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Os estudantes cabo-verdianos radicados em Wuhan (China), o epicentro no novo coronavírus, afirmaram numa missiva enviada às autoridades que têm assistido a várias declarações que contradizem aquilo que foi utilizado como justificativa à recusa da sua evacuação.

A afirmação consta numa carta enviada ao ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Filipe Tavares, à Embaixadora de Cabo Verde na China, Tânia Romualdo, e a outras entidades, a que a Inforpress teve acesso.

Esta preocupação surge após o governo ter descartado a hipótese de evacuar os estudantes cabo-verdianos que se encontram em Wuhan, uma vez que tal medida iria contra as directrizes das autoridades da República Popular da China e da Organização Mundial de Saúde, indicando que estão a avaliar todos os cenários.

A posição do governo foi manifestada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Filipe Tavares, em conferência de imprensa, na Cidade da Praia, agendada para falar da situação dos estudantes na China, face à propagação do Coronavírus que já matou, até hoje, 491 pessoas, em vários países.

“Perguntámo-nos, primeiramente, se as referidas directivas variam de país para país, ou se só se aplicam aos estudantes cabo-verdianos de Wuhan”, lê-se na carta, onde os estudantes dizem também que se tem assistido a evacuações diárias de cidadãos estrangeiros para os seus países de origem, com “apoio total” dos seus respectivos governos, para zonas específicas de quarentena ou até bases militares.

Citam casos dos franceses, seichelenses, britânicos, australianos, japoneses, argelinos, tunisinos, marroquinos, portugueses, indianos, jordanos, palestinianos, norte-americanos, dentre outros.

Num outro ponto da mesma missiva, os estudantes frisaram que as autoridades nacionais afirmam recentemente em entrevistas que o país está preparado para a chegada e eventuais infectados pelo coronavírus, questionando em seguida o porquê de um país “que se considera preparado para receber eventuais infectados e até dispõe de uma zona de isolamento para quarentena no Hospital do Sal, não é capaz de os receber.

“Se o objectivo é não expor os seus cidadãos, porque nos expor a nós estudantes de Wuhan? A caso não somos cidadãos cabo-verdianos e por isso temos de ficar aqui à mercê da sorte? Será que diferentemente dos outros cidadãos, não somos merecedores da protecção do nosso governo? Se não podemos voltar para Cabo Verde porque eventualmente colocaremos um país inteiro em risco, porque é que não se aplicam as mesmas medidas aos cidadãos estrangeiros provenientes de países onde já existem casos confirmados do vírus?”, questionam.

Para os estudantes cabo-verdianos em Wuhan, a forma como se está a falar deles parece que já estão infectados e que ainda estão condenados a ficar naquela cidade, por esta ser o epicentro do vírus.

“Sendo o 2019-nCoV um vírus novo, é impossível prever como o mesmo irá se comportar, muito menos se irá ser mais ou menos mortal do que outras epidemias”, dizem os estudantes, para quem “cada minuto em Wuhan é um risco para todos os residentes”.

Estes manifestam ainda preocupados pelo facto de ainda não se saber ao certo quais as consequências ou sequelas que o vírus pode causar aos seres humanos, uma vez que se estima que o desenvolvimento de uma vacina durará meses e que nem há garantias quanto à efectividade da mesma.

“Por quanto tempo as autoridades cabo-verdianas pretendem deixar-nos aqui à mercê desta situação?”, voltam a questionar os estudantes cabo-verdianos em Wuhan, agradecendo que sejam comunicados, caso for intenção deixa-los ali, à espera de que se façam todas as pesquisas, investigações ou até que se consiga controlar o vírus, pois, dizem, “esta situação está a tornar-se cada vez mais difícil e desgastante a nível emocional”.

Os cabo-verdianos em Wuhan dizem ainda que estar isolados numa quarentena, sabendo que há um vírus à solta não é uma sensação agradável e que por isso estão com medo.

“Travamos lutas diárias contra o vírus, mas também lutas a fim de nos mantermos física e mentalmente saudáveis”, escrevem.

Os estudantes ressaltam também que 10 dias após o isolamento da cidade de Wuhan e uma semana desde que endereçaram uma primeira carta à Embaixada de Cabo Verde em Pequim, “o quotidiano em Wuhan não se alterou”.

“A cidade continua com escassez de materiais de prevenção como máscaras, luvas, desinfectantes entre outros. Mesmo seguindo as medidas de precaução e isolamento sugeridas pelas autoridades, o risco de infecção dentro e fora do dormitório faz-se cada vez mais presente, uma vez que os ‘international offices’ estão ainda fechados, o único canal de comunicação entre os mesmos e os estudantes continua a ser a aplicação WeChat”, relatam.

Por último, questionam os estudantes se, para além de entrevistas, conferências de imprensa, publicações nas redes sociais, de ligações telefónicas e mensagens a recomendar a calma, a desejar uma “semana tranquila sem incidências”, as autoridades cabo-verdianas têm algo novo para falar.

“Ou se apenas pretendem continuar ‘a acompanhar com redobrada atenção, mas de modo sereno e responsável, a evolução do surto do coronavírus que afecta a República Popular da China’”, finalizam.

O director Nacional da Saúde, Artur Correia, apelou hoje aos estudantes, chineses e familiares que regressaram para “cumprirem rigorosamente” as recomendações das autoridades sanitárias e a respeitarem as normas de protecção e de restrição social a nível domiciliária.

Segundo o responsável, das 28 pessoas que vão regressar a Cabo Verde, 20 já se encontram no país, nomeadamente em São Vicente, Santa Catarina, Santo Antão e Sal, e brevemente irá chegar mais quatro estudantes que se encontram em gozo de férias em países vizinhos da China.

O número de mortos provocados pelo novo coronavírus (2019-nCoV) subiu hoje para 491, com 64 mortes registadas na China nas últimas 24 horas, anunciaram as autoridades de saúde de Pequim.

Segundo a agência Associated Press, o número total de pessoas infectadas com o novo coronavírus, detectado em Dezembro de 2019, na cidade de Wuhan, capital da província de Hubei (centro do país), colocada, entretanto, sob quarentena, aumentou para 24.324.

Com Inforpress



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