Afrosondagem: Uma sondagem e algumas interrogações
Política

Afrosondagem: Uma sondagem e algumas interrogações

Divulgada ontem, uma sondagem promovida pela Afrosondagem indica uma vantagem do MpD nas intenções de voto para as eleições legislativas deste ano. No entanto, os resultados indicados pela empresa, bem como algumas omissões, levantam várias interrogações que carecem de respostas claras e objetivas. Nomeadamente, o que terá mudado em apenas um ano e, já agora, como se justifica (à luz da ciência) o surpreendente resultado do MpD na ilha do Fogo, anunciado numa nota de imprensa da empresa de sondagens?

A Afrosondagem divulgou esta sexta-feira, 16, os resultados de uma sondagem nacional que indicam uma vantagem do Movimento para a Democracia (MpD) nas eleições legislativas, se tivessem ocorrido no final de 2025, já que o trabalho de campo foi efetuado entre 26 e 30 de dezembro.

Na nota de imprensa, não assinada e sem o timbre da Afrosondagem, é avançado que foram entrevistados, presencialmente, 3.526 cidadãos eleitores de uma faixa etária igual ou superior a 18 anos, abordados à porta de suas casas.

Ainda segundo a referida nota, trata-se de uma “amostra probabilística e representatividade a nível dos círculos eleitorais” sendo que “o nível de confiança é de 95 por cento (%) e o erro amostral máximo a nível nacional é de ±2,0%”.

Notoriedade dos líderes

No que respeita à notoriedade dos líderes, a sondagem revela “um nível muito elevado” para Ulisses Correia e Silva (MpD), “que atinge valores próximos da universalidade em quase todos os círculos, situando-se entre 95% e 100%”, o que, ainda segundo a empresa de sondagens e estudos de opinião, resulta da sua “forte exposição pública”.

Ainda segundo a nota de imprensa, o líder do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV), Francisco Carvalho, apresenta, igualmente, “notoriedade elevada, embora inferior à do líder do MpD”, com valores rondando maioritariamente “acima de 80%”, com destaque especial em Santiago Sul e Santiago Norte, expondo uma visibilidade “consistente” e dispondo de “uma margem de crescimento” em vários círculos eleitorais.

No que se refere ao líder da União Cabo-verdiana Independente e Democrática (UCID), João santos Luís, este apresenta “níveis de notoriedade significativamente mais reduzidos, variando entre 30 e 75%, por razão de uma presença pública “mais limitada e desigual” nos diferentes círculos eleitorais.

Predisposição para o voto

Continuando a leitura da nota de imprensa, a Afrosondagem revela uma “elevada predisposição” dos eleitores para votarem nas legislativas, com um significativo número de 72% a posicionarem-se nesse sentido. No entanto, 19% “dizem que não pretendem participar” e 9% “não sabem ou preferem não responder” ao inquérito.

Na frente, em termos de intenções de voto, surge o MpD, que “venceria com um score de 31%” dos votos expressos. E o PAICV aparece em segundo lugar, com 25% e, logo a seguir, a UCID que não iria além dos 4% dos votos contados nas urnas.

Uma leitura territorial dos dados da sondagem, revela “diferenças relevantes entre os círculos”, surgindo o MpD a liderar no círculo eleitoral do Fogo, com 52%, e do Sal, com 43%. Já nos restantes círculos eleitorais, o partido ventoinha varia entre 24 e 31% a sua votação.

Boa Vista, Santiago Sul e Santiago Norte, com, respetivamente, 37, 32 e 29 % das intenções de voto, dão ao PAICV um “melhor desempenho”, vencendo nestes círculos eleitorais.

Já a UCID, embora assinalando “presença mais expressiva” em São Vicente, “mantém valores residuais”, entre 1 e 6%, nos restantes círculos eleitorais.

Ainda segundo a nota de imprensa da Afrosondagem, pese a vantagem do MpD, “o peso dos indecisos e dos eleitores não alinhados permanece elevado”, indicando “um cenário em aberto e sujeito a mudanças” ao longo de todo o período de pré-campanha e da campanha eleitoral.

Intenções de voto círculo a círculo

Uma leitura territorial dos dados da sondagem expõe “diferenças relevantes”, mas também surpreendentes, entre os círculos eleitorais do arquipélago.

Com o MpD a liderar na maioria dos círculos, destacam-se, por maioria mais expressiva, o Fogo, com 52%, e o Sal, com 43%. Já nos restantes círculos eleitorais, o atual partido do Governo regista valores entre os 24 e os 31%, “demonstrando presença consistente, ainda que com variações regionais”, segundo a Afrosondagem.

Embora apresentando um melhor desempenho na Boa Vista (37%), em Santiago Sul (32%) e em Santiago Norte (29%), nos restantes círculos eleitorais, o PAICV fixa a sua votação em 25% e, nalguns deles, abaixo desse percentual.

Mas, ainda segundo a nota de imprensa, “chama a atenção o peso dos eleitores que dizem não votariam em partido algum e os indecisos”, chegando a superar os 40% nos círculos do Maio e de São Nicolau.

Já a UCID mantém “valores residuais” na maioria dos círculos eleitorais, entre 1 e 6%, e resultados mais significativos em São Vicente.

Algumas interrogações

No entanto, os resultados avançados pela Afrosondagem levantam algumas interrogações, porquanto foram tornados públicos através de uma nota de imprensa sem o logótipo da empresa ou assinatura do respetivo responsável. Mas, também, por não haver qualquer referência identificativa da entidade que financiou a sondagem, um imperativo legal omisso na nota de imprensa.

Efetivamente, a Lei n.º 19/VIII/2012, de 13 de setembro, que regulamenta o Regime Jurídico das Sondagens e Inquéritos de Opinião, determina que a divulgação pública de sondagens está condicionada pela publicação obrigatória de vários elementos, entre eles, a identificação da entidade que encomenda e financia o estudo, para além da ficha técnica, também omissa na informação emitida pela Afrosondagem.

E este imperativo legal não pode ser entendido de somenos importância, para além de fazer todo o sentido. E não se trata de um imperativo facultativo, porquanto resulta dos princípios fundamentais da transparência da informação e do direito público de se conhecer a identificação de quem promove e/ou paga estudos com elevada possibilidade em influenciar a opinião pública, para mais em períodos eleitorais, evitando a instrumentalização política das sondagens, sob a capa tecnicista da neutralidade.

Ora, a Afrosondagem deveria esclarecer as omissões, sob pena de pairarem sobre os resultados da sondagem fundadas suspeições de intransparência, já que ao público, um universo de potenciais eleitores, é vedado o direito de saber espetos tão importantes como quem pagou, fazer a avaliação de eventuais conflitos de interesse e/ou os níveis de independência do estudo, bem como a metodologia que determinou a introdução dos dados produzidos no relatório final da sondagem.

O que terá mudado? Se é que mudou alguma coisa

Outro aspeto omisso da informação divulgada pela Afrosondagem tem a ver com a identificação dos fatores que terão levado, a fazer fé nos números avançados, a uma tão surpreendente mudança do cenário político, de tal modo que, se as eleições se tivessem realizado no final de dezembro, esse resultado contrariaria radicalmente estudos anteriores produzidos pela mesma empresa e, de igual modo, por observação objetiva da evolução da vida política cabo-verdiana nos últimos anos.

A título de exemplo, tomemos como referência o município da Praia, onde, de 2012 a 2024, o MpD passou de 27.483 votos para 14.140, uma perda de influência inequívoca, para mais confirmada pelos resultados nacionais, já que no mesmo período perde 50.569 votos. E isto – sublinhe-se – em apenas oito anos.

Inversamente, mesmo sem ter realizado uma oposição coerente e sistematizada, o PAICV conseguiu capitalizar o descontentamento com as governações locais e nacional, o que se vem traduzindo em resultados favoráveis ascendentes nesse mesmo período de oito anos.

Aliás, o Afrobarometer (um estudo promovido pela Afrosondagem), dava em 2024 a vitória ao PAICV caso as eleições tivessem sido nessa ocasião, e dando a entender a descensão evolutiva do MpD na data de realização da ida às urnas deste ano.

A interrogação que se coloca é esta: o que terá mudado em apenas um ano? E, já gora, como se justifica, a serem confirmados os resultados avançados na sondagem da Afrosondagem, o surpreendente resultado do MpD no círculo eleitoral do Fogo? Ou, para terminar, por qual razão se omite um dado fundamental em qualquer sondagem: quais os níveis de rejeição dos líderes partidários?

Foto: DR

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