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Por: José Luiz Tavares

                     

Jose Luis Tavares

 

TXONBON

 

                                                               1.

Nasceste para nascer, filho das montanhas altaneiras e dos vales profundos (ó rubon grandi de todos os medos e todas as promessas), para me dares o ser e a sabedoria, sentado entre aqueles que consagraram a alma ao pronunciar do nome e a desenhar na poeira o que foi sonho de perenidade - um alto delírio de criança.

Não me pedes palavra nem pão, mas dou-te a água simples duma mão, fincado na secura que humildemente me desembarca nas tuas ruas, onde os nomes familiares brotam numa rememoração dolente: kunpi, maró, lilalu, teteia, furná, olina, pedro, ti djon, brentxa, ina, fifi, nhima, kaká, juditi, putxuka, jirmina, totinha, ngrásia, bandoti, pazinhu, txota, e essoutros, tantos, que não nomeio, mas evoco aqui à beira dos campos secos, para que o coração não se esqueça quantas as levadas que dessedentam, quais os néctares que embriagam, os cântaros que nunca secam e os aromas que não enganam.

Compreendo que me peçam os matizes dos horizontes largos, o tumulto das caravanas na sua febre do longe, mas que sei eu senão os passos que se perdem sobre a areia, o cieiro que sepulta casas e colinas, semeia a solidão pelos campos salitrados da beira-mar?

Eis o tempo dos náufragos. Se dilecto filho foste, homem perdido te tornaste. Mas promete: não pedirás perdão por te entregares à vida das palavras, nem falarás aos homens do poder do desespero. Se se espantam porque choras na hora da partida, é porque, sendo eles deste comum mundo natural, nem cuidam de saber que os teus pés precisam da potência da terra para testemunharem o poder da perseverança no avesso do paraíso.

Mas sabes tu, como eles, como terminam as vidas aqui às portas da promissão; e embora chegues no tempo do alarido, estás sozinho entre esses homens da comum ascendência. Eles que sabem pelas sombras nos terraços e pelo piar das corujas que a hora é de cerrar as portas e janelas e recitar o nome que traz toda a potência do infinito.

E uma pergunta, esta, roda perpétua na tua cabeça, como castigo da ousadia: quando te perdeste na lucidez que não liberta, mas lança-te à funda inquietação, mãe de todos os pavores?

Entendes agora como tudo é pouco para o grande enigma da vida, para a paciente escuta do absoluto, ou o percutir das perguntas que recrudescem o teu desespero de jamais aportares à praia da salvação, ao limiar dessa alegria que procuras aos tropeções pelos dias de nunca mais.

Pelas sendas obscurecidas, inocente, encontrarás a morada dos avós, as duas cruzes de madeira tosca já devoradas pelo tempo e pelo cieiro. Mas não chorarás porque nunca os deixaste ou esqueceste. Sempre entraste pela porta grande cruzando o batente ao som de da-m benson, à poalha peregrina dos serenos fins de dia. Por isso não entristeces, pois voltas ao lugar onde tudo recomeça: pó ao pó, pronuncias, e encaminhas-te, como só tu podes, direcção do persistente azul onde recordas mais uma vez o infante que foste, com a bilha ou o feno à cabeça, o fio e o crucifixo sobre o peito, o vento largo conduzindo-te desde o patamar da memória ao limiar da casa antiga.

Na solidão da noite ajoelhas aguardando a mão consoladora da escuridão. É outubro e hás-de subir sem tropeços os degraus da porta, em nome dos que partiram, inchallah.

                                                            2.

Regressas (ou apenas chegas?) e páras à porta da casa derruída, na rua ampla de ventos, na embocadura do mar, e sabes que estás vivo porque no último instante os faróis varreram a escuridão e uma mão te arrebatou para a berma da estrada, para a borda do precipício, o terreiro da salvação.

Estamos em novembro e evocas os mortos para exaltares a vida.

O ar está molhado como a tinta sobre o papel em que escreves. O dia ainda não tem sombras nem reflexos. Apenas o teu vulto se estende entre a vereda de ontem e a estrada de amanhã. Mas não penses que o passado te ensina: o passado nada sabe, e o futuro não pode ser pronunciado nesta rua de ventos desabridos, chão desta comum certeza: de cada vez que chegas, sabes que não existe terra prometida. Que a aventura das palavras governa a tua vida. Que elas te aproximam e afastam do calafrio das coisas concretas, do sopro que retiveste, ou dos atributos que vives para contar em vigília vertiginosa, sem mapa ou guia, porquanto todos os teus caminhos, ó precário peregrino demandando a pátria soletrada à vista do harmatão, são sendas para o infinito encontro ou a infinita perdição.

E porque amanhã é outro dia, as velhas casuarinas douram-se dos matizes duma outra vida, essa que perdura para além do elo que conduz ao naufrágio profetizado no obscuro panteão dos deuses desconhecidos.

                                                               3.

Faz-se a noite ainda mais noite e nenhuma outra porta te aguarda no sopé da escuridão. Não te queixas do frio, da sua setentrional ferocidade, porque um poço te espera aqui para te banhares da planta ao cocuruto; para que os olhos, agora habituados ao fulgor da geada e da neve, voltem a mergulhar nessa poeira que, a cada tarde, a mão do harmatão semeia como uma rude promessa, para que nunca o teu corpo se esqueça das mil agulhas que são a cama de quem fica.

Fizeste-te homem de palavras, mas esqueceste o rumor da oração nos pátios fuscos do entardecer. Ensina-me tu, ó inderrotado, a dizer outra vez o nome, para que, afogado entre rogos, penetre de novo nesta pobre morada de eleitos.

                                              

Comentários  

0 # Místico Ádvena 08-06-2020 02:30
É Alberto Lopes. Estou mais habituado a trocar conversas com Sócrates de Santiago. Desculpe, Alberto Lopes!
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0 # Místico Ádvena 08-06-2020 01:06
Quis grafar: Paraíso Apagado por um Trovao, que nos remete aos instants iniciais da vida do autor, sem em por em causa outras grandes obras, como LISBON BLUES, por exemplo.
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0 # Místico Ádvena 07-06-2020 18:38
Concordia com o meu compatrício SÓCRACRATES DE SANTIAGO em como o PARAÍSO APAGADO PORTROVAO ocupa um lugar central n'a poética do nosso irmão tarrafalense, José Luiz Tavares. É um livro que nos remete aos instants iniciais da vida do autor e de, certains forma, de nós próprios Isso sem outras grandes obras como, por exemplo, LISBON BLUES.
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0 # ALBERTO LOPES 06-06-2020 19:33
Desculpas aceites, meu caro patrício, Sócrates de Santiago. São as partidas que, por vezes, as TIC nos pregam, sobretudo a nós que pertencemos à Idade da Caneta, do Lápis e do Papel. Mudando de assunto, espero ser convidado para a prometida paródia literária com o nosso Camões , José Luís Tavares, um vate da minha ribeira. Não te esqueças também de convidar outros amigos íntimos do poeta, a começar pelo Místico Advena, outro grande versejador e prosador, das ribeiras de São Miguel, nosso vizinho e, outrora, irmão gêmeo. Um abraço amigo e, desde já, muito obrigado!
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0 # SÓCRATES DE SANTIAGO 06-06-2020 12:57
Senhor Administrador/Editor do nosso jornal SANTIAGO MAGAZINE, muito agradecia a V.Exa. se mandasse publicar o meu pedido de desculpas ao meu amigo Alberto Lopes, por ter enviado o texto dele com o meu nome, violando, inconscientemente, os direitos do autor. Meus sinceros cumprimentos.
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0 # SÓCRATES DE SANTIAGO 06-06-2020 09:15
O autor do segundo comentário não sou eu, Sócrates de Santiago. O texto é de Alberto Lopes, por lapso, foi parar ao meu e- mail. A Deus o que é de Deus e a César o que é de César. Peço, pois, ao senhor editor que faça a devida justiça, publicando o texto com o nome do seu verdadeiro autor. Minhas sinceras desculpas ao Alberto Lopes.
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0 # AlBERTO LOPES 06-06-2020 09:05
Queria deixar para o fim o comentário aos textos publicados e a publicar concernentes ao teu projecto genial, intitulado PÁTRIA SOLETRADA À VISTA DO HERMATÃO, que já vai no quinto capítulo. Porém, não poderia ficar indiferente a este belo texto teu sobre TXONBON, diria, TXONBON DI MANGUI, o bairro ou aldeia onde nasceste. Sinceramente, tocou- me profundamente a evocação deste lugar simbólico e das pessoas em nome próprio, lugar e pessoas de corpo e alma que tão bem conhecemos e amamos e que nos marcaram, marcam e marcarão eternamente. Este texto é também, particularmente, uma homenagem a todos nós que nascemos no Tarrafal de Santiago, em TXONBON, COLHE BICHO, MONTERIA, PONTA LAGOA, PONTA DE GATO, MANGUI BAXU, PONTA FURNA, RIBEIRA DA PRATA, BISCAINHOS, etc.,uma forma sublime de recuperarmos o paraíso perdido da nossa infância e adolescência. Fico à espera dos outros textos. Um caloroso abraço amigo e poético a ti, ó José Luís Tavares, Balicha, entre amigos, tu que muito nos orgulha como filho deste chão cabo- verdiano e cidadão do mundo.
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0 # JLT 05-06-2020 23:24
Agradeço os comentários aqui expendidos, aproveitando a oportunidade para informar que na próxima quarta-feira, dia do meu aniversário, teremos mais três sequências diferentes, aqui no santiago magazine e em mais dois onlines da praça.
Quanto ao comentário Patrício Sócrates de Santiago de que este trecho é, em parte, a retoma do universo de Paraíso Apagado por um Trovão, nem por acaso, ontem outro grande leitor falava-me disso mesmo.
Comer umas moreias fritas em Txonbon, na Várzea da companhia, ou no meu adoptivo bairro do Brasil, na julieta, na mesma rua onde vivi anos, é perspectiva suficientemente excitante para começar a fazer já as malas para Cabo Verde, assim abram os céus aos voos dos primeiros aviões.
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0 # SÓCRATES DE SANTIAGO 05-06-2020 22:33
Queria deixar para o fim o comentário aos textos publicados e a publicar concernentes ao teu projecto genial, intitulado PÁTRIA SOLETRADA À VISTA DO HERMATÃO, que já vai no quinto capítulo. Porém, não poderia ficar indiferente a este belo texto teu sobre TXONBON, diria, TXONBON DI MANGUI, o bairro ou aldeia onde nasceste. Sinceramente, tocou- me profundamente a evocação deste lugar simbólico e das pessoas em nome próprio, lugar e pessoas de corpo e alma que tão bem conhecemos e amamos e que nos marcaram, marcam e marcarão eternamente. Este texto é também, particularmente, uma homenagem a todos nós que nascemos no Tarrafal de Santiago, em TXONBON, COLHE BICHO, MONTERIA, PONTA LAGOA, PONTA DE GATO, MANGUI BAXU, PONTA FURNA, RIBEIRA DA PRATA, BISCAINHOS, etc.,uma forma sublime de recuperarmos o paraíso perdido da nossa infância e adolescência. Fico à espera dos outros textos. Um caloroso abraço amigo e poético a ti, ó José Luís Tavares, Balicha, entre amigos, tu que muito nos orgulha como filho deste chão cabo- verdiano e cidadão do mundo.
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+1 # SÓCRATES DE SANTIAGO 05-06-2020 21:06
Em jeito de resposta ao repto lançado pelo nosso patrício Djuza, dir- lhe- ia que já li o texto TXONBON, do nosso poeta, José Luís Tavares, dentro de um projecto maior, PÁTRIA SOLETRADA À VISTA DI HERMATÃO , só que andava a matutar sobre o comentário a fazer ao mesmo, já que não estamos em presença de um poeta qualquer, mas, sim, indubitavelmente, do MAIOR POETA CABO- VERDIANO DE TODOS OS TEMPOS, O NOSSO CAMÕES. Aliás, semelhante observação já a tinha feito, aquando da publicação do primeiro texto deste grande e singular projecto. Sou um grande admirador do poeta José Luís Tavares e tenho lido quase todos os livros dele e há um, o PARAÍSO APAGADO POR UM TROVÃO, que é um dos meus livros de cabeceira e levo- o comigo sempre que vou ao Tarrafal de Santiago, terra do nosso poeta José Luís Tavares, mas também terra dos meus avós, onde passei um bom bocado da minha infância. Quando estou nas belíssimas praias do Tarrafal, no Colonato de Chão Bom ou na caminhada da bela enseada de Chão até à Ribeira da Prata, percurso que faço sempre que estou no Tarrafal, costumo declamar para os amigos os poemas do citado livro. Sinceramente, dizer que o texto TXONBON é belo não é suficiente. José Luis Tavares, neste texto, retoma um pouco o PARAÍSO APAGADO POR UM TROVÃO, refunda um lugar que é TXONBON, sua aldeia natal, tornando- o algo mítico, para além do tempo. Neste texto TXONBON, creio, em todos os textos de José Luís Tavares, há um incrível labor poético, um trabalho oficinal, em que as frases e os versos e cada elemento dos mesmos, são bem medidos e trabalhados e convergem para um conjunto harmonioso, com fortes laivos do belo aristotélico e da estética kantiana. De momento é o que me cabe opinar sobre este sublime texto do nosso POETA- MOR, José Luís Tavares, a quem aproveito para endereçar os meus respeitosos cumprimentos. Cumprimentos também a si, senhor Djuza. Espero, um dia, encontrarmo- nos, eu, o senhor Djuza e o nosso CAMÕES CABO- VERDIANO, para embocarmos uma boa cerveja gelada ou um bom grogue singelu acompanhados de uma quente moreia frita, à maneira dos velhos tempos, na RIBA STRADA DI TXONBON ou ali numa tasca qualquer na VÁRZEA DE COMPANHIA ou no BRASIL DE ACHADA DE SANTO ANTÓNIO.
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0 # Mîstico Âdvena 05-06-2020 16:43
Com um prazo inderrogável no cachaço, com a parelha de um jugo tosco e desengonçado, que bem podia ser uma tocha de vitória em cima do cavalo de heroísmo. Podia ser, para nos acenar e dizer: olá! Estais livre, doravante. Antes, porém, por esbirros e caprichos, insiste em como nos deve seviciar e catrafilar, acorrentando-nos os pés, os pulsos e a cintura, levando-nos a sofrer, deitando espuma e baga pela boca. Campeia por aí instantes de sufoco e de bastante sofreguidão. Não obstante isso, ainda nos sobra, ao menos, a liberdade para saudar, de longe, mui embora. Ninguém nos tira a ânsia de soprar, nem a vontade de anunciar uma virada das nossas vidas. Todavia, a cada instante, temos sulfurosa massa ingente, em torno de pescoços combalidos, com um estertor dorido. A matéria espelho de cansaço, que nos desce queixo a baixo, para sujar a nossa túnica de estima, indo morrer na friorenta soladura dos pés. Sim, o escangalho de espartilho cheira a mofo e a bafiento odor de morge. E dá a imagem de prematuros cangalheiros na redondeza. Uns aparatos à volta da queixada, que dão provimento ao suado da nossa voz, só para constar que estamos vivos e a respirar, que ninguém nos pode mandar calar. Só isso, porque é da lei não assustar. E seria sempre compadecido o gesto de nos soltar destas amarras. Ainda se a nossa baga fosse da branca bagacina, constrastando com a pele polida e negra, podia ser, mas não é. Nisto, damos razão a uma das nossas eternas referências, Ovídio Martins, quando postula: - «Ninguém nos tapa a boca para não gritarmos/ninguém nos aperta o pescoço para não exigirmos/o processo continua». Contudo, a profecia dos gongons que açodam o nosso definhamento sentencia que nosoutros vamos morrer às catadupas. Os mentores e pretores, os leviatãs da sorte dos pequeninos, ensasiaram as suas dis[censurado]s pela ganância do poder e do dinheiro, lá nos confins dos seus infernos, e andaram tão distraídos, que nem se lembraram da implacabiliadde da própria morte. E nós, agora, com toda a canga e toda a tralha nos pesando no espinhaço, com saudades de um pé de dança, do calor das patuscadas e bebedeiras, com bafo quente, de grogue, peixe frito ou de torresmo, não importa. Ainda assim, ainda assim, podemos sempre erguer o braço, da fresta de uma grades, para acenar, para o lugar que nos couber por conveniente. Então, estamos aqui para afirmar: eu vi, eu li. Gostei. Por isso, sou a deixar, como prova da minha vista, o tal aceno, com desabafo de um desgraçado do confinado.
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0 # Djuza 04-06-2020 14:47
É pela adesão ou não a textos deste quilate que vemos o que a incultura semeada pelos políticos manhentos tem feito a este país: défice de literacia literária que impede tantos e tantos, habituados apenas à pocilga das redes sociais, de desfrutarem de pérolas destas. Aguardamos o comentário do patrício Sócrates de Santiago
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0 # ALMO 04-06-2020 12:51
Elaboração sui generis, grande escritor Verdiano e Lusófono. Um criador inquestionável. Mais luzes para esse brilho imaculado.
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