponto de Vista

A política da castração intelectual. Como os partidos fabricam obediência, punem a verdade e tentam eliminar consciências

O futuro não nasce da obediência. Nasce da coragem. Os partidos terão de aprender a coexistir com quem pensa sem medo, quem fala sem pedir autorização, quem sabe que a política é transitória, mas a verdade não. Essas pessoas não são ameaça à democracia interna! São a sua última reserva de dignidade. No fim, a história não perguntará quem obedeceu melhor. Perguntará quem teve coragem de dizer a verdade quando cada verdade custava uma sanção. E essa pergunta, cedo ou tarde, chega sempre.

Em Cabo Verde, a política não se limita a organizar o poder: disciplinariza consciências. A filiação partidária, longe de significar participação crítica num projeto coletivo, converteu-se num mecanismo informal, mas altamente eficaz, de castração intelectual. Entra-se para obedecer. Pensar é tolerado apenas enquanto coincide com a vontade da liderança. No instante em que o pensamento se autonomiza e sobretudo quando se transforma em verdade dita em voz alta aciona-se o processo de punição política. Não se trata de excessos isolados.

Trata-se de um sistema estrutural, normalizado e transversal. A filiação como renúncia prévia ao pensamento próprio. A entrada num partido político em Cabo Verde pressupõe uma condição não escrita, mas rigidamente aplicada: abdicar da autonomia intelectual.

O militante ideal não é aquele que reflete, questiona ou propõe. É aquele que, repete com convicção o que não pensou, defende com fervor o que não decidiu, justifica com lealdade o que não compreende.

A lucidez não é capital político. A docilidade é. Neste contexto, o pensamento crítico deixa de ser virtude democrática e passa a ser interpretado como insubordinação moral. Mas o verdadeiro ponto de rutura não é apenas pensar diferente, é dizer a verdade.

Dizer a verdade como infração política

Em Cabo Verde, não é o pensamento em silêncio que incomoda. É a verdade enunciada. O sistema político tolera, com algum desconforto, quem pensa diferente, mas se cala. O problema começa quando alguém transforma pensamento em palavra pública, quando expõe incoerências, revela falhas, desmonta narrativas ou nomeia aquilo que todos veem, mas fingem não ver.

A verdade tem um estatuto perigoso: ela não pode ser rotulada como opinião. Ela não pode ser neutralizada como ambição. Ela não pode ser facilmente combatida. Por isso, quem diz a verdade é rapidamente odiado, punido e afastado.

Aqui instala-se a regra não escrita mais cruel da política partidária cabo-verdiana: para cada verdade exposta, prepara-te para uma sanção.

O regime das sanções invisíveis: cada verdade tem um preço. Não há julgamentos formais. Não há decisões escritas. Não há contraditório. Há um regime disciplinar informal, onde cada verdade dita produz uma consequência calculada.

O percurso é previsível: primeiro, o desconforto; depois, o afastamento; a seguir, o rótulo; por fim, a eliminação simbólica. Quem insiste em dizer a verdade é submetido, simultaneamente, a pena política informal, condenação simbólica interna, morte cívica partidária, excomunhão política laica. Nada disto é assumido. Tudo é executado no silêncio, na insinuação e na omissão. O objetivo não é corrigir o “excesso de franqueza”. É ensinar pelo exemplo: mostrar aos outros o preço de falar. A lógica utilitária: enquanto serves, existes; quando falas a verdade, és descartável!

Na prática partidária cabo-verdiana, o militante não é reconhecido como pessoa política. É tratado como recurso funcional. Enquanto mobiliza, defende decisões alheias, repete versões oficiais, é protegido. Quando diz o que está errado, expõe incoerências, recusa mentir para preservar aparências, transforma-se em ameaça interna. E ameaças não se enfrentam com argumentos. São isoladas, desacreditadas e descartadas.

Este padrão repete-se tanto no MPD como no PAICV, porque não decorre da ideologia. É expressão de uma cultura política transversal, assente no medo da verdade. A condição real para fazer política em Cabo Verde. Há uma regra implícita que todos conhecem, mas poucos ousam verbalizar - para sobreviver politicamente em Cabo Verde é preciso ser emocionalmente blindado e economicamente independente.

Quem depende de cargos, nomeações, favores ou proteção partidária não pode dizer a verdade. A precariedade económica converte-se em instrumento de silêncio. A fragilidade emocional torna-se mecanismo de submissão. A política deixa de ser espaço de cidadania ativa e transforma-se num campo de sobrevivência psicológica e material, onde a verdade é vista como imprudência.

O rebanho político e o ódio à verdade

A política interna passa a funcionar como eco. Um líder fala. Um militante repete. Outro amplifica. E ai de quem interrompa o coro com a verdade. Esse militante não é enfrentado no plano das ideias. É rotulado de desestabilizador, ingrato, ambicioso, infiltrado.

Nunca é reconhecido como alguém que fala a verdade. Porque admitir isso significaria reconhecer que o problema não é ele, é o sistema.

Sistemas não são eternos e nem percebem isso: terão de lidar com quem não teme

Pode punir, silenciar, afastar mas não consegue eliminar indefinidamente aqueles que não têm medo de dizer a verdade. Há militantes que sabem que MPD e PAICV pertencem ao povo, não a direções ocasionais nem a pequenos círculos de poder. Pessoas que compreendem que líderes passam, mas a história fica. Essas pessoas obrigam o sistema a readaptar-se, mesmo contra a sua vontade.

A nostalgia necessária e a mudança inevitável

Há uma nostalgia legítima na política cabo-verdiana: a de um tempo em que a verdade doía, mas não condenava; em que discordar não equivalia a sentença; em que a política ainda se permitia algum grau de honestidade interna.

Essa nostalgia não é romantização do passado. É crítica do presente.

Hoje sabe-se: as lideranças mudam. E mudam porque a verdade resistiu, acumulou-se e acabou por romper o silêncio imposto. Não há renovação sem verdade. Não há mudança sem quem aceite pagar o preço de falar.

Dizer a verdade é o último ato político livre. O futuro não nasce da obediência. Nasce da coragem. Os partidos terão de aprender a coexistir com quem pensa sem medo, quem fala sem pedir autorização, quem sabe que a política é transitória, mas a verdade não.

Essas pessoas não são ameaça à democracia interna! São a sua última reserva de dignidade. No fim, a história não perguntará quem obedeceu melhor. Perguntará quem teve coragem de dizer a verdade quando cada verdade custava uma sanção. E essa pergunta, cedo ou tarde, chega sempre.

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