
O tempo ainda joga. Há tempo - curto, convenhamos - para corrigir rumos, afinar discursos, reconstruir pontes e apresentar uma alternativa sólida. Mas o relógio não perdoa indefinições prolongadas. Se FC não elevar rapidamente o nível, Maio poderá não ser o castigo do Governo, mas antes o retrato de uma oportunidade desperdiçada. Efectivamente, as eleições não se ganham apenas com a fraqueza do adversário. Ganham-se, sobretudo, com visão, unidade e capacidade de convencer um país inteiro — não apenas uma parte dele.
Faltam cerca de quatro meses para as eleições legislativas de 17 de Maio e é não só legítimo como necessário antecipar cenários. O país entra neste ciclo eleitoral com um sentimento difuso de adiamento: um governo em ralentim, que foi empurrando com a magra barriga um Cabo Verde suspenso, e uma oposição alienada.
A governação revelou, sem dúvida, falta de arrojo, incapacidade de resposta estrutural a problemas antigos e uma gestão muitas vezes reativa. Ainda assim, a pergunta central impõe-se: e a alternativa?
Segundo uma recente pesquisa de opinião da Afrosondagem, o PAICV não venceria as eleições deste ano. Pode-se duvidar, como é normal, mas seria irresponsável ignorá-la. As sondagens não são oráculos, mas são sinais. E este sinal é preocupante para um partido na oposição que, em teoria, julga e até vibra ter estas eleições nas mãos.
Embora apresente uma taxa de rejeição de Ulisses Correia e Silva de mais de 30 %, em comparação com Francisco que tem 11% de má aceitação, a pesquisa desafia a credibilidade do presidente do PAICV ante um governo de tutano pobre, mas que vem mostrando face nova, se bem que quase caindo na mesmice.
Mas o problema do PAICV não é apenas externo; é, sobretudo, interno. A dificuldade em “arrumar a casa” tem sido evidente. A luta de egos, as divisões latentes e a incapacidade de construir uma liderança verdadeiramente agregadora fragilizam o partido enquanto alternativa credível de poder. Se, no plano doméstico, Francisco Carvalho ainda não conseguiu pacificar e disciplinar o partido, é legítimo questionar como o faria à escala nacional, caso vença as eleições. Ou pior, o que fará depois.
Pois bem, o maior adversário do PAICV não é o MpD, mas o próprio PAICV. E isso é tanto mais grave quanto se assiste a uma melhoria visível da imagem pública do Executivo, que as sondagens, bem ou mal, dizem.
Ulisses Correia e Silva começou a mexer nos rostos do Governo, introduzindo ajustes que, segundo as sondagens, correspondem à perceção que os cabo-verdianos têm do elenco governativo e do seu desempenho. Não se sabe se isso será suficiente para o levar às cavalitas até Maio, mas é inegável que a oposição não soube ler este movimento.
A oposição, ou seja o PAICV, tem sido, em larga medida, narcisista, autocentrada e desconectada do pulsar real do país. Em vez de se concentrar numa proposta clara, inclusiva e mobilizadora, perdeu-se em querelas internas, retórica agressiva e numa estratégia de confronto que nem sempre encontra eco na sociedade.
Francamente, este governo liderado por UCS merecia melhor oposição.
Com tantos casos de suspeitas de corrupção a envolver o poder, seria expectável que o PAICV capitalizasse politicamente essa fragilidade. Contudo, é o próprio líder do maior partido da oposição que se põe a jeito, acabando por se vitimizar. E sejamos claros: Francisco Carvalho é, sim, vítima de uma justiça vil. Mas, do ponto de vista político e retórico, tem revelado imaturidade. Aniquila adversários, mas não aglutina internamente. E isso é fatal em política.
A sua postura anti-elitista pode render votos nas classes menos favorecidas, mas exclui a classe média, a classe média alta e sectores da elite que também fazem parte do país e da democracia. Um líder político governa - ou deve governar - para todos. Aliás, foi esse o seu lema na campanha autárquica: “Praia para Todos”.
A coerência entre discurso e prática é uma exigência mínima.
O tempo ainda joga. Há tempo - curto, convenhamos - para corrigir rumos, afinar discursos, reconstruir pontes e apresentar uma alternativa sólida. Mas o relógio não perdoa indefinições prolongadas. Se FC não elevar rapidamente o nível, Maio poderá não ser o castigo do Governo, mas antes o retrato de uma oportunidade desperdiçada.
Efectivamente, as eleições não se ganham apenas com a fraqueza do adversário. Ganham-se, sobretudo, com visão, unidade e capacidade de convencer um país inteiro — não apenas uma parte dele.
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